Exportação de soja desaba 74,6% em receita até metade de fevereiro
Queda abrupta reforça indícios de mudança na política chinesa de importações

As exportações brasileiras de soja iniciaram 2025 com forte retração de 74,6% em receitas na somatória até a segunda semana de fevereiro, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
De acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o país exportou US$ 1,113 bilhão de soja nas seis primeiras semanas deste ano contra US$ 4,374 bilhões no mesmo período do ano passado.

Em janeiro, o valor exportado do grão somou US$ 435,5 milhões, contra US$ 1,454 bilhão no mesmo mês de 2024, configurando uma queda de 70,1%. O movimento fica ainda mais preocupante pois se repete em fevereiro.
Já nas primeiras duas semanas de fevereiro, o panorama permaneceu desfavorável: as vendas externas de soja somaram US$ 678,1 milhões, 76,8% abaixo dos US$ 2,919 bilhões registrados no mesmo período de 2024.
Esse movimento de baixa reflete, a menor demanda da China e outros parceiros e a competitividade de outros fornecedores com a recente valorização do real.
Estratégia chinesa
De acordo com analistas do mercado, a desaceleração nas compras chinesas é um dos principais fatores por trás dessa queda.
Segundo a BIMCO (Baltic and International Maritime Council), as importações de grãos em geral do gigante asiático caíram 51% em janeiro para o menor nível desde 2018.
A China, que historicamente absorve cerca mais de 60% das exportações de soja do Brasil, estaria reduzindo temporariamente seus pedidos devido a estoques elevados e a uma estratégia de compras mais cautelosa no início do ano.
Além disso, a China tem buscado diversificar suas fontes de suprimento e fortalecer estoques próprios, o que lhe permite operar de forma mais flexível no mercado internacional de soja.
O país asiático também registra um histórico recente de adoção de medidas protecionistas pontuais em certos setores, incluindo o agronegócio, o que pode inibir compras de fornecedores estrangeiros.
O Brasil, por sua vez, mantém uma dependência considerável em relação à China para escoar a produção de soja.
Essa relação estreita, consolidada ao longo de pelo menos duas décadas, tornou o mercado chinês o destino prioritário dos grãos brasileiros, mas também aumenta a vulnerabilidade a qualquer variação na demanda do gigante asiático.
Histórico
No ano passado, as exportações de soja bateram recorde em diversos meses, sustentadas pelo apetite chinês e por problemas de oferta em outros países concorrentes.
Em 2025, porém, o contexto é de maior competição global, com previsão de grandes colheitas em algumas regiões, ao mesmo tempo em que a China sinaliza maior cautela em suas importações.
Apesar desse cenário, entidades do agronegócio brasileiro projetam uma safra volumosa de soja em 2025, o que pode pressionar ainda mais as cotações internas.
Agro em geral
Embora o recuo na soja chame mais atenção pelos valores envolvidos, a retração nas exportações afetou a balança comercial agropecuária de forma mais ampla.
Em janeiro, o total de produtos do agronegócio exportados pelo Brasil atingiu US$ 3,794 bilhões, o que significou uma queda de 10,1% na média diária em relação a janeiro do ano anterior.
Em fevereiro, a redução nas receitas do setor agropecuário também foi relevante. As vendas externas, no período até a segunda semana, alcançaram US$ 1,983 bilhão, um decréscimo de 21,8% na média diária em comparação ao mesmo intervalo do ano passado.
Tais números reforçam o papel expressivo que a soja desempenha na pauta de exportações brasileiras.
