Cientista aponta cinco prioridades para o agronegócio brasileiro

Cientista diz que ações de sustentabilidade precisam entrar na agenda das eleições

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Cientista aponta cinco prioridades para o agronegócio brasileiro
20deJunhode2022ás11:32

Acabar com o desmatamento, diminuir a dependência de fertilizantes importados, fortalecer a agricultura familiar, investir em bioeconomia e preservar as nascentes e os mananciais para garantir água às cidades e à agropecuária.

Estas são as cinco prioridades do agronegócio brasileiro, segundo uma seleção feita pelo cientista Eduardo Assad para o Agrofy News Brasil

Engenheiro agrícola formado pela Universidade de Viçosa, Assad cursou mestrado e doutorado em Monttpellier, na França. Trabalhou durante 35 anos na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e foi coordenador técnico nacional de Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos do Ministério da Agricultura durante 10 anos.

“São medidas que deveriam constar do programa de governo dos presidenciáveis, mas geralmente eles não fazem planos para a agricultura, mas apenas cartas de intenções”, diz Assad, que atualmente é professor do curso de pós-graduação em agronegócios da FGV e coordenador técnico do Inventário Nacional de Gases de Efeito Estufa do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação.

A seguir os principais trechos da entrevista com Eduardo Assad:

1- FIM DO DESMATAMENTO

"É preciso acabar com o desmatamento ou o país perderá mercado lá fora. Não temos outra solução. Já fizemos isso no passado. Em 2005, o governo fez um trabalho importante de comando e controle para conter a escalada do desmatamento na Amazônia.

O governo identificou naquela época os 43 munícipios que mais desmatavam e embargou todos os recursos oficiais que eles recebiam. Com isso, o país reduziu de 25 mil km2 a área desmatada, em 2005, para 4.000 km2 em 2014.

Hoje sabemos que não são mais 43 municípios desmatadores, e sim doze ou treze. Mas, mesmo assim, estamos com 13 mil km2 de desmatamento. O comando que o vice-presidente Mourão prometeu não aconteceu, e o Ministério do Meio Ambiente desmontou a fiscalização do Ibama na Amazônia.   

Só a mitigação não resolve. Para compensar 1 hectare de desmatamento na Amazônia, é preciso recuperar 200 hectares de pasto degradado. O balanço será sempre negativo.

O governo tem que reassumir as ações de combate, além de fomentar sistemas agroflorestais e de pecuária intensiva nas áreas que já foram desmatadas. Soluções técnicas não faltam. Mas o mais importante é acabar com o banditismo."

2- REDUZIR A DEPENDÊNCIA DE FERTILIZANTES

"A solução para o nitrogênio está na mão. Só falta incentivo para a pesquisa. Não estou falando de fixação biológica de nitrogênio para a soja. Isto já existe. Estou me referindo à fixação biológica de nitrogênio para milho e pasto, aumentar no feijão e fazer pesquisas para outras áreas. Muitas dessas pesquisas estão prontas. Só precisam de incentivo e escala.

Quanto ao fósforo, há muito no solo brasileiro. Só precisamos fazer uma agricultura mais equilibrada e liberar esse fósforo. Tem também a utilização combinada fósforo-potássio vinda pelo pó de rocha, lixo das mineradoras. Não se consegue a resposta que o NPK dá em três ou quatro meses, mas em dois a três anos.

Além disso, a combinação de organominerais com NPK pode reduzir entre 40% e 50% do que se importa de fertilizantes."

3- APOIO À AGRICULTURA FAMILIAR

"Reorganizar a transferência de tecnologia para a agricultura familiar também deve estar entre as prioridades. O Brasil tem cerca de 3,9 milhões de pequenos agricultores, que enfrentam sérios problemas embora respondam por boa parte do abastecimento interno dos alimentos. 

Eles produzem cerca de 30% do feijão, 70% do arroz, 87% da mandioca, 60% do leite. Estamos falando de 10 milhões de empregos. Isso precisa ser olhado com mais carinho e urgência para não entrarmos em um colapso da segurança alimentar.

O sistema de governança da transferência de tecnologia para a agricultura familiar está às traças desde 1990, quando o governo Collor acabou com as Emater e demitiu cerca de 15 mil agrônomos.

Temos cerca de 7 mil pontos de transferência de tecnologias no país, que alcançam praticamente todo o território nacional. Podemos criar um sistema que vincule os Ministérios da Agricultura, Ciência e Tecnologia, Educação e Indústria e Comércio.

Segundo dados do Censo de 2017, 27 mil agricultores respondem por 52% do Valor Bruto da Produção, enquanto 3,9 milhões por apenas 6%. Isto não é sustentável."

4- INVESTIMENTO EM BIOECONOMIA

"O Brasil é campeão em biodiversidade. Açaí, baru, pequi, umbu, cajá. São apenas algumas das nossas riquezas. Todos eles já fazem parte da economia regional, mas precisam ser incorporados à agroindústria. Isto sem falar dos fármacos.

Já existem muitos estudos. Precisamos potencializar isso. Diversificar a nossa produção agrícola. Temos o maior banco genético de soluções para as mudanças climáticas. Quando a gente colocar isso no mercado, ninguém segura. Tudo isto já está mapeado e identificado. Já sabemos por onde começar."

5- PRESERVAR A ÁGUA

"Há previsões catastróficas por conta da falta deste insumo vital. Temos que evitar isso. O Brasil tem 12% da água do mundo. Precisamos proteger os mananciais. Vegetar todos eles com espécies nativas. Isso está no Plano ABC e faz parte do manejo de reservas legais.

Há seis anos, eu conversei com um produtor que estava com um problema de água na fazenda. Na época, ele me disse que pretendia vender a fazenda. Eu disse a ele para cercar as nascentes e esperar um tempo, que a água voltaria. Encontrei com o produtor esta semana e ele estava feliz da vida. Seis anos depois a água voltou.

“Revegetar” as Áreas de Proteção Ambiental (APPs) hídricas do Brasil é mais do que urgente. Se não fizermos isso, corremos o risco de ficar sem água para os grandes centros e para a agropecuária."

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