Publicitário se reinventa no agro e transforma histórias do campo em conexão com a cidade

    Trajetória mistura comunicação, gastronomia e vivências pelo interior do Brasil para revelar a origem dos alimentos

    Publicitário se reinventa no agro e transforma histórias do campo em conexão com a cidade
    02deMarçode2026ás12:00

    Bom na cozinha e de conversa. Mas, antes de tudo, bom de recomeço.

    A trajetória de Daniel de Pauli não segue uma linha reta e talvez seja justamente isso que a torna mais interessante.

    Publicitário de formação, ele construiu carreira em multinacional, decidiu empreender, enfrentou o fracasso, recomeçou e encontrou no agronegócio não apenas um nicho, mas um caminho.

    Foi na comunicação entre campanhas, eventos e idas a campo que o agro entrou de vez na sua vida. E nunca mais saiu.

    O primeiro contato veio ainda no início da carreira, dentro da multinacional de fertilizantes Stoller do Brasil. Ali, muito além da criação publicitária, ele mergulhou no dia a dia do setor.

    “Foi uma bela escola. Eu não ficava só na criação. A gente desenvolvia material técnico, ia para o campo gravar depoimento com produtor, acompanhava lançamento de produto, montava evento. Era uma imersão completa. Foi ali que eu comecei a entender, de fato, como o agro funciona e como ele se comunica”, explica ao Agrofy News.

    Depois da experiência na Stoller, também atuou como gerente de comunicação na Produquímica, em São Paulo, ampliando a vivência no setor.

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    Foram anos de aprendizado intenso. Mas também de inquietação.

    Filho de empreendedor, Daniel carregava a vontade de construir algo próprio. E, em determinado momento, percebeu que havia chegado ao limite dentro da estrutura corporativa. A decisão veio acompanhada de risco.

    “Eu sentia que o foco da empresa não era comunicação, e isso naturalmente limitava o crescimento dentro da área. Ao mesmo tempo, eu sempre tive essa vontade de empreender. Aquilo começou a pesar. Eu pedi demissão da multinacional para abrir minha primeira agência. Foi uma decisão difícil, mas muito consciente. Eu sabia que precisava tentar.”

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    O erro que virou direção

    A primeira experiência empreendedora foi em Uberaba (MG), onde fundou sua primeira agência, a PlanoCOM, no coração da pecuária brasileira. Mas o início esteve longe de ser ideal. O problema era estrutural.

    “Eu montei uma agência do zero, aprendi muito, errei bastante também. Tive sócios, enfrentei dificuldade de mercado, tentei entender como me posicionar. Foi uma escola importante, mas também muito dura. As grandes empresas da região buscavam agência em São Paulo. O mercado local era mais voltado para pequenas empresas, varejo. E o negócio não evoluía como eu imaginava”, afirma.

    Até que veio uma a quebra.

    “Eu praticamente quebrei em Uberaba. Foi um momento difícil, de muita reflexão. Mas também foi ali que eu comecei a entender melhor o que precisava ser diferente.”

    A volta para Campinas, em 2009, não foi apenas geográfica — foi estratégica.

    “Eu voltei pensando no que fazer. Se voltava para o mercado, se tentava empreender de novo. E foi numa conversa com meu pai que veio a virada.”

    Ela veio em forma de incentivo e de deu um norte para ele.

    “Ele me falou algo que ficou muito claro para mim: ‘você já tentou uma vez, já aprendeu o que dá certo e o que dá errado. Agora faz de novo, mas faz melhor’. Aquilo me deu segurança para recomeçar.”

    Daniel ouviu. E voltou diferente.

    Encontrar um lugar no agro

    Dessa vez, não bastava abrir uma agência. Era preciso ter um posicionamento claro. A resposta veio de uma lembrança antiga.

    “Campinas tinha um mercado extremamente competitivo, com centenas de agências. Se eu fosse fazer mais do mesmo, não teria espaço. Eu precisava encontrar um caminho próprio.Eu lembrava muito de um comentário do meu ex-gerente na Stoller, dizendo que não contratava agência porque ninguém entendia o mercado deles. Aquilo sempre ficou comigo. Quando voltei, isso fez muito sentido.”

    O que fez sentido, também virou estratégia. “Foi ali que eu enxerguei uma oportunidade. Eu pensei: existe um mercado enorme que precisa de comunicação especializada. E foi assim que eu decidi focar no agronegócio.”

    Nascia, em 2009, a FINCO Comunicação. “Eu fundei a Finco com a proposta de ser uma agência realmente conectada ao agro, que entendesse o setor e conseguisse traduzir isso em comunicação. Não era só atender cliente, era falar a mesma língua.”

    O que parecia nicho, na prática, se revelou um universo. “Quando você fala em atender o agro, parece algo restrito. Mas é exatamente o contrário. O agro é extremamente amplo, com muitos segmentos diferentes. Cada cliente traz uma realidade nova, um desafio novo.”

    Ao longo de 16 safras, vieram clientes, projetos e amadurecimento. Mas também uma leitura crítica sobre o próprio setor.

    “O agro evoluiu muito em marketing, se profissionalizou bastante. Mas ainda é um marketing muito técnico, muito voltado para venda. E, com isso, acaba deixando de lado algo essencial, que é se comunicar com quem está fora.”

    E é justamente aí que mora o ruído.

