Proteína vegetal cresce, mas não deve afetar preço ao pecuarista

O que gera insatisfação são a rotulagem e o discurso adotado sobre estes produtos da nascente cadeia

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Hambúrguer vegetal à base de fibra de caju enriquecido com proteína texturizada de soja. (foto - Ana Elisa Galvão/Embrapa)

Hambúrguer vegetal à base de fibra de caju enriquecido com proteína texturizada de soja. (foto - Ana Elisa Galvão/Embrapa)

06deJulhode2022ás09:20

Apesar de serem ainda classificados como nicho de mercado, os produtos à base de plantas, chamados plant based em inglês, aumentam sua presença e variedade nos mercados. 

Informações coletadas pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) mostram que a perspectiva é de que continuem a crescer numa tendência global.

A entidade cita estudo da Bloomberg Intelligence sobre o comércio destes produtos em 2020 que teria chegado a US$ 29,4 bilhões. A projeção para 2030 é que atinja a US$ 162 bilhões, equivalente a 7,7% do mercado mundial de proteínas.

“Vemos que quando surge uma startup para atuar na área ela angaria muitos recursos, no Brasil e no exterior, tanto que também as gigantes da proteína animal do país igualmente entram neste mercado”, afirma Bruno Lucchi, diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Numa pesquisa pela internet não é difícil se encontrar produtos de base vegetal da JBS, BRF, Marfrig além de outras de porte menor e várias foodtechs, incluindo estrangeiras como a chilena NotCo.

Agropecuária e narrativas

Como alimento igualmente originário do campo, Lucchi diz que a CNA não tem posição contraria à nascente cadeia, contudo demonstra preocupação em dois aspectos, em primeiro a rotulagem que algumas marcas utilizam para divulgar seus produtos.

“O consumidor precisa ter o real entendimento do que consume, de que não é carne, não é leite, não é ovo e por isso deve levar outro nome”, justifica.

A entidade atua junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) através das câmaras setoriais e apoia projeto de lei que está no Congresso e trata de regulamentar o assunto no caso do leite.

Mas a questão que mais preocupa a CNA é o discurso por vezes adotado que trás descrédito ao segmento de produção animal em aspectos como sustentabilidade e bem-estar da criação.

O diretor enfatiza que pecuária brasileira é uma das mais sustentáveis do mundo e que existem estudos demonstrando isso, além do que as normas de bem-estar são respeitadas. Ele acrescenta que há o que melhorar e que isto deve ser uma constante dentro do setor, independente se pecuária ou agricultura.

Preços ao produtor

“A CNA respeita as diferenças, sejam veganos, vegetarianos e os que comem tudo, cada um tem o direito de escolher como vai viver, o que nos aflige é o uso de informações incorretas e a falta de transparência do que se consome”, diz.

No curto e médio prazos, Lucchi não acredita em mudanças de preços no campo por influência dos produtos de base vegetal. Existe um público fiel, que avalia ser a maioria, que não deixará de comer carne, leite e ovos de verdade. No longo prazo considera que isso dependerá de como as cadeias se organizem e a qualidade das informações, a não ser que ocorra em anos uma “revolução” no consumo.

Quanto às exportações nacionais, espera da mesma forma que não sejam afetadas. Na Ásia, onde o consumo de alimentos mais cresce no mundo e é o grande mercado brasileiro, a demanda é por proteína animal, enquanto que na Europa, onde o consumo se mostra estagnado, é onde cresce a demanda por produtos de base vegetal, segundo monitoramento da CNA.

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