Produtores ucranianos clamam ajuda global para recuperar setor
País estima prejuízo de US$ 565 bilhões no agro em oito meses de conflito
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Ataques russos destruíram milhares de instalações agropecuárias em diversas regiões do país. (foto - Conselho Agropecuária da Ucrânia)
As principais associações de agricultores e pecuaristas da Ucrânia apresentaram, na semana passada, um plano de recuperação do agropecuária no país após a guerra com a Rússia, que já dura quase nove meses.
Batizado de “Plano Marshall para a agropecuária da Ucrânia”, a iniciativa visa somar esforços de diferentes partes do mundo no sentido de reestabelecer a infraestrutura da produção agropecuária no país muito afetada pelo conflito.
O nome “Plano Marshall” faz referência ao grande acordo entre Estados Unidos e Europa após a Segunda Guerra Mundial para reconstrução do Velho Continente que havia sido amplamente destruída no maior conflito da história da humanidade.

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A iniciativa é importante não apenas para os produtores ou a população ucraniana, mas também para a segurança alimentar em todo o mundo. O país eslavo é um dos maiores produtores de alimentos do planeta e ocupa posição estratégica no globo.
Antes da guerra, em 2021, a Ucrânia produziu por 86 milhões de toneladas de grãos, e foi o maior produtor mundial de semente de girassol, terceiro maior em cevada e colza, quarto maior em milho e quinto maior em trigo. Este volume representou 6% do consumo de calorias em todo o mundo.
Por exemplo, os ucranianos respondem por 12% do comércio mundial de trigo e mais da metade da semente de girassol.
Com o conflito iniciado pela Rússia em fevereiro deste ano, o prejuízo econômico total chega a US$ 564,9 bilhões apenas no setor agropecuário.
As estimativas apontam perdas de US$ 119 bilhões em infraestrutura, US$ 80 bilhões em empresas e organizações, US$ 112 bilhões no PIB, US$ 54 bilhões em investimentos, US$ 90,5 bilhões em propriedades civis e US$ 48 bilhões no orçamento público.
Andriy Dykun, chefe do Conselho Ucraniano de Agropecuária e fundador da SAVEUA Charitable Foundation, disse: "Em comparação com os países da UE, onde o setor agrícola responde por uma média de 1% do PIB, o setor agrícola da Ucrânia antes da guerra representava mais de 17% do PIB e trouxe ao país mais de 40% das receitas em divisas”.

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Segundo ele, já existe um acordo com o governo ucraniano de Volodymyr Zelensky para pedir apoio internacional e priorizar os esforços do país na recuperação do agro, pois o setor é capaz de sustentar a economia e gerar empregos no pós-guerra.
Impacto da guerra por atividade
Os ataques russos afetaram todos os setores da economia e da sociedade ucraniana. No caso do agronegócio, a entidade estimou o impacto em alguns setores específicos como laticínios, suinocultura e agricultura.
No caso do setor de leite, 10 das 24 principais regiões produtoras estão sob ocupação temporária ou em zona de hostilidades com o Exército Russo. Tais regiões respondem por 42% do leite no país. No total, mais de 800 fazendas leiteiras comerciais foram afetadas pela guerra, das quais 100 foram totalmente destruídas.
A Associação de Produtores de Leite da Ucrânia também estima a morte de entre 50 mil e 70 mil vacas em consequência dos bombardeios e ataques. Ainda assim, o país continua autossuficiente na produção de leite e laticínios.
No setor de suínos, 19 das 24 principais regiões produtoras retomaram suas operações normais ou estão no processo de restabelecer relações comerciais, fazendo reservas de insumos críticos.
Ainda assim, o rebanho de suínos em fazendas comerciais diminuiu 11% e em produção doméstica, cerca de 15%. Mais de 15 unidades produtivas foram totalmente destruídas devido a bombardeios (a maior delas tinha 32.000 animais).
Deste modo, a oferta interna de carne suína cairá em 100 mil toneladas (13% do consumo nacional). Como resposta, a indústria suinícola de regiões menos afetadas está operando na máxima capacidade para atender a demanda.
De acordo com a Associação de Suinocultores, mais de 90% dos produtores nos territórios controlados pela Ucrânia continuou operando de forma constante não diminuindo a produção capacidade.

