Reestruturada, FMC volta os olhos e US$ 600 milhões para o futuro próximo
Renato Guimarães, presidente da companhia no Brasil, detalhou parte do pipeline da empresa até 2029

Após uma reestruturação enfrentada também por diversos players de insumos agrícolas entre 2023 e 2024, a FMC reforça sua prioridade no agro brasileiro com olhos e investimentos robustos até 2029.
A afirmação é de Renato Guimarães, presidente da FMC no Brasil, que detalhou os desafios recentes e algumas das estratégias da multinacional ao Agrofy News.
“A pandemia para o agro ocorreu após a pandemia da Covid”, diz Renato, explicando a forte oscilação que atingiu o mercado. Segundo ele, a alta demanda entre 2019 e 2022 levou ao acúmulo excessivo de estoques e à queda brusca dos preços, afetando profundamente distribuidores e fabricantes.
Em resposta, a FMC foi uma das primeiras grandes empresas no setor a promover uma reestruturação, iniciada no fim de 2023 e concluída até abril de 2024. “O sonho de 2021 e 2022 não era realidade. Readequamos a empresa ao tamanho real da operação”, explica o executivo.
Com essa estabilização concluída, a FMC agora se volta para o futuro com planos consistentes de expansão, baseados principalmente na inovação tecnológica. “Passamos de uma empresa pós-patente para sermos uma companhia pré-patente graças à aquisição dos ativos de pesquisa da DuPont”, afirma Renato.
Como a incorporação dos ativos ocorreu em 2017, a FMC iniciou o processo de desenvolver/registrar novas moléculas, o que leva até sete anos anos.
Passado este período, a empresa começa a entregar “o futuro da proteção de lavouras” que inclui seis novas moléculas no mercado brasileiro até 2029 a partir de US$ 600 milhões de investimento.
O pipeline da FMC inclui ainda investimentos estratégicos em biológicos, especialmente com o produto Sofero Fall, um feromônio para o controle da Spodoptera frugiperda, que tem potencial de reduzir drasticamente a população da praga em culturas como milho e algodão.
Mais culturas
Essa ampliação de portfólio permitiu que a FMC diversificasse sua atuação para além das culturas tradicionais como cana-de-açúcar, arroz e algodão, ganhando destaque também em soja, milho e especialidades. “Agora conseguimos jogar todos os jogos do mercado agrícola brasileiro”, garante Renato.
Outro avanço crucial envolve o modelo de distribuição, que passou por ajustes regionais significativos. No sul, o foco recai sobre distribuidores regionais e cooperativas; no Centro-Sul, há uma combinação equilibrada entre distribuição e vendas diretas aos grandes produtores.
“Precisamos competir também em vendas diretas, mas mantendo forte nosso sistema de distribuição”, esclarece o executivo.
No campo financeiro, a FMC aposta fortemente no barter, considerado por Renato como a melhor ferramenta financeira desenvolvida nos últimos 30 anos para o agro. “Estamos investindo em treinamento para expandir o barter entre nossos clientes”, revela.
Renato também reconhece os desafios financeiros atuais, incluindo as altas taxas de juros e os riscos de crédito, agravados pelas recuperações judiciais recentes. Porém, garante: “O produtor não ficará sem as nossas inovações tecnológicas e financeiras”.
“A FMC está há mais de 40 anos no Brasil e continuará trazendo soluções inovadoras e sustentáveis”, conclui Renato Guimarães, reforçando o compromisso de longo prazo da empresa com o agronegócio nacional.
Confira a entrevista com Renato Guimarães, presidente da FMC no Brasil:
Agrofy News (AN): A gente sabe que diversas grandes empresas, empresas de todos os tamanhos, tiveram uma oscilação entre 2023 e 2024. Como é que foi isso para a FMC e por que isso aconteceu?
Renato Guimarães (RG): Bom, Daniel, isso é um assunto que certamente vai virar motivo de algum livro no futuro, né? De aprendizado do passado. Mas a gente fala que a pandemia para o agronegócio aconteceu no pós-pandemia.
Nós surfamos uma onda na pandemia, um pouquinho antes da pandemia até 2019, até 2022, nós surfamos uma onda de grande prosperidade.
Preços de commodities lá em cima, consequentemente, por causa da pandemia e do medo, do receio de falta de produtos, os preços dos insumos agrícolas também subiram demais, o que causou uma falsa imagem de que o mercado brasileiro e global estava com crescimentos exorbitantes. Isso não era uma verdade.
