Embrapa propõe soluções sustentáveis a 81 mi ha desmatados na Amazônia

Estudo enumera alternativas para conciliar renda e até reverter áreas degradadas

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Embrapa propõe soluções sustentáveis a 81 mi ha desmatados na Amazônia
27deMaiode2022ás10:19

O conceito de transição florestal produtiva, que concilia produção e preservação ambiental, pode trazer soluções sustentáveis para os 81 milhões de hectares desmatados na Amazônia Legal, onde vivem cerca de 30 milhões de pessoas.

A conclusão está presente no livro “Sinergia de mudanças da agricultura amazônica: desafios e oportunidades”, que foi lançado pela Embrapa Amazônia Oriental e escrito por 37 autores de 16 instituições nacionais e internacionais.

A obra analisa temas cruciais da pauta regional e apresenta propostas para produção agrícola e florestal como a transição florestal produtiva para redução da área desmatada e a intensificação tecnológica com sustentabilidade em uma área equivalente a duas vezes a área da Alemanha, por exemplo.

Não existe solução mágica para a região. Leva tempo, exige persistência e sinergia para haver mudanças dessa magnitude, mas uma nova agricultura amazônica é possível e parte dela já está em andamento, expressa, por exemplo, nas iniciativas de domesticação de produtos extrativos para viabilizar cultivos comerciais ou na valorização dos subprodutos dos já domesticados, como o amido da mandioca”, analisa pesquisador Alfredo Homma, autor e editor técnico da publicação.

Ciência, tecnologia e políticas públicas

Homma avalia que a reversão de áreas desmatadas será crescente até atingir de 10 milhões a 15 milhões de hectares no máximo. “Dos 81 milhões de hectares desmatados, é indispensável manter um mínimo de 60 milhões a 65 milhões deles para as atividades produtivas, cidades, infraestrutura. Isto seria possível mediante intensificação da agricultura e da pecuária, liberação das áreas de pastos, piscicultura, orientação para cultivos perenes, mudanças para atividades poupadoras de terra”, antevê o pesquisador.

De acordo ele, não se pode prescindir de planejamento e investimento em contínuas descobertas científicas e tecnológicas aplicáveis à Amazônia, nem de políticas públicas que favoreçam a inclusão e o engajamento de produtores e demais agentes das cadeias produtivas.

“Em face do grande número de pequenos produtores envolvidos, há necessidade de direcionamento econômico voltado para o social com o compromisso de criar e adotar alternativas que elevem o padrão tecnológico e econômico visando a sustentabilidade das atividades agrícolas e pecuárias”, salienta.

Evitar novas fronteiras

O autor defende ainda o aumento da produtividade da atual agricultura como uma forma de manter a fronteira velha (áreas já exploradas) contida no tamanho que ocupa hoje e também causar redução das novas fronteiras.

“É possível desenvolver uma agricultura amazônica utilizando somente as áreas já desmatadas”, garante o pesquisador, para quem a domesticação de produtos extrativos que já chegaram ao limite da capacidade de oferta também é fundamental nesse processo.

“Somente com a domesticação será possível reduzir a pressão sobre os recursos na floresta e ampliar o mercado a custos mais competitivos”, afirma Homma.

Com relação aos recursos madeireiros, mesmo se houver estoque, os especialistas incentivam o plantio florestal na Amazônia como forma de atender o crescimento do mercado a médio e longo prazo.

"Marca" Amazônia

Na opinião de Walkymário de Paulo Lemos, chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental (Belém, PA), a competitividade dos produtos exclusivos da Amazônia vai depender da intensificação tecnológica com sustentabilidade.

“É preciso haver melhorias das condições de infraestrutura, saúde e educação, além do desenvolvimento de uma agricultura tropical que possibilite o plantio de produtos da biodiversidade amazônica até então tipicamente extrativos”, diz ele.

Já para os produtos comuns (produzidos na Amazônia e fora dela), como soja, milho, pecuária e mandioca, “a competitividade estará associada ao atendimento do mercado regional e à redução de custos de transporte para atingir os mercados externos”, avalia Walkymário.

Reversão de áreas desmatadas

Conforme estudos relatados no livro, reduz-se o desmatamento realizando primeiro a sua neutralização, ou seja: no início consegue-se zerar o desmatamento, fazendo o reflorestamento e a recuperação de Área de Reserva Legal (ARL) e Área de Preservação Permanente (APP), para mais adiante, quando a cobertura florestal crescer, se obter o saldo positivo do plantio.

