Tonelada de CO2 a US$ 20 é mais rentável que pecuária na Amazônia, diz estudo

    Preservação e regeneração da floresta podem gerar US$ 960 bilhões em 30 anos

    Amazônia tem 9% do PIB brasileiro e 50% das emissões de gases de efeito estufa. (foto - divulgação)

    Amazônia tem 9% do PIB brasileiro e 50% das emissões de gases de efeito estufa. (foto - divulgação)

    05deOutubrode2023ás12:04

    Quanto deveria custar a tonelada "fixada" de CO2 para a preservação da floresta amazônica ser mais rentável que a pecuária?

    Para responder essa pergunta, os economistas José Alexandre Scheinkman e Juliano Assunção fizeram o estudo “O carbono e o destino da Amazônia”, que concluiu: US$ 20 por tonelada de CO2 (cerca de R$ 100).

    A cifra leva em conta o nível de produtividade atual da pecuária no bioma, que está bastante abaixo da média nacional, e o valor que deveria ser pago no mercado internacional por captura do gás de efeito estufa pela restauração florestal.

    "O preço de US$ 20 por tonelada de carbono capturado liquidamente pelo bioma Amazônia faria com que o restauro florestal via regeneração natural se torne mais rentável do que a pecuária em praticamente toda a região”, dizem os pesquisadores.

    No primeiro semestre de 2023, o preço médio do mercado europeu foi aproximadamente US$ 90 por tonelada de C02.

    O carbono analisado é o de restauração florestal, que consiste em captura líquida de carbono como aqueles negociados nos mercados regulados de carbono.

    Mercado de carbono fragmentado

    Segundo os autores, mecanismos associados ao pagamento por redução de desmatamento tendem a ter valores de carbono mais baixos. Mesmo assim, os economistas alertam que o atual status do mercado de carbono ainda “incentiva” o desmatamento.

    “Na ausência de um mecanismo robusto de pagamento pelo carbono florestal, a nossa análise revela que, mesmo com os esforços existentes de combate ao desmatamento, ainda haveria incentivos para o aumento do desmatamento via expansão da pecuária”, dizem.

    Apesar  disso, o desmatamento na Amazônia tende a aumentar e deve atingir um ponto de não retorno em menos de duas décadas, emitindo aproximadamente 32 bilhões de toneladas de CO2, ao longo dos próximos 30 anos.

    O mercado de carbono no mundo pode ser regulado ou voluntário. O regulado é o que se tem na Europa, em que as empresas têm cotas de emissão. Se excederem compram de quem emitiu menos. E existe o voluntário, de iniciativa já adotada por grandes empresas.

    “O grande problema do mercado de carbono hoje em dia é que ele é altamente fragmentado. Você pode comprar crédito de carbono na Europa, na Califórnia ou em outros estados. Isso é uma maneira muito ineficiente de combater a mudança climática. Para a atmosfera tanto faz se o carbono vai da China, do Brasil ou dos Estados Unidos”, afirmou ao jornal O Globo, José Alexandre Scheinkman.

    Oportunidade bilionária e sustentável

    Caso o mercado de carbono funcionasse bem, apenas a captura de carbono via regeneração natural, com compensação de US$ 20 por tonelada, já seria vantajosa para o controle do desmatamento.

    O efeito combinado do carbono capturado pela restauração florestal e o desmatamento evitado (emissão evitada) seria de 48 bilhões de toneladas de CO2 nos próximos 30 anos.

    No total, esses volumes valeriam US$ 960 bilhões (US$ 320 bilhões do reflorestamento e US$ 640 bilhões de emissão evitada). O valor representa cerca de 60% do PIB anual do país.

    Contudo, 21% da Amazônia está desmatada e 90% desse total é ocupado pela pecuária de baixa produtividade, comumente usada por grileiros para justificar posse de terras ilegalmente invadidas. “A área ocupada com o gado que é hoje de 15% pode cair para 4% com uma pecuária mais produtiva”, explica Juliano.

    De acordo com os autores, essa prática cria uma situação contraditória na qual a Amazônia tem 9% do PIB brasileiro e 50% das emissões de gases de efeito estufa.

    “A Amazônia vive essa combinação: emite muito, tem muito desmatamento e esse desmatamento está ligado a uma pecuária de baixa produtividade. A produtividade da pecuária na Amazônia ficou estagnada entre os censos agropecuários de 2006 e 2017. Simultaneamente, a Amazônia tem alta capacidade de restauro pela regeneração da floresta”, explicou Juliano Assunção.

    Base empírica

    Scheinkman disse que a pesquisa é um trabalho teórico, mas envolvido em muito conhecimento empírico com grande volume de dados, o que tornou possível colocar um “preço” no tema pela primeira vez

    Os dois economistas apresentam o estudo como argumento de negociação entre o Brasil e outros países para obter remuneração pela conversão de pastos em florestas e reduzir a área ocupada por gado na Amazônia.

    Enfim, a oportunidade de financiamento para a preservação e regeneração é muito maior e atrativa do que se acreditava. 

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