Da farmácia para a fazenda: As lições dos medicamentos genéricos que transformaram o agro
Minha briga sempre foi clara: por que o agricultor brasileiro precisava esperar quase uma década para acessar tecnologias que o resto do mundo já utilizava com custo reduzido?

Em 1999, o Brasil viveu uma revolução silenciosa nas farmácias. A Lei dos Genéricos não apenas democratizou o acesso à saúde, mas forçou a indústria farmacêutica a se reinventar, saindo da zona de conforto das patentes para a arena da eficiência real. Hoje, em 2026, vejo o agronegócio atravessar seu próprio "momento 1999". A agilidade estratégica finalmente venceu a burocracia.
Essa é uma vitória que acompanho de perto e pela qual luto há décadas. Em 2017, enquanto liderava a operação brasileira de uma multinacional americana, eu já sentia na pele a frustração de tentar estabelecer uma referência sólida em genéricos em um mercado desenhado para travar a competitividade. Naquela época, o desafio era enfrentar o que eu chamo de "cartórios da burocracia": um sistema de registros moroso que mantinha moléculas maduras reféns de processos administrativos lentos.
Minha briga sempre foi clara: por que o agricultor brasileiro precisava esperar quase uma década para acessar tecnologias que o resto do mundo já utilizava com custo reduzido? Era inadmissível aceitar que moléculas com patentes expiradas há mais de 10 anos não tivessem equivalentes acessíveis apenas por ineficiência do sistema. Naquele tempo, encomendei estudos que mostravam o óbvio: a entrada de genéricos era vital para a sobrevivência das margens do produtor.
Hoje, sob a égide da Lei 14.785/2023, o cenário mudou. Abandonamos a era da asfixia injustificável para entrar na era da eficiência. Onde antes havia o peso do capital parado e a incerteza regulatória, agora existe a liberdade de escolha.
O agricultor brasileiro finalmente conta com o mesmo benefício que o consumidor de medicamentos: acesso a insumos de alta qualidade, com marcas fortes e, acima de tudo, com o melhor custo-benefício que a livre concorrência pode proporcionar. O estabelecimento de prazos previsíveis permitiram ao Brasil romper a inércia dos "cartórios burocráticos" e atingir o recorde histórico de 912 aprovações em 2025. Esse salto quantitativo reflete a democratização do acesso a defensivos genéricos e biológicos, garantindo que moléculas pós-patente e bioinsumos cheguem ao campo com agilidade, reduzindo custos para o agricultor e fomentando a soberania tecnológica nacional.
A ascensão das "Empresas de Eficiência" e o mito das “Megafusões”.
Os dados consolidados de 2025 revelam mais do que simples flutuações de faturamento; eles escancaram uma metamorfose estrutural no agronegócio brasileiro. A hegemonia das empresas de descoberta (P&D), que detinham 71,9% do market share em 2016, desidratou para 59,7% em 2025. Esse vácuo não foi preenchido por novas patentes, mas pela agilidade de quem soube ler as dores da porteira.
Quando 1 + 1 não resultou em 2
O movimento de consolidação global prometia uma concentração de mercado sem precedentes através de ganhos de escala. No entanto, a realidade de 2025 mostra que essas fusões colossais geraram, em muitos casos, uma ineficiência sistêmica. Ao olharmos para os números, fica evidente que as somas de Bayer + Monsanto, UPL + Arysta e a formação da Corteva (Dow + DuPont) não refletiram o crescimento esperado na preferência do agricultor.
Enquanto essas gigantes se voltavam para dentro, tentando integrar estruturas hercúleas e processos globais, o mercado se movia para fora. O agricultor brasileiro mostrou que o tamanho da sede em Basel ou St. Louis vale menos do que a velocidade de resposta no campo. A perda gradual de espaço dessas grandes corporações — como a Bayer, que recuou de 22,7% em 2016 para 11,1% em 2025 — prova que escala sem agilidade é um gigante com pés de barro.
