Como a tensão entre Irã e EUA pode mexer com o agronegócio brasileiro

    Setor acompanha com cautela e apreensão os desdobramentos das negociações entre os países, com risco de impacto direto no petróleo, dólar e insumos agrícolas

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    Como a tensão entre Irã e EUA pode mexer com o agronegócio brasileiro
    19deFevereirode2026ás10:20

    Em um mundo conectado por cadeias logísticas altamente globalizadas, instabilidades ocorridas do outro lado do planeta impactam diretamente o agronegócio brasileiro, como ondas de choque. 

    É justamente o que vem acontecendo no contexto das recentes negociações entre o Irã e os Estados Unidos, seguidas de alertas nos mercados globais nas últimas semanas. 

    A tensão se intensificou após o aumento da presença militar norte-americana na região, com riscos de escalada bélica e negociações nucleares ainda difíceis e lentas. 

    O último movimento, no entanto, trouxe algum alívio, sobretudo ao mercado de fertilizantes, após anúncio de ambas as partes de que houve “certo progresso” nas negociações entre as potências, conforme noticiado pelo Agro Estadão. 

    Uma das formas mais diretas pelas quais esse cenário pode afetar o agro está nos preços do petróleo e dos combustíveis em geral. Nos últimos dias, e diante das incertezas, o preço do barril de petróleo subiu mais de 4%, refletindo temores de interrupções no abastecimento global caso o conflito escale. 

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    A cotação do petróleo Brent ultrapassa os US$ 70 na manhã desta quinta-feira (19). 

    Esse movimento nos preços do petróleo repercute no agronegócio de duas maneiras principais. Primeiro, porque combustível representa um custo importante em todas as etapas da produção agrícola. 

    Segundo, porque o preço dos fertilizantes, muitos dos quais dependem de energia, também costuma acompanhar as oscilações dos combustíveis no mercado internacional. 

    Fertilizantes: um ponto de atenção 

    O Brasil depende fortemente de importações de fertilizantes para sustentar sua produção agrícola. Estima-se que 85% dos insumos sejam importados, o que expõe o setor a variações de preço no exterior. 

    A rota marítima mais tradicional para o transporte desses insumos, como a ureia, que acumulou alta de 5% só na primeira quinzena de fevereiro, passa pelo estratégico Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, fechado recentemente (e pela primeira vez) pelo Irã para realização de exercícios militares. 

    Essa região concentra boa parte das exportações mundiais de fertilizantes e é um ponto crítico em casos de conflito geopolítico. Ou seja, qualquer interrupção ali tende a pressionar (para baixo) a oferta global e encarecer os preços internacionalmente, com reflexos nas cotações pagas pelos produtores brasileiros. 

    E com o dólar eventualmente pressionado no contexto de risco geopolítico, com aversão dos investidores a tomada de risco, a força do impacto pode ser dobrada. Um fechamento prolongado da rota poderia facilmente causar uma escalada nos preços dos adubos e prejudicar produtores de milho, soja e açúcar. 

    E os mercados de commodities? 

    Embora o Brasil não dependa diretamente desses países para exportar produtos como soja, milho ou café, os mercados globais são interconectados. 

    Oscilações nos preços de energia e fertilizantes podem alterar expectativas de custo de produção e influenciar decisões de plantio, estoques e até decisões de investidores no mercado internacional. 

    Em outras palavras: mesmo que os principais compradores da soja brasileira, por exemplo, estejam em outros continentes, o risco geopolítico pode se traduzir em volatilidade nas cotações agrícolas, custo de insumos e competitividade do Brasil no exterior. 

    Isso sem contar o risco para as exportações brasileiras ao país persa. O Irã é um importante comprador de milho e carnes (halal) do Brasil, então, conflitos podem travar essas rotas comerciais, exigindo a busca por mercados alternativos, o que não é simples nem rápido. 

    No radar 

    Energia e combustível: movimentos no preço do petróleo tendem a repercutir nos custos logísticos e de produção no agro; 

    Fertilizantes: qualquer ameaça à cadeia de suprimentos global pode pressionar ainda mais os preços desses insumos já caros; 

    Mercados internacionais: ameaças de tarifas adicionais dos EUA sobre países que negociam com o Irã, se confirmadas, podem complicar as relações comerciais brasileiras. 

    No fim das contas, o agronegócio brasileiro, como setor conectado ao mundo, está exposto às reviravoltas da geopolítica mundial. Cabe diversificar mercados e fornecedores, acompanhar a tensão de perto e agir em conjunto (e com rapidez) para dirimir eventuais impactos ao consumidor, que é o elo final desta cadeia.

     

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