CNA debate desafio da segurança alimentar em ano eleitoral

Palestra reuniu especialistas de todo o país: missão não é só produzir, mas garantir acesso a todos

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CNA debate desafio da segurança alimentar em ano eleitoral
23deJunhode2022ás10:09

Diante de um cenário global de desperdício de alimentos, insegurança alimentar crescente, intensos eventos climáticos, guerra e pandemia, como o Brasil precisa (e deve) olhar para os desafios da geração e distribuição de alimentos?

Foi esse o questionamento que norteou o debate realizado ontem (dia 22) pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), reunindo especialistas e lideranças de todo o país, durante a quarta edição do evento Jornada CNA – Eleições 2022.

Para o diretor de Informações Agropecuárias e Políticas Agrícolas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Sergio De Zen, o primeiro passo da reflexão é justamente entender a diferença entre gerar alimentos, em escalas crescentes e regulares, e possibilitar o acesso aos mesmos, em igualdade.

“Temos que gerar as informações sobre a produção, saber onde, quando e o que estamos produzindo em todo território nacional. A partir desses dados, podemos gerar previsões, cenários que possibilitam as decisões do governo e da iniciativa privada de tal forma a evitar a escassez de alimentos. Esse é o primeiro pano de fundo”, disse, antes de completar:

“Outra coisa completamente separada e diferente é a questão da renda que permite às pessoas terem acesso ao alimento. Nós temos que ter a noção exata de quem é, onde estão e quais são as melhores ferramentas para atingir essas pessoas”, ponderou.

Discurso em sintonia com o de Gustavo Chianca, representante adjunto da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), para quem a segurança alimentar não se dá apenas na dimensão da disponibilidade dos produtos alimentares, mas através do acesso físico e econômico.

“Estamos vivendo uma grave crise alimentar, que não são dados pela oferta, e sim pelo acesso. O Índice de Alimentos da FAO atingiu 159,3 pontos no mês de abril, um avanço sem precedentes. Foi o maior aumento nos últimos 32 anos”, lembrou.

Para a professora adjunta da American University Washington College of Law, Renata Amaral, a discussão também deve considerar o aumento em nível global nos preços de insumos como consequência dos fatos recentes que afetam a economia mundial – entre eles pandemia e guerra.

“A guerra derrubou dois elos importantes da cadeia alimentar: um grande pedaço de fornecimento de cereais e de fertilizantes para sustentar uma ampla gama de culturas em todo mundo”, reforçou.

Diante desse cenário, o diretor da Conab ressaltou o papel das políticas sociais para reduzir a insegurança alimentar no país. “Temos que estudar e avaliar as políticas, com o objetivo de aprimorá-las, para que no longo prazo tenhamos um número menor de pessoas dependendo de renda suplementar”.

Para Zen, também é preciso, cada vez mais, trazer ferramentas de incentivo aos pequenos agricultores permitindo que também eles cresçam na oferta, 

Aprender com o exterior

O professor sênior de Agronegócio no Instituto de Ensino e Pesquisa e coordenador do centro Insper Agro Global, Marcos Jank, reforçou a necessidade do governo brasileiro pensar em políticas corretas e ter como exemplo ações de outros países.

“Temos observado vários países tomando decisões erradas. A maioria defende que a solução para a fome é voltar com os subsídios distorcidos e estoques estratégicos, mas a solução para o problema da segurança alimentar é global. É manter mercados abertos, apoiar populações mais vulneráveis, aumentar a transparência e o diálogo internacional”, afirmou Jank.

Já o presidente da Agroconsult, André Pessoa, lembrou que o Brasil é um dos maiores players do mundo na produção de alimentos e que o país deve continuar apostando na tecnologia como aliada para produção crescente. “Sempre tivemos uma safra de verão muito boa e a segunda safrinha como coadjuvante para a formação de renda do produtor. Mas o que temos visto é uma consolidação da segunda safra como protagonista e, em alguns casos, até mais relevante que a primeira safra, como o milho”, recordou.

 

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