Empresa admite possível contaminação de ração após morte suspeita de até 800 cavalos

    Caso pode ser um dos mais fatais por inadequação de insumos veterinários na história do Brasil

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    Empresa admite possível contaminação de ração após morte suspeita de até 800 cavalos
    24deJulhode2025ás10:19

    A empresa Nutratta Nutrição Animal Ltda reconheceu pela primeira vez, em nota enviada ontem (dia 23) ao site Metrópoles, que há indícios de contaminação em rações fabricadas por ela, consumidas por cavalos em diversas regiões do Brasil.

    Desde março, suspeita-se que ao menos 788 animais morreram após ingerirem o produto. A causa provável é a presença da substância monocrotalina, altamente tóxica para equinos.

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) já confirmou oficialmente 284 mortes, número inferior ao reportado pelos criadores de equinos afetados.

    O caso pode ser um dos mais graves em termos de mortes de animais por contaminação de insumos na história do Brasil.

    Segundo o comunicado, análises preliminares apontam que a monocrotalina teria origem em plantas do gênero Crotalaria, utilizadas em adubação verde, que podem ter contaminado matérias-primas vegetais.

    “Embora as investigações ainda estejam em curso, informações preliminares indicam a possível presença da substância”, afirmou a empresa, que teve a venda do produto proibida e diz ter adotado medidas corretivas.

    raçao contaminada nutratta

    A Nutratta lamentou os casos de intoxicação e mortes “supostamente associadas” à ração e informou que está revisando protocolos sanitários e de rastreabilidade. Também mencionou a reestruturação do layout fabril e reforço em controles laboratoriais como parte da resposta à crise sanitária.

    Em São Paulo, mais de 400 mortes suspeitas de cavalos foram registradas, a maioria em cidades do interior como Campinas, Sorocaba, Itu, Jundiaí, Jarinu e Indaiatuba. Os números são de um levantamento coordenado pela advogada Maria Alessandra Agarussi, que representa criadores afetados e lidera o grupo “Vítimas da Nutratta”.

    A situação é descrita como uma tragédia em andamento. “Os casos aumentam diariamente. Mortes são observadas em todo o país”, afirma a advogada, que prepara ações judiciais individuais contra a empresa.

    Caso inédito

    Segundo estimativas, 513 cavalos seguem em tratamento e outros 410 estão sob observação clínica. Caso os animais não resistam, o número poderia ascender a quase 2 mil equinos vitimados.

    Além de São Paulo, há registros de mortes em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Alagoas, Bahia, Goiás, Rio Grande do Norte e Santa Catarina. Os sintomas mais comuns entre os animais são perda de apetite, desorientação, comportamento anormal e dificuldade de locomoção.

    “Eles encostam a cabeça na parede, depois começam a bater, a morder”, descreveu Marcos Barbosa, dono do haras Dia de Sol, em Guarulhos (SP), que perdeu nove animais.

    triste cavalo

    Segundo o Mapa, a contaminação foi causada por falhas no controle da matéria-prima, que continha resíduos de Crotalaria, planta rica em alcaloides pirrolizidínicos, como a monocrotalina.

    Esses compostos são proibidos na formulação de rações por serem hepatotóxicos, capazes de alterar o DNA celular e causar danos irreversíveis ao fígado. Os efeitos variam conforme a dose e o tempo de exposição.

    A contaminação pode ocorrer tanto por uso indevido de ingredientes proibidos quanto por falhas na separação de matérias-primas.

    Suspensão

    Em decisão recente, a Justiça revogou a autorização parcial que permitia à Nutratta continuar fabricando rações para outras espécies.

    Com isso, volta a valer a suspensão total imposta pelo Mapa, válida até que a empresa comprove a correção de todas as irregularidades identificadas na fiscalização.

    As investigações começaram em 26 de maio, após denúncia recebida pelo canal Fala.BR do próprio Ministério da Agricultura e Pecuária.

    Em 30 de maio, fiscais estiveram em uma propriedade em Elias Fausto (SP) e identificaram suspeita na ração. Inspeções posteriores na fábrica confirmaram falhas nos processos de produção e controle de qualidade.

    Entre 2 e 4 de junho, o Mapa encontrou novas evidências de que os animais afetados haviam consumido exclusivamente produtos da Nutratta. Em 25 de junho, análises laboratoriais confirmaram a presença de monocrotalina.

    Desde então, o Ministério vem recolhendo lotes contaminados e conduzindo um processo administrativo.

    O Mapa permanece em alerta e promete transparência total nas investigações. O órgão também reforça a recomendação para que criadores suspendam imediatamente o uso de qualquer ração fabricada pela Nutratta até nova orientação oficial.

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