Mais disputado que medicina, “vestibular” da Embrapa seleciona a nova geração de pesquisadores
Presidente da Embrapa, Silvia Masshurá também falou sobre biológicos e COP30 ao Agrofy News

A Embrapa passará a efetivar uma nova geração de pesquisadores com os 1.027 aprovados no seu concurso púbico já a partir do segundo semestre de 2025.
O “vestibular” da Embrapa foi mais concorrido que os mais desejados cursos de medicina e marcará um marcante rejuvenescimento dos quadros da instituição.
A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, explicou que o pleito superou as expectativas e revelou o prestígio que a ciência agropecuária ainda desperta entre os jovens brasileiros.
Em entrevista ao Agrofy News durante o Biossumit, ela disse que foram mais de 400 mil inscritos, dos quais 279 mil candidatos efetivamente habilitados para as cerca de mil vagas.
Para se ter ideia, a relação de candidatos por vaga para Medicina na Fuvest da USP chegou a 96,5 no vestibular 2025.
Os resultados divulgados na semana passada revelam um perfil majoritariamente de jovens entre 28 e 34 anos entre os aprovados.
Muitos dos quais sequer poderiam ter participado do último concurso da Embrapa, que foi realizado há mais de 15 anos.
“É uma geração que está saindo da universidade, com mestrado ou doutorado, e agora terá a oportunidade de desenvolver seu potencial dentro da Embrapa”, afirma.
A chegada dos novos funcionários será gradual, com admissões previstas já para o segundo semestre de 2025, a partir de outubro.
Para integrar esse time de futuros cientistas da agropecuária tropical, a empresa estruturou um programa de imersão e capacitação batizado de “Valoriza”.
O treinamento abrange desde cultura organizacional até as diretrizes de inovação, parcerias e políticas públicas.
“Queremos garantir que esses novos talentos estejam alinhados com os sete eixos estratégicos da Embrapa”, explica Silvia.
Em meio à transição digital e aos investimentos em inteligência artificial no campo, Silvia destaca o papel da Embrapa como guardiã de 50 anos de dados e tecnologias para a agricultura tropical.
“Essas informações ajudam a pensar em uma soja de baixo carbono ou em selos de sustentabilidade para a carne brasileira, entre tantas outras iniciativas e entregas. O passado nos orienta, mas é a inovação que nos projeta para o futuro.”
Biológicos ganham espaço (e royalties)
Paralelamente à renovação de quadros, a Embrapa acelera sua agenda de inovação com foco em bioprodutos.
A presidente destaca, inclusive, que há uma inversão na origem dos royalties da empresa.
"Se antes as cultivares (especialmente de soja e arroz) lideravam a arrecadação, agora os bioinsumos estão crescendo mais rápido e têm assumido protagonismo”, diz.
Entre os lançamentos mais recentes, destacam-se o Bioma Fosfo, voltado à solubilização de fósforo; o Combio, que atua na fixação biológica de nitrogênio e no controle de pragas; e o Auras, um produto derivado de bactéria extraída do mandacaru, com aplicações já testadas em milho e soja.
“Temos hoje uma rede de mais de 40 unidades da Embrapa trabalhando com microrganismos. É um portfólio robusto, que avança dentro da lógica da agricultura regenerativa”, diz.
A presidente cita como marco recente o reconhecimento internacional da pesquisadora Maria Ângela Hungria, premiada como uma espécie de “Nobel da agricultura” por sua contribuição na área de bioinsumos.
“Ela representa toda uma rede de cientistas da Embrapa. Isso nos enche de orgulho e mostra como o Brasil pode liderar a transição para uma agricultura mais sustentável”, resume.
Embrapa na COP30
Em preparação para a COP30, a Embrapa organizou uma estratégia como um ciclo de tres fases.
O pré-COP vem realizando eventos mensais em todos os biomas brasileiros para mobilizar as regiões e levantar cases.
Durante a COP30 em Belém, a entidade contara com a instalação da Agrisone – uma casa da agropecuária sustentável com vitrines tecnológicas.
Além disso, está previsto o acompanhamento pós-COP, com a formulação de projetos estruturantes para os próximos anos.
“A COP não é só o evento em si. O mais importante é o que vem depois. Vamos aproveitar essa vitrine global para apresentar soluções baseadas em ciência e atrair parcerias internacionais”, afirma Massruhá.
Entre os temas prioritários estão rastreabilidade, saúde única, sistemas agroflorestais e fixação de nitrogênio em não leguminosas.
Segundo ela, a Embrapa já possui cooperações com países como Estados Unidos, China e Japão, além de crescente demanda da África para a adaptação de tecnologias da agricultura tropical.
“Queremos ampliar as fontes de financiamento, combinando orçamento público, royalties e recursos internacionais. A Embrapa do futuro será como uma pizza com várias fatias de sustentação”, compara.
