Nature: intensificar soja geraria safra recorde e zero desmatamento
Produtividade de 72 sacas por hectare e 12% mais densidade do rebanho bovino equilibraria produção e meio ambiente
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Nos níveis atuais de evolução, o Brasil avançaria em 5,75 milhões de áreas com vegetação nativa. (foto - CNA)
A prestigiosa revista Nature mostra que o Brasil pode superar a marca de 162 milhões de toneladas de soja com zero desmatamento e ainda cortar em 58% as emissões de GEE até 2035 por meio de intensificação tecnológica.
O estudo "Protecting the Amazon forest and reducing global warming via agricultural intensification", publicado na semana passada, simula três padrões de expansão da produção para projetar a relação entre o aumento das safras e o meio ambiente nos próximos 15 anos.
Os padrões de expansão descritos pelos pesquisadores foram o “produzido como atualmente” (seguindo os níveis atuais de avanço de produtividade e aumento de área), “sem expansão de área” e “intensificação” (aprimorando o uso de tecnologias e usando áreas da pecuária).
A partir de dados oficiais brasileiros, a análise mostra que a continuação das tendências atuais em produtividade e uso de área levaria à conversão de 5,7 milhões de hectares adicionais de florestas e Cerrado até 2035.
Este modelo “produzido como atualmente” também geraria emissões 1,955 milhão de toneladas de CO2e na atmosfera. Importante dizer que este modelo também considera o atual ritmo de evolução tecnológico e de produtividade.
Por outro lado, a melhoria mais rápida da produtividade, aliada à expansão da soja em áreas utilizadas para a pecuária, permitiria ao Brasil produzir 162 milhões de toneladas de soja sem desmatamento e redução de 58% em seu impacto nas mudanças climáticas.
Ou seja, a diferença entre o “padrão atual” de expansão e o “intensificado” faria grande diferença ambiental e poderia contemplsr a projeção sobre o aumento da produção brasileira de órgãos oficiais.
Dilema econômico-ambiental da soja
O estudo considerou que o Brasil possui 516 milhões de hectares de florestas e savanas (330 milhões de hectares de florestas tropicais na Amazônia) e é, ao mesmo tempo, o maior exportador de soja (40% das exportações globais).
Segundo os pesquisadores, a produção de soja impulsionou o desmatamento maciço durante o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, mas, entre 2005 e 2015, houve reduções no nível de desmatamento por meio de moratórias e programas de incentivo financiados por países estrangeiros.
Contudo, para os estudiosos, “a questão é se essas medidas por si só serão suficientes para evitar a conversão de ecossistemas frágeis em um contexto de altos preços de grãos e governos que buscam crescimento econômico por meio do aumento da produção agrícola”.
Assim, o artigo conclui que a intensificação (ou seja, o aumento da produtividade das áreas agrícolas existentes) poderia servir como um meio de permitir que o Brasil conciliasse simultaneamente a produção e os objetivos ambientais.
Potencial de rendimento na produção de soja
A área de produção de soja no Brasil está concentrada em quatro regiões: Pampa, Mata Atlântica, Cerrado e Amazônia, mas os principais aumentos na conversão de área natural para lavouras ocorreram nestes últimos dois biomas a partir de 2000.
A área de soja cresceu 1,4 milhão de hectares por ano entre 2007-2019 no Cerrado e na Amazônia, impulsionado pela disponibilidade de solos adequados para a produção agrícola. Apenas a Amazônia respondeu por um terço da área convertida entre 2015 e 2019.
Além disso, a melhoria da produtividade tem sido mais lenta no Cerrado e na Amazônia do que em outras regiões.
O estudo define “potencial de rendimento” como a produtividade possível de uma cultivar bem adaptada quando cultivada sem limitações de nutrientes e com controle de fatores limitantes, como ervas daninhas, pragas de insetos e patógenos.
Segundo o artigo, o potencial de rendimento para soja no Brasil seria em média de 5,5 toneladas por hectare (cerca de 91 sacas), mas com potenciais de rendimento mais altos e mais estáveis no Cerrado e na Amazônia do que na Mata Atlântica e no Pampa.
“Alcançar o potencial de rendimento nos campos dos agricultores é difícil, pois requer grandes quantidades de insumos e um alto grau de sofisticação para eliminar os fatores de redução de rendimento, levando a um lucro reduzido e um grande impacto ambiental negativo”, admitem os autores.
Por isso mesmo, eles adotam 80% desse potencial de rendimento (ou 72 sacas por hectare, a média no Brasil foi de 60 sacas na safra 21/22) como base para os cálculos. Assim, eles concluem que o “gap” ou “rendimento explorável” para soja no Brasil aumenta de 10% e 25% no Pampa e na Mata Atlântica, respectivamente, para 35 % na Amazônia e Cerrado.
O estudo também considerou um aumento de aproximadamente 12% na taxa de lotação nos atuais sistemas de pecuária a pasto seria suficiente para atender a demanda projetada de carne bovina e liberar 5,7 milhões de hectares de pastagens para produção de soja (Métodos).
Expansão por padrões de produção
No cenário “padrão atual”, a área de soja se expande de 36 para 59 milhões de hectares, enquanto a produtividade atual aumenta de 3,1 para 3,6 toneladas por hectare, levando a uma produção nacional de soja de 212 milhões de toneladas até 2035.
No entanto, o aumento da produção no cenário “padrão atual” ocorreria às custas da conversão de 5,7 milhões de hectares de florestas e Cerrado em cultivo de soja e 1,9 milhão de toneladas de CO2e liberados na atmosfera devido à conversão de terras.
Em contraste, o cenário “sem novas áreas” evita o desmatamento e reduz o potencial de aquecimento global, mas faria o Brasil perder US$ 447 bilhões em oportunidade econômica até 2035.
No cenário de intensificação tecnológica, a produtividade média da soja atingiria 3,9 toneladas por hectare (ou 65 sacas) até 2035 e o país alcança um equilíbrio razoável entre o aumento da produção agrícola e a redução do impacto ambiental negativo.
A produção de soja aumenta para 162 milhões de toneladas até 2035, mitigando o custo de oportunidade. Como não há desmatamento, as emissões de GEE cem em 58% em comparação com o modelo atual, inclusive próximo ao modelo sem expansão de área.