O processo de recuperação de áreas degradadas, no entanto, sofre entrave devido ao custo elevado desse tipo de ação na Amazônia. Dados da publicação revelam que o custo da recuperação do passivo ambiental das ARLs ou das APPs varia entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por hectare, podendo encarecer em função de fatores internos ou externos, como a guerra na Ucrânia em andamento.

O pesquisador Alfredo Homma chama a atenção sobre os efeitos negativos da guerra Rússia x Ucrânia para a recuperação de pastos e culturas menores na Amazônia. “A alta no preço dos fertilizantes, causada pela restrição da oferta do produto gerada pelo conflito, vai afetar sobretudo pequenos produtores. Isso já ocorre com os pequenos plantadores de verdura da região metropolitana de Belém, que estão pagando alto preço e encontram dificuldade de compra. Para os grandes produtores é mais fácil assegurar essas cotas. Somente cinco culturas – soja, milho, cana-de-açúcar, algodão e café – consomem cerca de 80% dos fertilizantes usados na agricultura brasileira”.

Propostas para a Amazônia

Sinergias de mudança da agricultura amazônica: conflitos e oportunidades (acesse por aqui) é uma obra de quase 500 páginas, que condensa em 21 capítulos as temáticas da agricultura na Amazônia no contexto da sustentabilidade e meio ambiente (Parte 1), da ocupação e mudança no uso da terra e agricultura (Parte 2) e das oportunidades produtivas mais sustentáveis (Parte 3).

No final do livro, em um tópico especial, são apresentadas as propostas agrícolas para a Amazônia, como: o desenvolvimento de atividades produtivas que promovam a utilização de áreas degradadas e/ou já desmatadas, “algo que pode ser executado por todos os produtores”, destaca Homma. Ele lembra que os caminhos dessas transformações também passam pelo aumento da fiscalização para coibir os ilícitos (desmatamento, queimadas, extração de madeira, garimpo ilegal, narcoeconomia, contrabando da flora e da fauna), a redução da heterogeneidade tecnológica, a melhoria do capital social e a introdução da mecanização (neste caso por reduzir a força braçal e o grau de fadiga, aumentando a produtividade).

Tipos de culturas

Os capítulos trazem temas como extrativismo, transição florestal produtiva, projetos de reforma agrária, pastagens, tipificação do desflorestamento, políticas públicas, biopirataria, agricultura e sustentabilidade no Amazonas, pecuária bovina, piscicultura, potencialidades da cultura da mandioca no Pará, farinha do Juruá no Acre, soja, mercado da pimenta-do-reino no Brasil e no mundo, citricultura, cacauicultura, produção, comercialização do açaí no Pará, bioeconomia, sistemas agroflorestais e pagamentos por serviços ecossistêmicos.

As informações dão conta que o desenvolvimento de uma nova agricultura amazônica vem sendo incentivado tanto para plantas da biodiversidade local como as exóticas (que vêm de fora). Os autores citam que, no âmbito da agricultura familiar, pequenos produtores já fazem plantios de cacaueiro, mandioca, açaizeiro, jambu, cupuaçuzeiro e malva, plantas da biodiversidade. Entre as exóticas, destacam-se pimenteira-do-reino, juta, bananeira, abacaxizeiro, laranjeira, limoeiro, dendezeiro, cafeeiro e maracujazeiro, além da pecuária leiteira.

Por outro lado, cada estado da Amazônia difere dos outros quanto às culturas principais, exigindo propostas diferenciadas. De acordo com a nova publicação, “Mato Grosso, Maranhão, Tocantins, Pará e Rondônia se destacam pela produção de culturas temporárias. Pará e Tocantins, no cultivo de lavouras permanentes. Mato Grosso, Pará, Tocantins, Roraima e Maranhão, em pastos plantados. Mato Grosso, Pará e Maranhão no reflorestamento”.

Autores e instituições

O livro foi fruto do desenvolvimento do Projeto “Transformações recentes na agricultura amazônica: o caso do Estado do Pará” componente do Arranjo NOVOBR intitulado Desenvolvimento Agropecuário no Novo Brasil Rural: Implicações para a Pesquisa, Estratégias Institucionais e a Formulação de Políticas Públicas.

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