Quais tecnologias levam o Brasil a dominar o mercado global de laranja?
Citrosuco investiu R$ 200 milhões em softwares, inteligência artificial e sistemas para novos saltos

“A Citrosuco é a primeira empresa do setor de citricultura do mundo a ser 100% digitalizada", disse Tomás Balistero, COO da Citrosuco
Os pomares brasileiros produzem, atualmente, entre 6 e 7 de cada 10 copos de suco de laranja consumidos em todo o mundo e isso não se dá por outro fator além das escolhas tecnológicas corretas feitas pelo setor.
A síntese é de Tomás Dandrea Balistiero, COO da Citrosuco, com quem o Agrofy News Brasil conversou durante o World Agritech Summit South America, que reuniu os principais agentes da inovação no agronegócio por dois dias em São Paulo.
Segundo ele, a escolha técnica mais definidora do domínio global brasileiro no setor foi, ainda nos anos 2000, combater o greening eliminando ou controlando seu vetor, o mosquito psilídeo, e não apenas a infestação bacteriana nas frutas.
A doença é devastadora para os laranjais e literalmente destruiu centenas de milhares de hectares de pomares na América do Norte, Europa e outros continentes.
“Sem dúvidas, combater o mosquito vetor do greenning foi a decisão mais importante. O que aconteceu foi que os Estados Unidos produziam 250 milhões de caixas e hoje produzem 16 milhões. Já o Brasil produzirá 309 milhões de caixas na safra desse ano. Então, o Brasil é o grande vitorioso no processo de aplicação de ciência e de manejo”, detalha.

Na prática, os produtores brasileiros souberam adotar manejo integrado de pragas (MIP) que concilia tanto defensivos químicos, como biológicos. No caso, a vespa Tamarixia radiata, inimiga natural do psilídeo Diaphorina citri, que transmite a bactéria Candidatus Liberibacter spp., causadora do greening.
“A Citrosuco, por exemplo, produz mais de 10 milhões de tamaris em seus laboratórios e a gente aplica em nossos vizinhos porque é uma doença que não respeita limites de propriedades. Então, temos um controle interno e externo. Isso fez e faz uma diferença absoluta”, afirma.
Assim, o setor citrícola brasileiro avançou e conquistou cada vez mais espaço no mercado global. Atualmente, a laranja emprega cerca de 200 mil pessoas no Brasil e é a sexta cultura mais valiosa do país com um VBP (VAlor Bruto da Produção) previsto de R$ 22 bilhões para 2023.
Evolução setorial
A inovação que levou e sustenta o crescimento do segmento segue avançando desde a pesquisa pré-competitiva – junto a entidades como associações, universidades e a Embrapa – até a P&D também na indústria.
“A produção de laranja tem um dos manejos mais complexos da agricultura e, por isso, a inovação é ponto chave para operar já que não podemos errar, dada essa doença que não tem cura. Nesse sentido, a tecnologia de dados, dispositivos, inteligência artificial e outras são fundamentais. Isso tem evoluído muito”, acrescenta.
Contudo, segundo ele, há uma fossa enorme entre produtores atualizados e aqueles que ainda utilizam práticas "do século passado". E esse é um problema para o setor, tanto pelo aspecto do risco de sanidade, como também pelo fato de que pequenos produtores também são fornecedores das indústrias.
A empresa, por exemplo, integra iniciativas com a Fundecitrus e outras entidades para fomentar a adoção tecnológica por todo o setor, mas isso depende também dos próprios produtores, de todos os tamanhos.
Inovação é resultado na Citrosuco
A Citrosuco é uma das maiores empresas de suco de laranja no mundo com cerca de 14 mil funcionários, três unidades indústrias no Brasil, cinco terminais em diferentes continentes e 25 fazendas com um total de 80 mil hectares de área de laranjais.

Seu processo de adoção de inovações tecnológicas priorizou mapeamento por drones de 100% das plantas, digitalização de processos e sistemas, telemetria de maquinários, entre outras.
“Ao adotar soluções inteligentes e eficientes em toda cadeia, entendemos que é possível aumentar a produtividade, a competitividade com impactos positivos não apenas para o negócio, mas também para o planeta, utilizando os recursos com mais eficiência”, comenta Balistiero.
No caso dos drones, cada laranjeira tem um ID único, o que permite acompanhar individualmente as condições de cada árvore em intervalos de poucas semanas. Deste modo, as intervenções agronômicas podem ser muito mais precisas e apenas quando necessárias.
Já no caso da telemetria dos maquinários, o objetivo é garantir eficiência quanto ao ritmo de aplicações e também sobre a cobertura das áreas no momento correto.
O próximo passo quanto a maquinários, já em fase de testes, é pulverizadoras autônomas e robóticas. “Já temos uma série de testes em nossas fazendas. Talvez, em 3 anos, elas serão mais presentes na produção”, conta.
Inteligência artificial nos pomares
A empresa, que ao logo nos anos vem investindo em tecnologia de ponta como inteligência artificial e automação, dedicou US$ 40 milhões de dólares (cerca de R$ 200 milhões) em sistemas e softwares.
“A Citrosuco é a primeira empresa do setor de citricultura do mundo a ser 100% digitalizada. Todas as fazendas, indústrias e terminais logísticos ao redor do mundo estão conectados, o que permite a integração das práticas agrícolas, desde o viveiro de mudas até a entrega dos produtos”, diz o executivo.
Isso significa que todas as fazendas do grupo possuem antenas de 4G, os processos de gestão são digitalizados e, principalmente, o desenvolvimento de um sistema de inteligência artificial para as operações.
Esse modelo é capaz de, a partir da coleta de todas as fontes de dados ambientais, de clima e de históricos em cada talhão, determinar o momento ótimo para a colheita.
“Com esse modelo, prevemos qual é a janela ótima em cada área para colher a fim de maximizar o sólido disponível nas laranjas e produzir o suco. O potencial é ganhar até 15% de suco por hectare. É um impacto muito relevante”, revela.
