Feijão já foi importado pelo Brasil e hoje é base da segurança alimentar
Nos anos 1970, o país precisou recorrer ao mercado externo para garantir abastecimento; avanço tecnológico transformou o grão em símbolo de estabilidade produtiva
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Talvez você não se lembre, mas houve um tempo no Brasil em que o feijão, produto base da alimentação brasileira, não era garantia no mercado interno.
Isso foi na virada das décadas de 1960 para 1970, quando o Brasil enfrentava baixa produtividade agrícola, dificuldades no manejo dos solos e forte vulnerabilidade climática.
Em anos de quebra de safra, a importação do grão se tornou necessária, o que mostrou a fragilidade de um sistema produtivo ainda distante da realidade que conhecemos hoje.
A produção nacional era limitada por uma série de fatores: solos ácidos, especialmente no Cerrado, ausência de cultivares adaptadas às diferentes regiões do país, baixo uso de insumos e quase nenhuma integração entre ciência e agricultura.
Naquela época, a produtividade média do feijão mal ultrapassava 500 quilos por hectare, um patamar insuficiente para garantir estabilidade de oferta em um país de dimensões continentais. Hoje, o rendimento médio esperado é de pelo menos 880 quilos por hectare.
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Nesta terça-feira (10), Dia do Feijão, a história do grão convida a olhar em retrospectiva e lembrar que o Brasil já teve de importar o básico, mas que hoje colhe os frutos de ter apostado em pesquisa, tecnologia e conhecimento aplicado ao campo.

Um caminho que transformou o feijão em símbolo de soberania e segurança alimentar.
Virada de jogo
A história do feijão no Brasil começa a mudar a partir de 1973, com a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. A partir dali, a agricultura brasileira entra em um novo ciclo, tracionado pela pesquisa, inovação e transferência de tecnologia.
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No caso do feijão, o avanço veio com o desenvolvimento de variedades mais produtivas, resistentes a pragas e doenças e adaptadas aos diferentes biomas brasileiros, do Sul ao Semiárido, passando pelo Cerrado.
Além do aprimoramento genético, a ciência levou novas práticas ao campo, como a correção da acidez do solo, o manejo mais eficiente da água, o escalonamento de safras e o uso de tecnologias que permitiram produzir mais, com menos risco.
O resultado foi uma transformação estrutural: ao longo das décadas seguintes, a produtividade do feijão viu um salto de rentabilidade, mais que dobrando, com áreas alcançando mais de duas toneladas por hectare.
Não foi só o avanço agrícola. O feijão se transformou num símbolo de segurança alimentar. Nutritivo, acessível às famílias e versátil, o grão segue como uma das principais fontes de proteína vegetal da dieta brasileira.
Sua importância é ainda maior para a agricultura familiar, responsável por grande parcela da produção nacional e peça-chave na geração de renda e na fixação do produtor no campo.
Dobradinha com o Arroz
No prato, o feijão também carrega identidade. Ao lado do arroz, forma a base alimentar que atravessa regiões, classes sociais e gerações. O clássico “arroz com feijão”, além de uma tradição alimentar brasileira, é equilíbrio nutricional e um dos pilares históricos no combate à fome no país.
O desafio, agora, é olhar para o futuro. Com o crescimento da população global e o aumento da demanda por alimentos, o feijão segue no centro das discussões sobre produção sustentável. Produzir mais, com menor impacto ambiental, mantendo renda no campo e alimento acessível na cidade, é a próxima fronteira.
Novamente, a ciência ganha papel central, no desenvolvimento de um novo ciclo, agora pautado pela inovação, baixo impacto e pelo aprimoramento ainda maior do trabalho do produtor rural.
Feijão em Números
A produção brasileira de feijão em 2025, distribuída sempre em três safras ao longo do ano, bateu 3,4 milhões de toneladas, um crescimento de 9,3% em relação a 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Entre os principais estados produtores, o Paraná mantém a liderança nacional, com produção estimada em 841 mil toneladas, o equivalente a 27,3% do total do país. Na sequência aparecem Minas Gerais, com 474,2 mil toneladas, e Goiás, com 373,6 mil toneladas, confirmando a força do feijão tanto no Sul quanto no Centro-Oeste e Sudeste.
No comércio exterior, o feijão brasileiro também ganhou protagonismo, disputando novos mercados com a Índia - maior produtora mundial do grão.
As exportações em 2025 bateram recorde, somando 501 mil toneladas, movimento que ajudou a aliviar a pressão sobre o mercado interno, especialmente no caso do feijão preto.
Para 2026, as projeções iniciais da Conab projetam uma safra um pouco menor, com 3 milhões de toneladas, com as colheitas da primeira safra já tendo se encerrado no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.
O desempenho, mesmo um pouco menor, reforça o bom momento da cadeia produtiva e mostra que, além de essencial para a segurança alimentar, o feijão brasileiro também avança com força no exigente mercado internacional.