Produtores de café, academia e entidades lançam manifesto contra venda da Fazenda Santa Elisa
Local ocupa uma área de sete hectares e abriga o maior banco genético de café do mundo
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O movimento contra a venda de parte da Fazenda Santa Elisa, um dos maiores centros de pesquisa agrícola e científico de São Paulo, ganha força.
O local abriga o maior banco de germoplasma de café do Brasil, sob a administração do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e é considerado fundamental para o desenvolvimento agrícola e a preservação genética da planta.
Pesquisadores, acadêmicos, parlamentares, sindicatos, produtores rurais e diversas entidades do agronegócio assinaram um manifesto em defesa da preservação da fazenda. O documento, que segue aberto para adesões, visa proteger o patrimônio científico e agrícola do estado.
Há duas semanas, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) já havia solicitado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) que reconsiderasse a venda.
A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) também alertou para um processo de mapeamento e desmembramento de fazendas dedicadas à pesquisa e conservação no estado.
A Fazenda Santa Elisa, que ocupa uma área de sete hectares, abriga o maior banco genético de café do mundo e realiza pesquisas essenciais para o setor agrícola, incluindo a macaúba, um tipo de planta pesquisada para biocombustíveis.
“O Centro Experimental do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), historicamente conhecido como Fazenda Santa Elisa, é um centro de pesquisa voltado ao desenvolvimento agrícola do estado de São Paulo, com resultados que chegam à agricultura brasileira e mesmo mundial”, diz trecho do abaixo-assinado.
Falta de investimentos
Em visita ao interior de São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas confirmou o mapeamento e alegou que a venda seria restrita a "áreas subutilizadas".
“Não dá para ficar se apegando à área, patrimônio. Isso é uma lógica meio patrimonialista. Então, tem áreas importantes para a pesquisa? Vamos ver. Qual é a área que, de fato, é importante para a pesquisa? Vamos manter a área importante para a pesquisa e o resto, vamos vender”, afirmou o governador há duas semanas, em visita a Sumaré (SP).
No entanto, a presidente da APqC, Helena Dutra Lutgens, enfatiza que essa justificativa é reflexo da falta de investimentos e de concursos públicos para as instituições de pesquisa, que, segundo ela, têm sido gradualmente desmanteladas.
“O alvo agora é o IAC, mas nos últimos anos, os Institutos Públicos de pesquisa vêm sofrendo um processo de desmonte, que já culminou com a extinção de instituições históricas e centenárias, como o Instituto Florestal, além dos Institutos de Botânica e Geológico e da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen)”, destaca a presidente da APqC.
Apoio
O abaixo-assinado, que defende a manutenção das áreas de pesquisa do IAC, conta com o apoio de várias entidades, como a Associação dos Docentes da Unesp (Adunesp), a Associação dos Docentes da Unicamp (Adunicamp), a Associação dos Docentes da USP (Adusp), entre outras. Além disso, figuras como o ex-ministro da Agricultura Luís Carlos Guedes Pinto, também se manifestaram contra a venda.
“Nós, abaixo-assinados, somos contra essa venda e o resultado que isso pode acarretar nas pesquisas sobre o café e diversos outros temas de pesquisa, no meio ambiente e na economia do país e apelamos para o governador para que cancele os estudos realizados sobre a possibilidade dessa venda”, diz um trecho do documento.

Centro de pesquisa
A Fazenda Santa Elisa é um dos maiores centros de pesquisa sobre o café no Brasil, sendo responsável por desenvolver variedades resistentes a doenças e pragas, além de se destacar por seu trabalho em adaptação das plantas às mudanças climáticas. Recentemente, pesquisadores do IAC conseguiram criar variedades de café resistentes à ferrugem e ao bicho mineiro, além de novas espécies tolerantes à seca e ao calor.
O banco de germoplasma da Fazenda Santa Elisa possui cerca de cinco mil acessos de diferentes tipos de café, muitos dos quais são raros ou ameaçados de extinção. Além disso, os estudos sobre o café arábica sem cafeína estão em andamento, o que pode revolucionar o mercado, atendendo consumidores sensíveis à cafeína.
O manifesto finaliza com um apelo ao governador para que cancele os estudos sobre a possibilidade de venda da fazenda, afirmando que a perda de qualquer parte da Fazenda Santa Elisa comprometeria seriamente a pesquisa agrícola e ambiental no estado de São Paulo e no Brasil.