    “O setor fala muito bem com quem já está dentro, mas ainda se comunica pouco com o público urbano. E isso abre espaço para uma percepção distorcida, de um agro atrasado, pouco tecnológico, o que não corresponde à realidade.”

    Quando tudo parou e a ideia nasceu

    A virada seguinte não veio de um planejamento. Veio de um choque.

    Era início da pandemia quando Daniel estava em Araguari (MG), finalizando um estande para uma feira de café.

    “Estava tudo pronto, um dia antes do evento. A gente tinha montado o estande, ajustado todos os detalhes, e aí veio a notícia de que a feira tinha sido cancelada por causa da pandemia. Foi ali que a ficha caiu.”

    Naquele momento, a realidade mudou.

    “Eu voltei para Campinas, seis horas de estrada, pensando no que eu ia fazer. Um terço do faturamento da agência vinha de eventos. Sem contato presencial, eu sabia que o impacto seria grande. Eu entendi que precisava criar algo no digital, um projeto que pudesse gerar conteúdo e também posicionamento.”

    A ideia começou a ganhar forma a partir de duas paixões que sempre caminharam em paralelo.

    “Eu sempre gostei muito de vídeo e sempre tive uma relação muito próxima com a cozinha. Desde pequeno, acompanhando minha mãe, minha avó, aprendendo, testando coisas. Era algo que sempre me interessou.”

    E havia ainda uma memória recorrente das viagens de trabalho.

    “Sempre que a gente viajava para o campo, o produtor tinha orgulho de apresentar um prato típico da região. Aquilo sempre me chamou atenção, porque conecta as pessoas de uma forma muito genuína.”

    Foi nesse cruzamento que nasceu o projeto.

    “Eu pensei em unir essas coisas: mostrar o agro através da gastronomia, valorizar a origem dos alimentos e contar as histórias por trás de cada prato. Foi assim que surgiu o Receita Raiz.”

    Cozinha, estrada e pertencimento

    A série levou Daniel a uma jornada intensa pelo Brasil.

    “Foram mais de 40 mil quilômetros rodados, passando por diferentes estados e realidades. Do Sul ao Nordeste, cada lugar com sua cultura, sua forma de produzir e de se relacionar com a comida.”

    Mas o impacto foi além da estrada.

    “Cada receita carrega muito mais do que o prato em si. Ela traz história, tradição, memória afetiva. Muitas vezes, o cheiro de um prato já leva a pessoa para outro momento da vida. Isso é muito forte.”

    E também revelou, de forma mais profunda, quem está por trás dessa cadeia.

    “O projeto reforçou muito para mim a importância do produtor rural. É um trabalho que muitas vezes não aparece, mas que sustenta toda a cadeia de alimentos.”

    Entre grandes propriedades e pequenas produções familiares, um elemento se repetia.

    “O que mais me marcou foi ver o quanto existe paixão. Em muitos casos, são famílias inteiras no campo, com o desejo de manter aquilo para as próximas gerações. Existe um senso de legado muito forte.”

    Algumas histórias ficaram marcadas. A experiência também ajudou a desconstruir visões simplistas sobre o setor.

    “Teve uma família de pequenos produtores que me impactou muito. Estavam todos ali, vivendo do campo, com uma conexão muito forte com a terra. Aquilo mostra que o agro é muito mais do que produção. Muita gente ainda tem uma visão distorcida do agro. Mas o que eu vi foi exatamente o contrário: produtores preocupados com sustentabilidade, com tecnologia, com produzir melhor e de forma responsável”, diz.

    Entre paixão e realidade

    O reconhecimento veio, inclusive com premiações. Mas o retorno financeiro não acompanhou.O impacto veio depois

    “O Receita Raiz foi um projeto muito importante, trouxe visibilidade, foi reconhecido, mas não foi lucrativo. Eu consegui viabilizar com patrocínios, mas os custos acabaram sendo maiores do que o previsto. Os anos seguintes foram de reorganização. Eu precisei focar na agência, recuperar financeiramente, trazer novos clientes. Foi um período desafiador.”

    Mais uma vez, foi preciso ajustar a rota. “Eu coloquei o pé no chão e voltei o foco para a base do negócio. Mas sem abrir mão do projeto, porque ele fazia muito sentido para mim.”

    O próximo capítulo já está no fogo

    A insistência, mais uma vez, deu resultado. O projeto já nasce maior e mais alinhado com o público que sempre esteve no radar.

    “Agora a gente conseguiu viabilizar uma nova temporada, focada no café. Vai ser o Receita Raiz do café brasileiro, com novos parceiros e uma estrutura mais sólida. A gente quer evoluir a linguagem, tornar mais dinâmica, mais conectada com o público jovem e urbano, sem perder a essência. A ideia sempre foi aproximar o campo da cidade, mostrar o agro para quem não conhece.”

    Desde 2022, Daniel também integra a diretoria da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), reforçando sua atuação no desenvolvimento da comunicação do setor.

    A partir de março, essa conexão ganha também um novo espaço. Daniel passa a integrar o time de colunistas do Agrofy News, onde vai compartilhar histórias, bastidores e experiências ligadas à gastronomia e ao campo.

    Ao mesmo tempo, ele se prepara para dar início a um novo projeto audiovisual. A próxima temporada do Receita Raiz será dedicada ao café brasileiro — uma série que deve aprofundar ainda mais a relação entre origem, cultura e alimento. Em breve, ele promete contar mais detalhes.

    “Tem muita coisa boa vindo por aí. É só o começo.”

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