Pecuarista baiano dobra lucro com integração entre animais e eucalipto

    Adoção do modelo de ILPF ainda é incipiente na produção de leite, apesar do enorme potencial

    Modelo aumenta em 30% a concentração de proteína e 6% a digestibilidade do pasto cultivado sob as árvores. (foto -Valter Falcão Filho)

    Modelo aumenta em 30% a concentração de proteína e 6% a digestibilidade do pasto cultivado sob as árvores. (foto -Valter Falcão Filho)

    27deOutubrode2022ás15:32

    O pecuarista Valter Falcão Filho buscava, como todo produtor, tornar sua terra mais lucrativa e sustentável ao mesmo tempo. A resposta não foi um único cultivo ou técnica, mas um método que concilia cultivos e técnicas: Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF).

    Localizada na cidade de Teixeira de Freitas, estado da Bahia, a Fazenda Primavera cultivava apenas eucalipto para abastecer a indústria papeleira local desde 2000.

    No entanto, por volta de 2014, o negócio de celulose mudou e ele decidiu adicionar gado na mesma área. No início, o experimento colocou 200 bezerros em 800 hectares de floresta de eucalipto e bons resultados começaram a aparecer.

    “Pensei que apenas uma vaca poderia dar à luz dois bezerros por ano e isso é mais lucrativo do que um hectare de árvores. Muitas pessoas riram de mim, mas atingimos rentabilidade após o terceiro ciclo”, diz.

    Devido a isso, as mesmas pessoas que desacreditaram a iniciativa de ILPF antes, hoje em dia, vão até lá para ver a produção consorciada da Fazenda Primavera funcionando e seus resultados notáveis.

    Bom para as vacas e o bolso do pecuarista

    Atualmente, o Sr. Valter mantém 45.000 árvores, 500 bezerros e 70 vacas em lactação na mesma área com benefícios mútuos. O primeiro deles é exatamente um nível mais alto de produtividade no leite e na reprodução.

    Seu rebanho é da raça Girolando, meio mestiço entre Holandês e Gir, e atinge 37,5% mais prolificidade que a média da região. Isso significa que o índice da Fazenda Primavera está em torno de 55% e seus vizinhos ficam com apenas 40%.

    No que diz respeito à produção de leite, atinge diariamente 18 litros por animal, o que significa cerca de 80% a mais do que a média nacional. De fato, a média de produção de leite brasileira é de apenas 3.500 ninhadas por vaca por ano, exceto para grandes produtores, graças ao clima e à baixa adoção de tecnologia.

    “Esses resultados têm apenas um motivo: a temperatura está 5 graus abaixo das árvores. Faz muita diferença para o gado. Então, ganho com o gado e também posso vender eucalipto. Minha rentabilidade por hectare dobrou desde eles”, admite.

    Plano: incluir milho na integração

    O próximo passo, segundo ele, é aumentar o rebanho para 100 animais em lactação e introduzir uma terceira cultura no sistema: o milho. “Estou planejando introduzir grãos, milho, para ser mais preciso, no sistema. Também acho que pode tornar o negócio mais sustentável, estável e rentável”, completa.

    Nesse sentido, o Sr. Valter já tem demanda por todos esses produtos. A maior indústria de laticínios da região precisa de mais abastecimento, vários serralheiros procuram madeira e o milho pode alimentar suas vacas.

    O sistema ILPF pode gerar múltiplos benefícios entre as culturas. Os grãos fixam os nutrientes do solo à silvicultura e vice-versa, as árvores protegem o bem-estar animal e as vacas consomem grãos, reduzindo custos e emissões de carbono.

    Visão científica

    Isabel Ferreira, pesquisadora da Embrapa Cerrados, publicou um estudo exatamente sobre a pecuária leiteira no sistema Integrado Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF.

    Ela avaliou 140 vacas das raças Gir e Girolando durante três anos a respeito de diferentes aspectos e encontrou várias vantagens apenas por “colocar vacas na sombra” em comparação com animais sob o sol tropical.

    Cada vaca produziu 24% mais leite durante a estação chuvosa e 17% a mais na estação seca comendo apenas pastagem, sem concentrados. “Isso é muito relevante principalmente para os pequenos produtores que são a maioria no Brasil. Eles não têm muito acesso a outras alternativas tecnológicas”, disse.

    O bem-estar animal também foi medido. Os períodos de ruminação aumentaram 30% porque as vacas tiveram a temperatura superficial da pele 2 graus mais baixa. Outra consequência foi quatro vezes mais embriões viáveis ​​por vaca.

    “São números que os produtores não conseguem enxergar quando estão envolvidos apenas nas práticas produtivas cotidianas. Muitos deles acham que as raças zebuínas não são afetadas pelo calor, mas não é verdade. Esta é uma grande oportunidade para eles melhorarem seus negócios com baixíssimo investimento”, completa.

    Pasto é ração barata, mas precisa qualidade

    O modelo, além disso, aumenta em 30% a concentração de proteína e 6% mais digestibilidade do pasto cultivado sob as árvores.

    “Isso é fundamental porque o pasto é ração barata, mas precisa ter qualidade. Práticas simples permitiram um grande salto de produtividade. Não é tão difícil para os pecuaristas. Eles têm muitas oportunidades para silagem”, comenta.

    Além disso, uma melhor alimentação dos animais também reduz as emissões de metano para 18,5 gramas por quilo de leite. Vale ressaltar que o modelo favorece o sequestro de carbono das culturas e silvicultura e reduz a dependência da adubação química devido à fixação biológica de nitrogênio (FBN).

    “O sistema ICLF ainda é muito incipiente para a pecuária leiteira, não mais que 2 ou 3% da produção brasileira. Tem muito terreno para crescer. O produtor sentirá quando a indústria de laticínios exigir zero líquido. O potencial é de milhões e milhões de hectares”, avalia.

    O que é ILPF?

    Embora a integração entre as culturas exista há milênios, mesmo entre os povos indígenas, a produção extensiva dominou quase completamente a agricultura comercial nos últimos séculos.

    Foi somente na década de 1990 que o moderno modelo de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF) apresentou vantagens econômicas, sociais e ambientais consistentes para os dias atuais.

    A partir daí, produtores, pesquisadores e o Governo Federal priorizaram o sistema e suas variantes, como lavoura-pecuária, pecuária-floresta.

    Como consequência, tornou-se política pública do Brasil por meio do Plano ABC ou Agricultura de Baixo Carbono. Tanto que a adoção do sistema avança no país.

    Segundo a Embrapa, o modelo cobriu entre 15 e 17,5 milhões de hectares em todo o país em 2020.

    Na prática, o ILPF é uma estratégia de produção sustentável que integra atividades agropecuárias e florestais em uma mesma área, em sistemas consorciados, sucessivos ou de rotação.

    De acordo com o glossário da Embrapa, o modelo busca efeitos sinérgicos entre os componentes do agroecossistema, englobando adequação ambiental, valorização da mão de obra e viabilidade econômica, otimizando ganhos de produtividade e preservando os recursos naturais.

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