Ilha de prosperidade

Enquanto o agro quebra recordes de produção, a economia no país segue na direção oposta com perspectiva de estagflação.

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Ilha de prosperidade
14deFevereirode2022ás16:25

É possível manter uma “ilha de prosperidade” em meio à tragédia da economia? Por quanto tempo? A questão diz respeito ao agro brasileiro.

O elevado crescimento da agropecuária nos anos recentes, a bem-dizer durante as últimas duas décadas, contrasta fortemente com a crise da economia nacional. Entre 2011 e 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) acumulado cresceu somente 2,7%, o que dá um crescimento médio de 0,26% por ano. Foi a pior década da economia brasileira nos últimos 110 anos.

No agro, porém, apenas a safra de grãos apresentou 80% de alta na década passada, saindo de um patamar de 150 milhões de toneladas (2010) para atingir cerca de 270 milhões de toneladas (2020). Nos setores avaliados, como na pecuária, na fruticultura, na piscicultura e no papel e celulose, a agropecuária brasileira cresceu muito acima da economia geral. Continuará assim, o agro indo bem e a economia mal?

Segundo o Banco Mundial, o crescimento da economia global em 2022 está estimado em 4,1%, abaixo do verificado em 2021. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), a variação do PIB mundial será de 4,4%, contra 5,6% no ano passado.

Recente pesquisa (25th Annual Global CEO Survey), realizada pela Consultora PwC, indica que 74% dos executivos do agronegócio brasileiro acreditam que as receitas de seus negócios tendem a crescer neste ano. São, portanto, otimistas. Basicamente, existe a percepção de que os países, liderados pela China, demandarão alimentos e matérias-primas brasileiras, o que sustentará o elevado crescimento. Independente da performance da economia nacional, cuja previsão de crescimento está próxima de zero, com inflação. Ou seja, em 2022, o Brasil viverá o pior dos mundos, pois haverá estagflação.

Na carne bovina se percebe os reflexos da elevação de preços no mercado interno conjuminado com a queda do poder aquisitivo da população: o consumo per capita passou de 40 kg/hab./ano para menos de 30 kg/hab./ano. Considerando as três carnes (bovina, suína e frango), a queda foi de 9,7% no consumo per capita.

É preocupante o quadro geral da economia. Desajuste fiscal, elevação da taxa básica de juros, aumento da inflação, manutenção de assustador desemprego e expansão da miséria, em consequência da pandemia, fatores que depreciam o mercado interno. A saída está nas exportações, mas até quando? E, para quem?

Claro que existem variações setoriais. Açúcar, café, celulose, soja, carnes, frutas, tilápia, flores, para cada cadeia produtiva, a situação oferece maior ou menor dificuldade e abre oportunidades.

Não se trata de ser pessimista, qualquer analista sério, nessas condições, recomendaria cautela nos investimentos. Vale frisar que é preciso cuidado, lembrar que os custos foram às alturas, ter muita calma nessa hora e canja de galinha para ajudar. Prudência, portanto, é recomendado ao agro.

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