Dia internacional da Cerveja: desafios da produção de cevada

Produtores brasileiros estudam como padronizar qualidade dos grãos

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Área de cultivo da cevada cresceu nos últimos cinco anos no Paraná. (Foto: Embrapa)

Área de cultivo da cevada cresceu nos últimos cinco anos no Paraná. (Foto: Embrapa)

05deAgostode2022ás16:33

Entre os principais produtores mundiais de cerveja, o Brasil celebra hoje (dia 5) o Dia Internacional da bebida... Alguém pensou em #sextou? 

Entre os motivos para “bebemorar” a data está o fato de as lavouras brasileiras de cevada, um dos principais ingredientes da cerveja, já são comparáveis as melhores do mundo – embora os desafios do setor ainda sejam muitos.

A afirmação é da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária baseada em levantamento divulgado durante a 33ª Reunião Nacional de Pesquisa de Cevada, nos dias 2 e 3, em Passo Fundo (RS).

O estudo avaliou o desempenho das safras da cevada no Brasil nos anos de 2019, 2020 e 2021 e apontou que, de forma geral, considerando também dados da Conab, a produtividade média das lavouras ficou acima de 3,6 toneladas por hectare.

Contudo, setor ainda necessita de maior estabilidade na oferta de grãos com qualidade, especialmente para abastecer a indústria de malte instalada no País.

A Embrapa aponta análises da Ambev segundo as quais o percentual de grãos de cevada aproveitados pela indústria malteira no Rio Grande do Sul foi de 50% em 2019, caiu para 41% em 2020 e chegou a 72% em 2021.

A explicação é a qualidade da cevada cervejeira variou em função do clima, principalmente estiagem na implantação da cultura ou excesso de umidade na floração e colheita.

 “Olhando apenas para 2021, num ano de clima favorável nós perdemos 30% da produção por falta de qualidade. Não é uma margem aceitável. Nem tudo é culpa do clima, precisamos aperfeiçoar etapas do sistema, desde a implantação das lavouras, passando pelo manejo até o recebimento na indústria”, avalia o pesquisador Mauri Botini, da Ambev. 

Indústria cervejeira

Segundo a Embrapa, a indústria cervejeira precisa de grãos de cevada que apresentem um teor mínimo de 9,5% e um máximo de 12% de proteína bruta, além de 95% de taxa de germinação, atributos que permitem fazer malte com qualidade que atende o mercado.

Também são desejáveis grãos de maior tamanho e livres da contaminação por micotoxinas.

A má notícia é que, justamente em função do nível de exigência com relação a atributos físicos e químicos dos grãos de cevada para fins cervejeiros, muitos produtores do Rio Grande do Sul  estão trocando a cevada pelo trigo.

A área de cevada que chegou a 90 mil hectares (ha) em 2015, caiu para 38 mil ha na última safra.

Atualmente, entre os cultivos de inverno em solo gaúcho, a cevada representa apenas 2% da área, enquanto o trigo cobre 74% e a aveia 21%.

“A redução na área foi uma estratégia da empresa em busca de estabilidade e melhor eficiência no cultivo de cevada na região”, conta Botini.

Ele explica que a cevada requer um pacote tecnológico superior ao trigo, num sistema de produção que está sendo aprimorado junto aos produtores parceiros.

E avalia que, com o avanço de novas cultivares, a área deverá voltar a crescer, especialmente na metade norte do Estado, onde os rendimentos são superiores. 

Paraná amplia cultivo

A boa notícia é no estado do Paraná a área de cultivo vem crescendo nos últimos cinco anos e chegou a 73 mil ha em 2021, aumento diretamente relacionado ao trabalho de fomento à cevada.

Entre as 214 famílias cooperadas da Cooperativa Agrária, o crescimento tem sido acima de 10% ao ano.

“A área de cevada tem avançado sobre o trigo, principalmente pela vantagem de sair mais cedo da lavoura e permitir a semeadura antecipada da soja”, explica o pesquisador da FAPA/Agrária, Noemir Antoniazzi.

Outro cenário é que, historicamente, os grãos de cevada que não atingem o padrão para malteação são destinados à ração animal com valor equiparado ao do milho, com defasagem que chegou a representar 50% no passado.

Porém, com a alta nos preços de grãos em geral e o mercado de alimentação animal aquecido, muito produtores tendem a investir menos na lavoura de cevada, especialmente com baixa adubação.

 “Toda cevada cervejeira pode ser forrageira, mas nem toda cevada pode ser utilizada para malteação dados os requisitos mínimos de qualidade”, explica Caio Batista, gerente regional Agro da Ambev.

Segundo ele, no mundo, do volume de 145 milhões de cevada produzidos anualmente, apenas entre 10 e 15% é utilizado para fins cervejeiros.

Para o pesquisador Aloísio Vilarinho, da Embrapa Trigo, o mercado de cevada na alimentação animal está apenas começando no Brasil, mas deverá se consolidar rapidamente: “A escassez de milho frente à crescente produção de proteína animal abre a oportunidade para o uso dos cereais de inverno na alimentação animal.”

A 33ª Reunião Nacional de Pesquisa de Cevada reuniu mais de 120 pesquisadores no auditório da Embrapa Trigo, em Passo Fundo, RS, nos dias 2 e 3 de agosto. A realização foi da Ambev, em parceria com a FAPA/Agrária e a Embrapa.

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