Isso gerou uma bola de neve que em algum momento, quando as coisas começaram a se estabilizar com os preços das commodities voltando aos preços históricos, os preços de defensivos, de insumos de uma forma geral – defensivos, fertilizantes, sementes – também arrefeceram e voltaram aos preços históricos, e com toda a indústria otimista acreditando que teríamos uma super demanda, nos pegou com volumes a custos muito altos de estoques no Brasil que precisariam ser vendidos a preços muito abaixo do custo.
Então, a primeira desestruturação do mercado aconteceu porque nós estávamos todos muito estocados, com preços altíssimos sem a possibilidade de negociar com as fontes de suprimento lá do exterior.
Um segundo ponto foi o agricultor, com todo o receio, com medo de que não tivesse oferta de produtos, começou a fazer pedidos em diversos distribuidores, também causando nos distribuidores uma sensação de que a demanda era muito grande. Eles também se estocaram.
Só que cinco pedidos tinham só uma demanda, por exemplo. Isso deixou também todo o sistema de distribuição totalmente abastecido, com mais de uma safra para os anos seguintes.
Qual o retrato final? A indústria, por possuir margens maiores, assumiu um prejuízo. Na distribuição é diferente. Se você deixar distribuidores vendendo a preços muito abaixo do custo, certamente eles não aguentam, porque a rentabilidade do setor de varejo é muito menor.
Eu consigo conversar muito sobre isso porque eu já estive do lado da indústria, voltei para a indústria e passei todo esse processo em uma grande plataforma de distribuição, tanto na curva de crescimento como em toda essa crise que se passou depois.
AN: Olha como quem está ouvindo a gente já está aprendendo, né? Eu perguntei sobre o setor da indústria, já está aprendendo sobre a indústria e a distribuição, né? Por favor, continua, Renato.
RG: Nós tivemos que, como indústria, trazer esses produtos que estavam na distribuição de volta ou ajustar preços através de acordos comerciais, e isso trouxe mais prejuízo para dentro da indústria para a gente poder salvar o sistema de distribuição brasileiro.
Os resultados extraordinários de 2021 e 2022 foram devolvidos em 2023 e parcialmente em 2024.
AN: E daí as diferentes companhias adotaram diferentes táticas para se realinhar. Como foi no caso da FMC?
RG: No caso da FMC, nós tivemos que inicialmente falar: "Bom, nós temos que nos reestruturar para o tamanho real da operação".
O sonho de 2021 e 2022 não era uma realidade e nós nos reestruturamos. Nós fomos a primeira empresa do setor a nos reestruturar. Fizemos toda a reestruturação até abril de 2024.
Ainda tivemos ajustes a serem feitos em 2024, um ano de buscar a estabilidade, redesenhar a estratégia de crescimento para, a partir de 2025, voltarmos a crescer de uma forma estruturada e sustentável. Não mais em pulos de voo de pato que nunca dão certo, né?
AN: Com certeza. E isso se reflete em quais focos, quais prioridades agora para FMC, especialmente no Brasil?
RG: Daniel, vivemos um momento único na FMC. Em 2017, quando a DuPont e a Dow se juntaram como Corteva, a FMC comprou toda a pesquisa e alguns produtos que vieram da DuPont.
Então, alguns produtos deram resultado enorme de cara, como as diamidas, um dos inseticidas mais vendidos no mundo todo, mas também veio um pipeline poderoso que levou 6 a 7 anos para vir para o mercado.
De 2024 até 2029, lançaremos seis novas moléculas com modos de ação únicos, que não temos no Brasil. Passamos de ser uma empresa pós-patente para uma empresa focada em pesquisa e desenvolvimento com muita inovação.
AN: Quais produtos já foram lançados?
RG: Lançamos um fungicida multicrop chamado OnSuva, já o maior produto da FMC no Brasil, e o herbicida Isoflex.
AN: E sobre financiamento, como a FMC está atuando?
RG: O barter é a melhor ferramenta financeira criada nos últimos 30 anos para a agricultura brasileira. Estamos investindo muito em treinamento e suporte para expandir o barter entre nossos clientes, além de ferramentas como o FIDC.
AN: Muito legal, Renato. Te agradeço muito pelo seu tempo e pelas informações ricas e me coloco à disposição para as novidades da FMC, que a equipe de vocês mantenha a gente atualizado porque é sempre um prazer falar sobre vocês.
RG: Daniel, eu que agradeço. Foi muito bom o bate-papo com você. Espero que as pessoas tenham gostado, que tenhamos trazido algumas reflexões e que eu possa ser útil sempre que vocês quiserem.
AN: Com certeza, Renato. Te agradeço novamente. Valeu.
RG: Valeu. Obrigado.
