Os bastidores da troca do Cepea pela Datagro no indicador do Boi da B3
Com apoio de frigoríficos, balança pendeu para o lado dos Nastari
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A alteração do indicador do boi gordo na B3 culmina uma novela de 14 anos com a adoção das referências da Datagro em lugar do Cepea, que o elaborava diariamente há quase três décadas.
O enredo envolveu não apenas os dois grupos, mas também atores como pecuaristas, frigoríficos, a própria B3, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), empresas de tecnologia e até esquadrões de hackers.
Como quase sempre na vida, nem todos estavam satisfeitos. Isso por si só é até compreensível já que, segundo Thiago Carvalho, coordenador técnico da pecuária do Cepea, os preços nem sempre agradam a todos.
“As críticas podem existir porque, por estarmos no meio de campo, um lado acredita que o preço deveria estar mais alto e o outro, mais baixo. É como a tabela Fipe para os carros. Ainda assim, sempre mantivemos um diálogo muito aberto sobre o indicador do boi gordo”, disse.
De fato, nenhuma das fontes consultadas pelo Agrofy News questionou a metodologia do Cepea em si. A queixa, segundo agentes do mercado, residia no tamanho da amostra, que estaria limitada pela tecnologia usada para coleta dos dados.
Nos últimos cinco anos, o pleito por uma integração digital ganhou mais adeptos. O desejo era a atualização das bases via API, a fim de garantir o cômpito de 100% das transações realizadas entre pecuaristas e frigoríficos participantes.
O Cepea não se opunha à adoção tecnológica, contudo, o avanço não foi implementado.
“Desde 2007, o Cepea tem tentado implementar melhorias tecnológicas em seus processos, mas enfrenta resistência, especialmente por parte dos frigoríficos, que não demonstraram interesse em compartilhar dados de maneira mais aberta e colaborativa”, disse.
Uma vez que não era obrigada a compartilhá-los por força contratual, a indústria não divulgava a totalidade dos dados.
O motivo ventilado no mercado não seria necessariamente a intenção de influenciar o indicador, mas sim questões mais prosaicas.
Impasse
O impasse envolveu por anos aspectos tecnológicos, mercadológicos e até mesmo legais. A essa altura, todas as partes pareciam concordar que o indicador deveria evoluir.
Até mesmo o Cepea reconheceu que, por determinado período, o indicador ficou com uma amostra menor devido a mudanças na equipe, o que foi corrigido já há meses. Então, surgiram novos obstáculos.
Segundo uma fonte que participou das conversações, o Cepea não teria apresentado uma tecnologia capaz de garantir a inviolabilidade dos dados a frigoríficos. Em outras palavras, uma plataforma à prova de hackers.
A isso, o órgão respondeu que os responsáveis de TI do indicador são doutores e garantem o maior nível de segurança existente no mercado. “Nenhum sistema é completamente incorruptível, nem mesmo de governos ou do Itaú”.
Além disso, segundo um pecuarista envolvido nas negociações, o órgão público também teria tido dificuldade em indicar um responsável civil e criminal - um CPF – em caso de vazamento de dados.
“Nossos contratos são firmados de CNPJ para CNPJ, no caso B3 e Fealq. E esse CNPJ tem responsável legal, que é o diretor-presidente e responsável técnico, o coordenador técnico. Ou seja, temos mais de um CPF. Não está ao vento”, disse a comunicação do Cepea.