Frigoríficos alagados, propriedades isoladas: o impacto da tragédia do RS no agro
Ainda mais grave, as chuvas já deixaram 31 mortos e 74 desaparecidos
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Maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul já causou 31 mortes e deixou 74 desaparecidos, em razão dos temporais que atingem o estado desde a última segunda-feira (dia 29).
Os estragos causados pelos temporais também atingiram o agro gaúcho. Segundo informações repassadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, pelo menos dez frigoríficos do estado paralisaram totalmente os abates, na maioria de aves e suínos, e uma unidade cancelou os trabalhos.
Os abates foram cancelados em nove cidades prejudicados pelos alagamentos e fortes chuvas que não param no estado. São elas:
- BRF suínos (Lajeado),
- JBS (Caxias do Sul),
- Carrer Alimentos (Farroupilha),
- Cooperativa Dália Alimentos (Arroio do Meio),
- BRF aves (Lajeado),
- Companhia Minuano de Alimentos (Lajeado),
- Cooperativa Languiru (Westfália),
- Agrosul Agroavícola Industrial (São Sebastião do Caí),
- Frigovale (Teutônia),
- Frigorífico Floresta (São Gabriel).
- O Frigorífico Nicolini, de Garibaldi paralisou as atividades

O impacto logístico também reflete nos frigoríficos, com a destruição de pontes e interdição de estradas, algumas também foram destruídas. Por causa disso, a retirada de animais e entrega de rações e outros insumos necessários para a produção estão paradas.
Auditores param mobilização
Segundo o Mapa, os auditores fiscais federais agropecuários prontamente atenderam ao chamado e suspenderam a Operação Padrão na região Sul do país.
A "Operação Padrão" acontece desde 22 de janeiro em todo o país. A mobilização é causada por reestruturação da carreira que afetava o ritmo dos trabalhos.
"Tem dez frigoríficos atingidos pelas enchentes, tem lugares com dificuldade de acesso para alimentação animal. Agradecemos a sensibilidade dos auditores", explicou o vice-presidente Geraldo Alckmin, em vídeo nas redes sociais
O ministro do Mapa, Carlos Fávaro, também agradeceu os auditores e manifestou solidariedade. “A solidariedade dos nossos auditores que atenderam o chamamento nosso para que suspendessem a Operação Padrão tem que ser destacada. O Rio Grande do Sul vai passar por momentos difíceis, mesmo depois que as águas abaixarem, por causa de deslocamento de animais, precisaremos de abates intensificados para voltar a
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na região ontem e revelou que não faltará recurso para o estado se reconstruir.
“Os auditores decidiram suspender a mobilização no Rio Grande do Sul em razão da situação, de forma a não deixar cargas paradas, caminhoneiros nas estradas, e para liberar o máximo possível de importações de alimentos", disse o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) em nota.
Segundo o presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (ACSURS), Valdecir Luis Folado, é uma catástrofe jamais vista.
“Serão muitos dias, semanas, meses e em alguns casos anos para conseguir resolver. O que aconteceu em setembro do ano passado na região do Vale do Taquari não passa nem perto do que está acontecendo hoje”, explica o produtor.
Isolamento e feiras canceladas
Propriedades estão isoladas nas cidades atingidas. Produtores de arroz e soja relatam que devido as enchentes boa parte da safra será perdida.
Feiras e competições que estavam marcadas para maio foram canceladas e não têm mais data prevista de realização. Uma delas é a 36ª Fenovinos que aconteceria no município de Santa Margarida do Sul (RS)
A Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Crioulo (ABCCC) também comunicou o adiamento da Classificatória Gaúcha Sul ao Freio de Ouro, principal competição de animais da raça.
“A Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC) comunica o adiamento da realização da Classificatória Gaúcha Sul ao Freio de Ouro 2024, antes marcada para o período entre 15 e 19 de maio, em Esteio/RS, assim como também suspende a realização de quaisquer eventos de organização da Associação dentro do estado do RS no período de 6 a 19 de maio (com excessão da Concentração Prévia da Marcha, que até momento segue confirmada no dia 9 de maio, em Santa Vitória do Palmar/RS)”, disse em nota.
Uma nova data para a Classificatória Gaúcha Sul será divulgada em breve, buscando a melhor solução para uma segura realização do nosso calendário de provas, explicou a entidade.
A decisão foi tomada devido à situação das intensas chuvas que atingem o Rio Grande do Sul, o que já causa bloqueios em mais de 120 rodovias, enchentes registradas em inúmeros municípios e que deixa o todo o estado atualmente em alerta de calamidade pública. Após dias seguidos com grandes volumes de chuva o reflexo das cheias já atinge diversas regiões do RS e, inclusive, também a área do Cavalo Crioulo dentro do Parque de Exposições Assis Brasil, completa a nota.
Números da tragédia
Hoje a defesa civil divulgou novo, às 9h, sobre o impacto das chuvas. Confira:
- Óbitos: 31
- Municípios afetados: 235
- Pessoas em abrigos: 7.165
- Desalojados: 17.087
- Afetados: 351.639
- Feridos: 56
- Desaparecidos: 74
Por que chove tanto no Rio Grande do Sul?
O meteorologista e coordenador-geral de Operação e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Seluchi, explica que o fenômeno é resultado da junção de diversos fatores.
Segundo ele, a onda de calor localizada na região central do Brasil com alta pressão atmosférica leva à formação de ar seco e quente, que acaba por bloquear a passagem das frentes frias para o norte do país.
"Essas frentes frias vêm da Argentina, chegam rapidamente na Região Sul e não conseguem avançar. Temos uma sucessão de frentes [frias] que se tornaram estacionárias e estão mantendo as chuvas durante vários dias", explicou.
Seluchi não descarta ainda que as chuvas sejam reflexo do El Niño, que está em etapa final, e de forma indireta das mudanças climáticas, já que a atmosfera e os oceanos estão mais quentes, produzindo vapor adicional para formação das chuvas.
Até quando vai chover?
Seluchi prevê que os temporais ainda vão perdurar por dias, em razão de um fenômeno que ocorre no Oceano Pacífico, chamado sistema de bloqueio, que influencia no Brasil. Nesse sistema, conforme o meteorologista, uma situação atmosférica fica estagnada e persiste por dias.
"Esta situação [chuvas], infelizmente, deve se manter, com poucas mudanças, pelo menos até sábado com volumes muito elevados ainda, até superiores a 250 milímetros, especialmente na prção centro-norte do estado", disse.
De acordo com a previsão, no domingo, as chuvas devem continuar, mas já começam a perder força.
Conforme Seluchi, as frentes devem oscilar, podendo ir mais ao sul do continente, para o Uruguai, ou subir para Santa Catarina. A partir daí, as chuvas devem ser menos volumosas e com período maior sem chuva.
Terra encharcada
Seluchi alerta que o processo para absorção do volume de água também levará dias.
"Toda a água que já caiu no estado vai ser drenada, o que vai levar vários dias para se normalizar", acrescentou.
Por causa das chuvas que atingem o Rio Grande do Sul, o Lago Guaíba, que banha a capital, Porto Alegre, pode elevar em até cinco metros o nível até esta sexta-feira (dia 5).