Governo brasileiro segue neutro na guerra; dependência de fertilizantes está entre as razões

Brasil importa 80% dos seus insumos; Associação e governo federal divergem sobre duração do estoque interno

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Governo brasileiro segue neutro na guerra; dependência de fertilizantes está entre as razões
03deMarçode2022ás19:42

O mundo está de olho no conflito que ocorre na Ucrânia após ofensiva militar da Rússia, que teve início no último dia 24 de fevereiro. O uso de fertilizantes importados pelo Brasil da Rússia é citado como um dos motivos para a neutralidade do governo brasileiro em relação à guerra. Atualmente, o país importa cerca de 80% de todo o fertilizante usado na produção agrícola nacional. A Rússia fornece aproximadamente 25% dos fertilizantes utilizados no Brasil. 

Na quarta-feira, 2 de março, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, afirmou que o Brasil tem fertilizantes suficientes para o plantio até outubro e que o governo trabalha, desde o ano passado, com alternativas para garantir o suprimento do setor, no caso de escassez provocada pelo conflito. 

“A safrinha de milho está acontecendo, então o que precisava de fertilizantes está garantido. A safra de verão, que será no final de setembro, outubro, é uma preocupação, mas também temos do setor privado a confirmação de que há um estoque de passagem suficiente para chegar até outubro”, disse a ministra, em conversa com jornalistas.

Já a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) lamentou o conflito entre a Rússia e a Ucrânia e reforçou que é prematuro avaliar em profundidade os possíveis impactos ao agronegócio brasileiro. Para a entidade, o Brasil possui atualmente estoque de fertilizantes para os próximos três meses, de acordo com dados de agentes de mercado.

Conforme a ANDA, o volume atual está acima da média em relação aos anos anteriores e o país importa cerca de nove milhões de toneladas por ano de insumos para fertilizantes do Leste Europeu, cerca de 25% da importação mundial.

Durante coletiva de imprensa na quarta-feira, 2, Anatoliy Tkach, encarregado de Negócios da Embaixada da Ucrânia no Brasil, foi questionado sobre os impactos que o Brasil poderá sofrer na área de fertilizantes. O representante afirmou que os países sofrerão consequências para garantir o sistema de segurança mundial, que está muito enfraquecido. Reiterou a necessidade de uma posição mais forte do governo brasileiro em relação à guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Alternativas e cenário internacional

Brasil trabalha na busca de novos parceiros para o caso de redução de fertilizantes vindos da Rússia e da Bielorrússia – esse segundo já com sanções internacionais anteriores, relativas ao posicionamento controverso de seu governo. Segundo Tereza Cristina, o Ministério tem um grupo de acompanhamento que conversa constantemente com o setor envolvido (indústrias, produtores e parte de logística e de infraestrutura). “Temos que ter tranquilidade neste momento e estudar todos os cenários que podem acontecer”, afirmou. 

A Embrapa estuda alternativas para aumentar a eficiência do plantio com menos uso de fertilizantes. Também são trabalhadas estratégias de fomento e financiamento para aumento da produção de bioinsumos, fertilizantes organominerais, nanotecnologia e agricultura digital.

O governo deve lançar nos próximos dias o Plano Nacional de Fertilizantes, elaborado desde o ano passado em parceria com outros ministérios e com a iniciativa privada, para reduzir a dependência do Brasil da importação de fertilizantes. “O Brasil precisa tratar esse assunto como segurança nacional e segurança alimentar. Esse Plano, que fizemos há um ano, sem prever nada disso, era que o governo pensava que deveríamos ter para que o Brasil, que é uma potência agroalimentar, tivesse um plano de pelo menos 50% a 60% de produção própria dos seus fertilizantes”, afirmou a ministra.

A ANDA afirmou em nota que segue atenta ao fornecimento de cloreto de potássio, pois mais de 2 milhões de toneladas já estavam comprometidas com as sanções à Bielorrússia. Outro ponto refere-se aos fertilizantes nitrogenados, em especial nitrato de amônio, que tem volume expressivo importado da Rússia. “Com relação aos fosfatados, a dependência do Leste Europeu é menor, o que atenua os impactos de abastecimento para a safra atual. Vale ressaltar que, embora já existam restrições bancárias que causam insegurança e dificuldades para o fluxo de pagamento, as transações estão sendo realizadas entre empresas privadas”.

Outra questão acompanhada com cautela pela ANDA é a logística marítima, por conta das restrições que inibem temporariamente o fluxo de navios à região do conflito, o que acarreta dificuldades para transportar os insumos, como registrado nas operações no Mar Negro.

No caso específico da Bielorrússia, a ANDA explica que o setor já sofria restrições. Entre as sanções estão a proibição do transporte de produtos bielorrussos, incluindo o potássio, pelo território da Lituânia, que impossibilita o acesso aos portos marítimos.

“A ANDA reafirma acreditar na diplomacia brasileira e segue seu compromisso em buscar atender à demanda nacional, como acontece até o momento, e continua promovendo diálogos sobre o cenário geopolítico com seus associados, setor agrícola, indústria, sociedade civil e o governo”, finalizou a nota.

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