TCU aponta falhas ambientais em 60% da soja usada no biodiesel
Auditoria do Tribunal de Contas da União levanta lacunas na rastreabilidade da soja; Aprobio apoia fiscalização e cobra igualdade de regras em toda a cadeia
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O mercado de biodiesel no Brasil, especialmente o da soja, foi surpreendido pelo resultado de um relatório produzido pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
A auditoria apontou que 60% da soja usada na produção do biodiesel ainda não possui documentação que comprove sua origem ambiental. A situação vem gerando incertezas sobre a rastreabilidade e a sustentabilidade da cadeia de biocombustíveis. A apuração é do Agro Estadão.
O levantamento feito pelos auditores do TCU não nega que o Brasil seja um dos países líderes na produção de biodiesel a partir de matéria-prima vegetal, mas alerta para grandes lacunas na rastreabilidade ambiental da soja que entra nesse processo.
Se os técnicos do Tribunal estiverem corretos, para cada 100 litros de biodiesel produzidos a partir da soja, 60 têm origem incerta no que diz respeito à supressão vegetal.
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A falta de comprovação, segundo os auditores, fragiliza a credibilidade de programas como o Renovabio, política nacional de biocombustíveis que busca reduzir emissões de carbono por meio de metas e da emissão de créditos de descarbonização (Cbios).
Um dos critérios do Renovabio é justamente impedir o uso de matéria-prima proveniente de propriedades que tenham desmatado ilegalmente após 26 de dezembro de 2017.
Para o setor produtivo, a iniciativa de fiscalização é vista como importante para fortalecer a sustentabilidade do sistema, mesmo que os resultados gerem preocupação e descontentamento.
A posição da Aprobio
A Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio) publicou nota de apoio à auditoria e ressaltou que, para manter a confiança do mercado e da sociedade, é preciso transparência e cumprimento rigoroso das regras por todos os agentes envolvidos.
“O mercado de biocombustíveis só se fortalece quando há confiança de que as regras estão sendo observadas. A auditoria feita pelo Tribunal tem o nosso apoio porque reforça a importância da fiscalização para garantir a credibilidade de todo o sistema”, disse Jerônimo Goergen, presidente da Aprobio, em nota oficial.
A associação que representa os produtores de biocombustíveis foi enfática ao apoiar a iniciativa do TCU, mas também chamou atenção para a necessidade de igualdade na fiscalização.
“A falta desse acompanhamento e o não cumprimento de regras é ruim para todos os setores da economia brasileira, um risco concreto para a credibilidade do programa de biocombustíveis e para a confiança da sociedade”, disse Goergen.
Segundo ele, as empresas associadas estão empenhadas em buscar excelência na produção de biodiesel, com foco em qualidade e transparência.
“Os erros individuais não podem comprometer o setor como um todo, e por isso apoiamos iniciativas como essa do Tribunal, que joga luz sobre a Política e abre o debate para o aperfeiçoamento do sistema”, afirmou.
A Aprobio também destacou que o mesmo rigor aplicado à rastreabilidade da matéria-prima deve valer para outras etapas da cadeia, especialmente para as distribuidoras que não cumprem a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel fóssil.
Quando isso ocorre, segundo a entidade, cria-se concorrência desleal e penaliza quem investe corretamente, cumpre a legislação e acredita no desenvolvimento sustentável do país.
A soja é, hoje, a principal matéria-prima do biodiesel no Brasil, e sua rastreabilidade ambiental é considerada essencial para garantir que o biocombustível entregue benefícios reais ao clima e ao meio ambiente.
Já para a Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Biocombustíveis (Brasilcom), existe a “necessidade de evolução técnica do programa [Renovabio], em consonância com os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris e com os princípios de transparência e verificabilidade”.
O que o TCU encontrou
O relatório do TCU indica que a documentação ambiental que comprove que a soja usada no biodiesel veio de áreas ambientalmente regulares ainda é insuficiente na maioria dos casos.
Isso significa que uma parcela relevante da matéria-prima pode não ter a origem ou o uso do solo devidamente comprovados segundo os critérios ambientais vigentes, o que pode impactar diretamente o valor ambiental dos créditos gerados e as metas do Renovabio.
Segundo o Tribunal, essa situação não indica irregularidades, mas evidencia lacunas de dados que precisam ser aprimoradas para que o controle ambiental seja efetivo e confiável.
Aperfeiçoamento
Diante desse cenário, o debate passou a girar em torno de como aperfeiçoar os sistemas de controle, com integração de bancos de dados, fortalecimento das certificações e promoção de maior transparência em toda a cadeia de produção.
Isso significa que a solução não se limita a sanções e penalidades, mas envolve também incentivos para que produtores, tradings e indústrias compartilhem dados confiáveis e adotem boas práticas ambientais.
O TCU apresentou sugestões ao Ministério do Meio Ambiente (MME) e à Agência Nacional do Petróleo (ANP). Ao MME, sugeriu o acompanhamento sistemático dos riscos de desmatamento associados às culturas que servem de matéria-prima para os biocombustíveis, além da definição de critérios claros para eventual intervenção estatal no mercado de Cbios.
Para a ANP, a orientação foi implementar novos instrumentos para garantir o comportamento adequado dos agentes envolvidos no mercado de Cbios.