Produção de suínos perdeu cerca de 11% de sua capacidade
Na agricultura, os prejuízos totais chegam a quase US$ 40 bilhões apenas dentro das fazendas, dos quais perdas diretas de US$ 6,6 bilhões. “Essa é a situação em que vivemos agora”, disse Hanna Lavreniuk, diretora-geral da Associação de Produtores de Leite (AMP).
Segundo ela, são US$ 2,8 bilhões para máquinas agrícolas, mais de US$ 3 bilhões para instalações, além de US$ 4,4 bilhões em lavouras e plantios. Ela lembrou que setor agrícola tem mais de US$ 35 bilhões em perdas indiretas, isso é, um lucro perdido já que os agricultores não colheram e não semearam uma nova safra.
Plano de recuperação
Durante a Eurotier 2022, realizada na semana passada em Hanôver, na Alemanha, o Conselho Agro Ucraniano, a Associação de Produtores de Leite, a Associação de Criadores de Suínos Ucranianos e o fundo de caridade SAVEUA apresentaram um plano para recuperar tais estragos após a “vitória da Ucrânia”.
Segundo os representantes do país, os aportes prioritários do governo, da comunidade de nações e investidores de todo o mundo devem ser direcionados ao setor agrícola. Dadas as perdas atuais, os investimentos para a recuperação chegarão a dezenas de bilhões de dólares.
As associações agrárias estão convencidas de que o setor agrícola ucraniano deve ser restaurado em três etapas.
Segundo o vice-presidente da Associação dos Produtores de Leite, Lyubomyr Dykun, a primeira etapa será implementada durante a fase ativa da guerra. Isso requer apoio urgente aos produtores ucranianos.

Em particular, apoio material de caridade a empresas dos territórios ocupados que perderam gado como resultado das hostilidades, para a compra de animais reprodutores e assistência material para a reparação de instalações danificadas e equipamentos destruídos.
“É extremamente importante fornecer às empresas agrícolas os insumos necessários para operação ininterrupta, medicamentos veterinários, vacinas, premixes, aditivos alimentares, produtos de higiene para animais, etc”, frisou. Algumas grandes empresas globais já partiicpam deste esforço.
A segunda fase do “Plano Marshall” inclui projetos de apoio técnico na reconstrução de fazendas, desminagem de terras agrícolas (cerca de 40% do território do país está repleto de minas), compra de gado de criação, sementes e prestação de serviços a empresas agrícolas.
Já a terceira fase moldará diretamente o novo setor agropecuário da Ucrânia. Grandes esforços e investimentos serão direcionados ao desenvolvimento de agroindústrias, cooperativas e construção de instituições de pesquisa e ensino agropecuário.
"Já temos uma nova estratégia para investimentos futuros. Junto com parceiros internacionais, precisamos criar e desenvolver usinas cooperativas de processamento de leite, matadouros cooperativos, construir centros genéticos, instalações de ensino e pesquisa, criar fábricas de equipamentos de irrigação”, disse Andriy.
Ele também disse que é igualmente importante formar especialistas e incentivar os jovens a trabalhar no setor agrícola e atrair mais investimentos estrangeiros para o setor.
“Para isso, é necessário criar e construir a Universidade Agrária Ucraniana e enfatizar que a Ucrânia continua atraente para investidores estrangeiros. Nosso governo já tem mais de 250 pedidos de potenciais investidores, a maioria deles quer investir no setor agrícola da Ucrânia”, resumiu Andriy.
Ao mesmo tempo, o Conselho Agro Ucraniano, a Associação de Produtores de Leite, a Associação de Criadores de Suínos Ucranianos e a fundação de caridade SAVEUA estão implementando vários projetos para apoiar empresas agrícolas afetadas pela guerra junto com parceiros internacionais: FAO, USAID, o Governo da Suíça, etc.