La Niña pode terminar antes do previsto, indicam dados da NOAA
Temperatura do Pacífico Equatorial se distancia de um típico evento do fenômeno
Por |
No Brasil, o Rio Grande do Sul enfrenta uma estiagem severa, com temperaturas elevadas e perdas nas lavouras
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), agência de meteorologia dos Estados Unidos, anunciou em janeiro que o fenômeno La Niña teve início em dezembro de 2024.
No entanto, medições recentes da temperatura da superfície do mar sugerem que a transição para um cenário de neutralidade pode ocorrer antes do esperado.
Segundo o boletim semanal mais recente da NOAA, a anomalia de temperatura na região Niño 3.4, referência para definir a presença de La Niña ou El Niño, foi de -0,3°C — dentro da faixa de neutralidade (-0,5°C a +0,5°C). É a primeira vez desde 4 de dezembro que esse índice atinge um patamar neutro.
Com base nas medições diárias, há possibilidade de que o próximo boletim da NOAA confirme, pela segunda semana consecutiva, uma anomalia dentro da zona de neutralidade.
No entanto, o fim oficial da La Niña só será confirmado após semanas consecutivas de valores neutros, o que pode ocorrer ao longo de março.
Impactos no Brasil e no Peru
O atual episódio de La Niña entrou em fevereiro no terceiro mês e já afeta o clima. No Brasil, o Rio Grande do Sul enfrenta uma estiagem severa, com temperaturas elevadas e perdas nas lavouras de soja e milho.

Enquanto isso, na região Niño 1+2, que monitora a temperatura da costa do Peru e Equador (mas não define a presença de El Niño ou La Niña), a anomalia atual é de +0,9°C.
Essa área não apresentou temperaturas consistentes com La Niña por longos períodos, indicando que o evento tem características de um episódio do Pacífico Central, sem influência significativa na costa da América do Sul.
Nos últimos dias, o Peru tem enfrentado chuvas intensas devido ao aquecimento das águas do Pacífico em sua costa.
Há um debate sobre a possibilidade de um "El Niño Costeiro", fenômeno que poderia aumentar as chuvas no Sul do Brasil. No entanto, meteorologistas peruanos ainda não confirmam essa condição.
Quanto tempo La Niña deve durar?
Segundo análise da MetSul Meteorologia, a tendência para as próximas semanas é de uma transição gradual para a neutralidade. Modelos climáticos indicam que a probabilidade de La Niña diminui nos próximos meses.
A última atualização mensal da NOAA aponta as seguintes projeções para os próximos trimestres:
-
Março a maio de 2025: 34% de chance de La Niña, 66% de neutralidade e 0% de El Niño.
-
Abril a junho: 29% La Niña, 70% neutralidade, 1% El Niño.
-
Maio a julho: 27% La Niña, 68% neutralidade, 5% El Niño.
-
Junho a agosto: 28% La Niña, 60% neutralidade, 12% El Niño.
Já o International Research Institute for Climate and Society (IRI), da Universidade de Columbia, projeta um cenário semelhante, mas com maior probabilidade de La Niña a partir de julho.
Para o trimestre de setembro a novembro de 2025, o IRI estima 54% de chance de La Niña, 35% de neutralidade e 11% de El Niño.
O que é La Niña e como afeta o Brasil?
La Niña é um fenômeno climático caracterizado pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico equatorial central e oriental. Ele faz parte do ciclo El Niño-Oscilação Sul (ENOS) e tem impacto direto nos padrões climáticos globais.
Durante um episódio de La Niña, os ventos alísios se intensificam, resfriando ainda mais o oceano e alterando a distribuição das chuvas e temperaturas ao redor do mundo. Entre 2020 e 2023, um evento prolongado de La Niña causou estiagens severas no Sul do Brasil e uma crise hídrica na Argentina, Paraguai e Uruguai.
Os impactos no Brasil variam por região:
-
No Sul, há maior risco de estiagem, mas também podem ocorrer episódios de chuvas intensas.
-
No Norte e Nordeste, La Niña geralmente aumenta as precipitações.
-
No Centro-Oeste, as chuvas tendem a ser mais irregulares.
Além da chuva, La Niña influencia as temperaturas. No Sul do Brasil, há maior probabilidade de massas de ar frio tardias no primeiro ano do fenômeno e precoces no segundo.
Já as estiagens podem intensificar ondas de calor no verão.
Em escala global, La Niña tende a reduzir a temperatura média do planeta.
No entanto, devido ao aquecimento global, mesmo durante um evento forte de La Niña, as temperaturas médias globais ainda ficam acima do que se registrava durante um El Niño intenso décadas atrás.