Trabalhadores “ilhados”, aldeias destruídas, gado fugindo de fogo: incêndios se alastram pelo Brasil

    Brasileiro é acusado de incêndio gigante que cobre o Paraguai de fumaça

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    Pelo menos 231,83 mil hectares de lavouras de cana-de-açúcar foram atingidos pelos recentes incêndios registrados no interior de São Paulo. (Foto - Unica)

    Pelo menos 231,83 mil hectares de lavouras de cana-de-açúcar foram atingidos pelos recentes incêndios registrados no interior de São Paulo. (Foto - Unica)

    09deSetembrode2024ás10:47

    Os incêndios não cessaram no fim de semana e continuam atingindo o Brasil. Várias cenas tristes foram flagradas pelo país em alguns estados no sábado (dia 7) e domingo (dia 8).

    No Mato Grosso, trabalhadores foram resgatados em meio ao fogo e terras indígenas foram atingidas, com lavouras destruídas. Em Goiás, um vídeo flagrou gado fugindo de incêndio e em São Paulo os prejuízos não param de aumentar.

    Mato Grosso em chamas

    Em Cáceres, a 250 km de Cuiabá, nove pessoas precisaram ser socorridas em meio a um incêndio florestal de grandes proporções que atingiu uma fazenda. Ninguém ficou ferido.

    Segundo a polícia, a grande quantidade de fumaça e o fogo que se alastrou com o vento no local dificultaram o resgate, já que todas as pessoas que estavam na entrada da fazenda foram encobertas pela fumaça e os maquinistas ficaram perdidos no meio do pasto.

    Um sinal e a sirene da viatura foram utilizados para que os trabalhadores seguissem o som e fossem levados para um local seguro na hora do resgate. Após o primeiro resgate, foi feito um reagrupamento e combate ao incêndio.

    Os militares notaram, minutos depois, que outros dois trabalhadores, entre eles um maquinista que fazia acero, ficaram cercados pela fumaça devido a força do vento, sem rádio de comunicação. Os militares entraram no pasto e realizaram o resgate.

    Terras indígenas

    20 mil hectares na Terra indígena Rio Formoso, entre Tangará da Serra e Campo Novo do Parecis, a 242 km e 397 km de Cuiabá, foram destruídos pelo fogo no fim de semana. Ao todo, oito aldeias da Terra indígena já foram afetadas e a lavoura foi destruída pelas chamas. Ninguém ficou ferido e as moradias foram salvas.

    Segundo o Corpo de Bombeiros, o incêndio teve início há uma semana na região de serra e foi controlado de início pelas equipes. No sábado (dia 7), as chamas voltaram a se alastrar com intensidade nas aldeias Maekawa e quatro cachoeiras.

    Segundo o líder indígena Paresí da Aldeia Rio Formoso, Geovani Kezokenaece, toda a lavoura da aldeia ficou destruída.

    “Foi um desespero e um susto muito grande. Os últimos pés de banana foram queimados por uma perda irreparável na nossa fauna e lavoura. Os guerreiros que ajudaram no combate ao fogo foram os brigadistas indígenas.”, contou ao G1.

    Gado foge em GO

    Em Goiás, na cidade de Rio Verde, no sudoeste do estado, um vídeo registrou vários bovinos fugindo do fogo em uma fazenda que foi atingida por um incêndio.

    O Corpo de Bombeiros não soube dizer se os animais que aparecem na filmagem conseguiram sobreviver.

    O fogo se alastrou com muita facilidade por conta do tempo seco e quente e, com isso, atingiu várias áreas de vegetação públicas e privadas.

    “Tiveram outras ocorrências próximas a esse local aí na GO-333, onde várias equipes nossas atuaram a tarde toda. Teve uma propriedade rural que foram cerca de 30 animais que morreram queimados, além de outros animais como cavalos, bodes que ficaram feridos devido à queimadura dessas chamas”, explicou o subtenente Santos.

    Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que Goiás soma 3.274 queimadas neste ano. O número é 72% maior que os 1.899 focos de calor registrados nos oito primeiros meses do ano passado. Em 2024, o Cerrado teve 83% de aumento nos focos de calor.

    Durante o final de semana, de 6 a 8 de setembro, Goiás registrou 855 focos de incêndio.

    No estado ainda, um incêndio iniciado na última quinta-feira (5) destruiu 10 mil hectares do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. De acordo com a administração da unidade de preservação, a área atingida é ainda uma estimativa e fica entre o Paralelo 14 e a Cachoeira Simão Correia.

    Em nota divulgada, a chefia do parque informou que ainda não sabia o que ou quem provocou o incêndio, o que sinaliza que a unidade de preservação entende que pode ter sido criminoso.

    Brasileiro acusado no Paraguai

    Um incêndio gigantesco atinge áreas de vegetação na região de Chovoreca, no Norte do Paraguai e junto à fronteira com a Bolívia. A área queimada supera 100 mil hectares e o fogo é descrito pelos bombeiros como “incontrolável” tal a extensão da área queimando e as condições atmosféricas de vento, muito baixa umidade e calor extremo.

    O incêndio no Cerro Chovoreca teria começado ainda na semana passada, segundo os moradores, e foi resultado de trabalhos de limpeza realizados na fazenda Clemencia S.A., que seria propriedade do brasileiro Tomás Reis, de acordo com a imprensa paraguaia.

