Chuva em Ribeirão Preto destruiu pesquisa do IAC sobre genética de tomates

    Estudo realizado em parceria com a empresa de sementes estava na segunda etapa e contemplava avaliação de 300 acessos

    Por |
    Experimento com tomates destruído pela chuva no IAC de Ribeirão Preto

    Experimento com tomates destruído pela chuva no IAC de Ribeirão Preto

    30deJulhode2026ás16:51

    A chuva forte que atingiu o norte do Estado na última sexta-feira (24) destruiu uma plantação de tomates que fazia parte de uma pesquisa realizada pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), em Ribeirão Preto.

    A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) apurou que o objetivo do experimento, iniciado no ano passado, era analisar características genéticas das cultivares e renovar o banco de sementes do IAC. 

    O temporal aconteceu a menos de um mês da conclusão do experimento de campo. 

    “Os acessos plantados já estavam formados, com frutos desenvolvidos, mas como a chuva veio acompanhada de ventos muito fortes e granizo, toda a plantação foi destruída, incluindo a folhagem utilizada na pesquisa genética”, conta Roberto Blanco, pesquisador científico do IAC.

    A pesquisa é realizada em parceria com uma empresa japonesa de sementes, que financia o estudo. Na primeira etapa do experimento, realizada no ano passado, 300 acessos foram utilizados para produção de sementes, incluindo variedades selvagens e híbridas com maior resistência às pragas. 

    “Os resultados obtidos foram muito promissores, gerando sementes que foram posteriormente plantadas na área afetada pela chuva forte. Os acessos se mostraram resistentes a dez doenças diferentes, mas infelizmente não ao extremo climático", comenta o pesquisador, que pretende retomar o estudo.

    As sementes remanescentes da primeira fase do projeto estão armazenadas em uma câmara fria, mas com os danos provocados nos prédios do IAC, que foram destelhados e ficaram sem energia, todo material será transferido para a sede do Instituto em Campinas. 

    “Além do experimento sobre tomates, outra estufa com acervo e sementes de pimentas também foi parcialmente danificada. São danos que agravam a condição atual da pesquisa científica no Estado, que tem gerado resultados graças ao empenho dos pesquisadores, mas faltam estrutura adequada e profissionais de apoio à pesquisa", comenta Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC.

    Na área de pesquisa dedicada ao tomate, o pesquisador não conta hoje com servidores de apoio à pesquisa e depende de contratação de terceiros quando precisa realizar algum tipo de manejo da área. 

    Alerta 

    A destruição de experimentos e de parte da infraestrutura do Instituto Agronômico (IAC), em Ribeirão Preto, ocorreu poucos dias após a APqC alertar o Governo do Estado sobre a falta de planejamento e de recursos para enfrentar os efeitos de eventos climáticos extremos.

    Em nota divulgada na semana passada, a entidade advertiu que a aproximação de um novo período de influência do El Niño amplia o risco de incêndios e de chuvas fortes em áreas estratégicas para a pesquisa agropecuária e a conservação ambiental.

    Segundo a APqC, as 39 áreas de pesquisa vinculadas à Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA) não contam com orçamento específico para ações preventivas, enquanto as 47 áreas de pesquisa e conservação ambiental enfrentam estrutura insuficiente para prevenção e combate a incêndios justamente em um cenário de maior risco climático. 

    A entidade cita como exemplo a Fazenda Experimental de Monte Alegre do Sul, onde a falta de recursos compromete até as ações preventivas.

    A unidade enfrenta restrição de combustível, dificultando a construção de aceiros, e já acumula um histórico de grandes incêndios que, desde 2008, destruíram experimentos, áreas de pesquisa, infraestrutura e reservas ambientais, incluindo um incêndio que se prolongou por 36 horas em 2024. 

    Para a APqC, esse cenário é agravado pelo desmonte da estrutura de pesquisa pública. Nas fazendas experimentais, a extinção da carreira de apoio obriga pesquisadores a assumirem atividades de manutenção, comprometendo o tempo dedicado à ciência e reduzindo a capacidade de prevenção. 

    Na área ambiental, a entidade afirma que a contratação temporária de brigadistas não substitui equipes permanentes, integradas à pesquisa, à conservação e ao manejo das unidades, condição essencial para uma atuação eficiente.

    A associação também lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão do ministro Flávio Dino, determinou que o Estado apresente um plano de contratação de pesquisadores ambientais, reconhecendo que a falta de reposição de profissionais compromete a capacidade técnico-científica e a proteção das áreas de conservação.

    Temas nesta notícia