Produtores de cacau protestam contra importação de amêndoas africanas
Seagri realizou reunião com representantes da cadeia produtiva para discutir a situação
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"Nosso objetivo foi o de chamar atenção das autoridades dos graves riscos que estamos correndo”, diz Vanuza Barroso, da ANPC. (foto - ANPC)
Produtores de cacau da Bahia realizaram ontem (dia 28) uma manifestação no qual pedem maior atenção das autoridades políticas diante dos riscos fitossanitários com a importação de amêndoas de cacau, em especial da Costa do Marfim.
O evento foi organizado pela Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC), na região portuária de Ilhéus (BA), e refere-se a aprovação da Instrução Normativa Nº 125 (IN125), publicada pelo governo passado, que permitiu a entrada do cacau africano no Brasil.
Segundo a ANPC, a IN retirou a exigência fitossanitária para a importação das amêndoas do país africano, fato que ignora os riscos de trazer para o Brasil pragas e doenças quarentenárias (não existentes por aqui) como a Striga spp e a Phytoptora Megakaria.
“Essas pragas poderiam contaminar a produção de cacau e de outras culturas como soja, milho, arroz, feijão, cana-de-açúcar e sorgo”, alerta a entidade.
Ainda de acordo com a ANPC, o Brasil tem rígidas leis ambientais que fazem com que os produtores conduzam suas lavouras da forma mais sustentável possível.
“Nossa luta não é apenas comercial, como alguns têm dito. A produção africana utiliza mão-de-obra infantil e existem registros de trabalho análogo à escravidão nas lavouras. Isso é inadmissível”, acusa Vanuza Lima Barroso, presidente da ANPC.
Segundo ela, produtores do Pará também aderiram à manifestação. “Nosso objetivo foi o de chamar atenção das autoridades dos graves riscos que estamos correndo caso essa IN125 não seja revogada”, explicou Vanuza Lima Barroso, presidente da ANPC.
Reunião na pauta do governo da Bahia
Também ontem, a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura da Bahia (Seagri) realizou uma reunião com representantes de diversos setores ligados à cadeia produtiva do cacau para discutir a situação das importações de amêndoas da Costa do Marfim (África).
“Temos o maior respeito e cuidado para com a cadeia produtiva do cacau. Sabemos de sua representatividade dentro da nossa agricultura”, disse o secretário da Agricultura, Wallison Tum, quem pediu a reunião.
“Podem ter certeza de que ouviremos todas as partes envolvidas e sairemos sempre em socorro de nossos agricultores, mas também levando em consideração as necessidades das agroindústrias”, ponderou o secretário Wallison Tum após o encontro.
Concorrência desigual
“Na África ganha-se R$ 18 por dia de trabalho, sem garantias, nas culturas de cacau. Com esse custo de produção menor, a concorrência com o nosso cacau é desigual. Trabalhamos respeitando nossa legislação, o que eleva nossos custos. Precisamos de um olhar sobre isso”, comentou Valnei Pestana, presidente da Câmara Setorial do Cacau na Bahia.
O chefe do Serviço de Fiscalização de Insumos e Sanidade Vegetal da Superintendência de Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia, Afonso Estrela, entretanto, afirmou que a superintendência se mostra “atenta ao problema e disposta a sanar as dificuldades”.
“Precisamos ampliar as análises de coletas para entender o real perigo, ou não, no caso concreto”, argumentou Estrela, para quem também seria pertinente o envio de técnicos à Costa do Marfim para análise dos plantios e verificação in loco da possível incidência de pragas e seus ciclos.
Uma segunda reunião será agendada nos próximos dias, com participação das agroindústrias moedoras de amêndoas e também de especialistas das relações trabalhistas em contexto internacional
“Fomos estimulados para este debate e nós, da Seagri, já entramos nele à procura de soluções que levem em conta todos os setores envolvidos.”, concluiu o secretário da Agricultura, Wallison Tum.
Vale lembrar que o Brasil, outrora um dos maiores exportadores de cacau, ocupa atualmente a sexta produção mundial, com uma quantidade insuficiente para abastecer seu próprio parque industrial.