Pesquisa da Embrapa reafirma alta qualidade do trigo nacional

Estudo comprova potencial do campo, porém indica necessidade de melhoras no armazenamento

Por |
Crédito da imagem: Jorge Henique Chagas/Embrapa

Crédito da imagem: Jorge Henique Chagas/Embrapa

19deJulhode2022ás11:36

Como diria sabedoria popular, o Brasil está com a “faca e o queijo” nas mãos quando o assunto é produção de trigo de qualidade e potencial para ser autossuficiente no cultivo do cereal. 

É o que aponta pesquisa divulgada nesta terça (dia 19) pela Embrapa.

O estudo, que contou também com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisou 34 amostras de 12 genótipos do cereal, cultivados no Cerrado Mineiro, e constatou que todas são habilitadas para uso na panificação industrial.

Os pesquisadores consideraram todas as exigências do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), além de comparações com padrões internacionais.

As amostras também demonstraram alto potencial prebiótico (mesmo quando transformada em farinha de trigo), com benefícios para a microbiota intestinal e, consequentemente, para a saúde humana.

Agora, a expectativa da Embrapa é que o estudo incentive ações de pesquisa para geração de novas cultivares adaptadas ao solo nacional e estimule políticas públicas em prol da cadeia produtiva.

“Existe um enorme potencial comercial a ser explorado com o cultivo do trigo em ambientes tropicais, como o Cerrado Brasileiro”, destaca Martha Zavariz, pesquisadora de Laboratório de Qualidade de Grãos, da Embrapa Trigo.

O estudo foi publicado no Journal of Food Processing and Preservation, sob o título “Brazilian Cerrado Wheat: Technological Quality of Genotypes Grown in Tropical Location" (em tradução para o português: Trigo do Cerrado Brasileiro: qualidade tecnológica dos genótipos cultivados em locais tropicais). 

Cerrado é diferencial

O Cerrado está entre os principais “trunfos” do Brasil para a produção de grãos diferenciados, de acordo com a pesquisadora da Embrapa.

Ela explica que, por ser uma região caracterizada por não ter chuva na época de colheita, o Cerrado costuma produzir grãos com alta qualidade, marcados pela baixa atividade da enzima alfa-amilase, e mais adequados para produção de farinha para fazer pão.

Além disso, os grãos, em geral, apresentam textura dura, gerando um bom rendimento em farinha, o que é muito interessante para os moinhos em termos comerciais.

“Na moagem industrial, quando os grãos são duros, a casca ou farelo separa-se mais facilmente do endosperma (parte branca do interior do grão), permitindo rendimentos mais elevados em farinha branca”, explica. 

Mas por que o Brasil ainda importa trigo?

Um dos questionamentos trazidos com o estudo é justamente porque o Brasil ainda é tão dependente das importações do cereal, principalmente diante da qualidade do cultivo e da alta produtividade das últimas safras.

A resposta, de acordo os pesquisadores envolvidos na pesquisa, envolve a atuação de vários atores da cadeia produtiva, incluindo problemas de armazenamento e distribuição.

“O excedente do trigo produzido no Rio Grande do Sul é exportado para outros países, e não abastece as regiões Norte e o Nordeste do país, por exemplo,”, explica Luiz Carlos Gutkoski, professor e pesquisador do curso de Pós-Graduação em Alimentos e Nutrição da Unirio. 

Para ele, é um problema o fato de que, atualmente, não há onde armazenar os grãos de trigo produzidos em excesso no Brasil.

Segundo o professor, nos silos de armazenagem de grãos no Brasil, o carro-chefe é a soja, em segundo lugar, o milho, e o trigo vem apenas em terceiro lugar.

“O trigo brasileiro é de nível internacional, mas os produtores precisam de segurança para ampliar a área plantada e contar com a compra garantida pelo governo. É preciso investir em políticas públicas para este setor e para outras culturas de inverno, para ser mais rentável ao produtor investir nesta cultura”, afirma Gutkoski. 

Cargando...