COP30 vai gerar R$ 3,3 milhões para agricultores familiares do Pará

    Evento em Belém terá 30% dos alimentos vindos de produtores locais, reforçando o papel da agroecologia e dos povos tradicionais

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    COP30 vai gerar R$ 3,3 milhões para agricultores familiares do Pará
    03deOutubrode2025ás11:58

    A COP30, que será realizada em novembro de 2025, em Belém (PA), deve movimentar a economia da agricultura familiar no estado.

    Pelo menos 80 grupos organizados, entre associações, cooperativas e redes produtivas, e cerca de 8 mil famílias estão aptos a fornecer alimentos para o evento, segundo levantamento dos institutos Regenera e Fronteiras do Desenvolvimento.

    O estudo mostra o potencial da produção local para atender às exigências do edital da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), responsável pela seleção dos operadores de alimentação da conferência. 

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    Pela primeira vez, uma conferência do clima exigirá que ao menos 30% dos ingredientes servidos aos participantes sejam provenientes da agricultura familiar, da agroecologia e de povos e comunidades tradicionais.

    De acordo com o estudo, as compras de insumos destinadas à COP30 poderão injetar R$ 3,3 milhões na economia local — valor equivalente a 80% do orçamento anual do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) em Belém.

    “Toda vez que a gente fala de aumentar a oferta de alimentos agroecológicos ou da agricultura familiar, a pergunta que sempre aparece é: ‘Mas onde estão esses produtores? Existe produção suficiente?’”, afirma o cofundador do Instituto Regenera, Maurício Alcântara.

    “O mapeamento vem responder a essas questões, mostrando que sim, há produtores suficientes.” 

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    Critérios e diversidade produtiva

    Segundo Alcântara, o levantamento considerou critérios como regularização no Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), capacidade de emitir nota fiscal e cumprimento das exigências sanitárias.

    “Existe muito mais produção além dessas 8 mil famílias, mas este foi o primeiro mapeamento. Há uma diversidade muito grande de produtos e de origens, de lugares diferentes do Pará, que podem fornecer para esse evento. É um ponto de partida”, explica.

    Relevância da agricultura familiar

    No Brasil, a agricultura familiar representa 77% dos estabelecimentos agrícolas, com 3,9 milhões de propriedades, ocupando 23% da área total — cerca de 80,8 milhões de hectares.

    Segundo o Anuário Estatístico da Agricultura Familiar, o segmento responde por 23% do valor bruto da produção agropecuária e 67% das ocupações no campo, totalizando 10,1 milhões de trabalhadores. 

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    Para Alcântara, a inclusão dessa produção nos espaços oficiais da COP30 é uma conquista. 

    “Quando a gente fala do aspecto climático, são esses produtores que cultivam em modelos regenerativos e agroecológicos, combinando preservação da floresta e produção de alimentos. É gente que preserva biomas ao produzir diversidade, não apenas o que o mercado demanda”, afirma. 

    Ele destaca que o protagonismo da agricultura familiar na conferência será um legado do Brasil para futuras COPs. 

    “É fundamental que eles estejam lá dentro e que a gente mostre que é possível realizar um evento desse porte valorizando esses produtores. Isso pode inspirar outros grandes eventos a priorizar a produção local.”

    Produção amazônica e protagonismo local 

    Entre as organizações mapeadas está o Grupo para Consumo Agroecológico (Gruca), formado por 25 famílias produtoras da região metropolitana de Belém.

    O agricultor urbano Noel Gonzaga, de Marituba, é um dos fundadores e explica que o grupo conecta produtores e consumidores por meio da venda direta e de vivências nas propriedades. 

    A produção é diversificada — inclui macaxeira, abóbora, feijão, quiabo, milho, açaí e o ariá, conhecido como “batata amazônica”, que corre risco de desaparecer por falta de consumo. 

    “É um alimento que era muito presente nas mesas aqui da região, mas foi perdendo espaço com a chegada do trigo. Hoje, vários agricultores estão trazendo de volta essa batata amazônica”, conta Gonzaga. 

    Parte da produção é para o próprio consumo, e o excedente é vendido por meio do Gruca e do ponto de cultura alimentar Iacitata, selecionado como um dos restaurantes oficiais da COP30. 

    “A gente aqui é agricultura familiar de base agroecológica. Eu não uso nada que vá me fazer mal nem a quem consome. Como o foco é o autoconsumo, tenho esse cuidado — é o alimento que eu e meu filho vamos comer”, explica o agricultor. 

    Um dos produtos que Gonzaga deve fornecer para a COP30 é o açaí, símbolo da cultura paraense. 

    “O açaí é as nossas boas-vindas. É parte da nossa cultura”, afirma. 

    O fruto chegou a ser vetado no edital por risco de contaminação, mas, após polêmica, a restrição foi suspensa.

    “A COP deu sorte. Eles vão pegar exatamente a safra do açaí. Em novembro, já estará no fim, mas ainda vai ter muito açaí, com certeza”, diz o produtor.

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