    Segundo os primeiros relatos, o incidente ocorreu em uma área protegida e habitat do povo indígena e florestal Totobiegosode (ainda não civilizado e, portanto, isolado da população).

    Para os moradores não há dúvida de que o incêndio foi intencional na propriedade do fazendeiro, onde foram queimadas as colleras (lenha seca), produtos do desmatamento. Afirmam que o proprietário da fazenda foi avisado das consequências que a queimada poderia causar, considerando o clima seco e os ventos fortes que predominavam na área, mas os avisos foram ignorados.

    Para combater os incêndios, também se juntaram à tarefa bombeiros florestais da Secretaria Nacional de Emergência (SEN) e dos Bombeiros Voluntários azul e amarelo, que já partiram para a zona do Parque Nacional Chovoreca.

    Os grandes incêndios no Chaco ocorrem nas fazendas Campo Grande, Uruguai, Fazenda Nicanor e Chovoreca. Moradores da região descreveram o cenário de fogo como um “filme de terror” em entrevista ao jornal ABC Color de Assunção.

    O impacto ambiental atinge a capital Assunção com a fumaça do incêndio no Chaco se somando a que chega da Bolívia e da Amazônia brasileira.

    Segundo os relatórios do IQAIR, a concentração de PM2,5 em Assunção é atualmente 13,6 vezes maior do que o valor da diretriz anual de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que representa um índice “prejudicial” para aqueles que estão expostos.

    Incêndios atingiram 230 mil hectares de cana em SP

    Pelo menos 231,83 mil hectares de lavouras de cana-de-açúcar foram atingidos pelos recentes incêndios registrados no interior de São Paulo. O dado é fruto de levantamento parcial realizado pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) junto às usinas do estado e refere-se aos incêndios ocorridos em agosto. As empresas com os números já contabilizados representam mais de 75% da produção paulista de cana-de-açúcar.

     De acordo com o levantamento, 132,04 mil hectares são de áreas que ainda seriam colhidas. O restante, ou seja, 99,79 mil hectares, é referente a locais em que a cana-de-açúcar já havia sido colhida ou a lavouras de cana-planta (plantadas nesse ano para colheita no próximo ciclo agrícola).

    As regiões de Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e São Carlos foram as mais atingidas pelos incêndios, respondendo por cerca de 90% da área queimada apurada até o momento. Nas regiões de Piracicaba, Araçatuba e Assis o impacto dos incêndios foi menor.

    Combate e prevenção

    A Unica e suas associadas colocaram à disposição do Estado de São Paulo toda a estrutura de combate ao fogo já disponível nas usinas. Mais de 1,5 mil caminhões-pipa e cerca de 10 mil colaboradores do setor sucroenergético treinados para combater incêndios continuam atuando sob coordenação do governo estadual.

    “Nesse momento, os esforços do setor sucroenergético seguem dedicados à prevenção e combate dos focos de incêndio, com segurança aos colaboradores e colaboração com o Governo do Estado”, destaca o diretor de Inteligência Setorial da Unica, Luciano Rodrigues.

    Governo de SP

    O governo de São Paulo decretou, nesta semana, Estado de Emergência com 50 municípios, embora 317 seja o total de cidades atingidas com foco de incêndio naquele estado, que já registrou 480 mil hectares de áreas afetadas em 8.049 propriedades, gerando um prejuízo que deve ultrapassar R$ 2 bilhões, sendo o setor sucroenergético o mais afetado, mas atingindo também grãos e pecuária.

    Fumaça de incêndios atinge 60% do Brasil e pode chegar na Argentina e Uruguai

    A MetSul Meteorologia alerta que a área coberta por fumaça na América do Sul nesta semana vai aumentar e vai atingir áreas que ainda não tinham registrado a presença de fuligem em suspensão na atmosfera, resultado de correntes de vento do quadrante Norte.

    A origem principal da fumaça está no Sul da região amazônica, sobretudo no Sul do estado do Amazonas, no chamado arco do desmatamento, assim como no Pará, Mato Grosso e na Bolívia, onde o número de queimadas tem sido bastante elevado durante esta primeira semana de setembro. Nos últimos três dias, o fogo aumentou muito também no Paraguai com um grande incêndio no Chaco.

    Devido às correntes de vento de Norte para Sul com ar quente pelo interior da América do Sul, um corredor de fumaça que acompanha uma corrente de jato em baixos níveis, um corredor de vento a cerca de 1.500 metros de altitude, que se origina no Sul da Amazônia e desce até o território gaúcho, trará ainda mais fumaça para o Sul do Brasil.

    O modelo CAMS de dispersão atmosférica de aerossóis da União Europeia (Sistema Copernicus) indica que haverá muita fumaça de queimadas durante toda esta semana nos três estados do Sul do Brasil, uma vez que ar mais quente atuará durante o período na região.

    O modelo indica ainda que a fumaça nesta primeira metade da semana vai atingir áreas ainda livres da fuligem e muito ao Sul como Buenos Aires e Montevidéu, as capitais da Argentina e do Uruguai, respectivamente. A fumaça dominará parte do Centro argentino e todo o território uruguaio.

    Com isso, uma enorme área da América do Sul nesta semana vai ter a coloração do céu alterada pela presença de fumaça com aspecto de névoa e acinzentado. Haverá redução de visibilidade com o material particulado deixando o sol laranja e vermelho.

     

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