Setor avalia Plano Safra da Agricultura Familiar com ressalvas: avanço limitado e juros em alerta

    Entidades reconhecem esforço do governo, mas apontam que volume de recursos ficou abaixo do necessário

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    Setor avalia Plano Safra da Agricultura Familiar com ressalvas: avanço limitado e juros em alerta
    30deJunhode2025ás17:04

    O anúncio do Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026,  feito pelo Governo Federal nesta segunda-feira (1º), foi recebido com reações mistas por entidades e lideranças do setor.

    Com volume recorde de R$ 89 bilhões em recursos, sendo R$ 78,2 bilhões via Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), o pacote traz linhas de crédito, estímulo à mecanização, irrigação sustentável e redução no uso de agrotóxicos. Apesar disso, a percepção geral é de que os avanços ficaram abaixo das demandas reais do campo.

    O coordenador do Ramo Agro do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), João José Prieto, reconheceu o aumento em relação ao ciclo anterior, mas destacou que o valor ficou aquém do solicitado.

     “Houve um acréscimo em relação ao volume da safra vigente, mas ficou abaixo da demanda que apresentamos, que era superior a R$ 90 bilhões. De toda forma, é preciso reconhecer o esforço da equipe econômica e do MDA para manter a política agrícola em pé, ampliando recursos em um cenário de restrições fiscais”, disse.

    Prieto alertou ainda para a possível elevação nas taxas de juros para investimentos, que podem saltar de 6% para 8%.

     “Isso exigirá revisão de projetos em andamento, especialmente na área de agroindustrialização, o que pode impactar decisões sobre viabilidade e cronograma”.

    Para a superintendente do Sistema OCB e presidente do Instituto Pensar Agropecuária, Tania Zanella, o impacto nas cooperativas será direto.

    “Cerca de 70% dos cooperados das nossas cooperativas agropecuárias são do perfil da agricultura familiar. Logo, todas as medidas que são divulgadas aqui, hoje, têm impacto na vida dos cooperados e das cooperativas de forma direta ou indireta”, afirmou.

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    Fetag-RS cobra mais recursos e renegociação de dívidas

    A Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) apontou melhorias, mas criticou o crescimento modesto dos recursos diante das dificuldades enfrentadas no campo.

    “O aumento de 3,9% no volume total de recursos é insuficiente diante da demanda real do campo, especialmente após os efeitos climáticos e econômicos que atingiram nossos agricultores nos últimos anos”, avaliou o presidente da entidade, Carlos Joel da Silva.

    A Fetag também cobrou a publicação da portaria de equalização, que definirá os recursos com juros reduzidos.  

    “É fundamental que ela assegure juros justos e recursos suficientes para atender toda a demanda da agricultura e pecuária familiar”, pontuou Silva.

    A entidade alertou ainda para os juros aplicados a atividades como pecuária de corte e produção de soja — culturas estratégicas para produtores familiares no estado — e para o peso das dívidas acumuladas, que seguem travando o acesso ao crédito.

    “O Plano Safra é importante, mas para muitos não adianta ter crédito novo se não houver resolução do problema das dívidas acumuladas. É preciso uma política robusta de renegociação que leve em conta a realidade do campo”, reforçou.

    Mecanização e incentivos mantêm fôlego

    Na avaliação de Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Agricultura da Abimaq, o plano foi positivo ao manter os juros baixos para aquisição de máquinas, mesmo com alta da Selic. “De forma geral, o plano foi muito bom, porque ele [o governo] manteve o juro do ano passado, apesar de a Selic ter saltado de 10,5% para 15%”, explicou ao Globo Rural.

    Segundo o governo, o limite de financiamento para compra de máquinas menores subiu de R$ 50 mil para R$ 100 mil, com taxa de juros mantida em 2,5%. Já para equipamentos de até R$ 250 mil, os juros ficaram em 5%.

    “Nós temos um aumento de 73,6% de operações de mecanização. Se a gente quiser reter o jovem no campo, se quiser incentivar a mulher a manter-se no campo e o agricultor no campo, a mecanização é decisiva", afirmou o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira.

    Execução e justiça social: o desafio está no campo

    Representando a Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Brasil (Contraf), Josana Lima reforçou a importância do plano como ferramenta de transformação social e ambiental.

    “Sabemos que o Plano Safra é mais que um conjunto de medidas financeiras. Ele traduz a forma como o Estado brasileiro enxerga e apoia a produção de alimentos e a permanência das famílias no campo com proteção do meio ambiente e construção de um projeto nacional de desenvolvimento com justiça social. A nossa responsabilidade agora é olhar para a execução e garantir que o que foi anunciado se transforme em realidade", declarou.

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