Boom do etanol redesenha futuro da cadeia do milho
Novos caminhos do "grão dourado" somam soluções para transição energética e proteína animal

Agroindústria que mais cresce no Brasil, as biorrefinarias de milho multiplicaram seu principal produto – o etanol - mais de 12 vezes entre 2017/2018 e 2023/2024.
O volume saltou de 520 milhões litros para 6,3 bilhões no período e deve ao menos dobrar mais uma vez na próxima década.
O ritmo vertiginoso tem fundamento em duas das demandas mais urgentes e cruciais da sociedade global: transição energética e sistemas alimentares sustentáveis.
Desde 2016/2017, o etanol de milho saiu praticamente do zero para abocanhar 20% do gigantesco mercado brasileiro de biocombustíveis ao somar soluções a ambos desafios e, ainda, ser produto estratégico para as principais regiões agrícolas do país.
“O mundo já consome 117 bilhões de litros de etanol ao ano e chegará a 300 bilhões até 2030, seja para veículos como também aviões com os SAF e embarcações, além da crescente demanda por proteína animal entre outros itens”, aponta Guilherme Nolasco, presidente da Associação Nacional do Etanol de Milho.

O Agrofy News foi convidado pela UNEM para um press tour no Mato Grosso a fim de justamente conhecer melhor a cadeia do etanol de milho.
Grão dourado
Mesmo em um ano “ruim”, a safra brasileira de milho deve ficar em 112,7 milhões de toneladas na temporada 2023/2024, volume 54,4% maior do que há 10 anos, e vai a mais.
Segundo projeções oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a produção chegará a 176,9 milhões de toneladas em 2032/2033.
Essa estimativa faz ainda mais sentido com a diversificação estratégica dos derivados do milho. Além de apenas grão e farelo, o cereal deverá gerar, assim, cada vez mais etanol, óleo, DDGs e outros co-produtos.
Cada tonelada do “grão dourado” pode produzir 450 litros de etanol, 212 quilos de DDG/DDGS e 19 litros de óleo de milho. O volume restante fica dividido entre água e gás carbônico.

Essa diversidade e volume crescente do milho favorecem a oferta de etanol para o mercado doméstico, como alternativa à cana-de-açúcar, bem como a já tradicional segunda safra do cereal, após a colheita da soja.
“Atualmente, cerca de 60% da área de soja é destinada para o milho na segunda safra, algo em torno de 20 milhões de hectares. A conversão de pastagens degradadas poderá trazer outros 26 milhões de hectares para esse ciclo”, aponta Nolasco.
Multiplicação das usinas
A projeção do aumento da oferta de milho, associada à demanda por biocombustíveis verdes e alimentos sustentáveis, motivou um verdadeiro boom das usinas dedicadas ao processamento do grão.
Segundo dados da Unem, já são 21, das quais mais de 80% surgiram nos últimos 5 anos. Deste total, 18 estão no Centro-Oeste, uma no Sul, uma no Sudeste e uma no Nordeste.

Além dessas, investimentos bilionários foram anunciados por diferentes grupos e mais nove já estão autorizadas para operar (5 no Mato Grosso, 2 em Goiás, uma no Mato Grosso do Sul e outra na Bahia). Finalmente, a Unem estima que outras 11 estão previstas em projetos.
DDGs
As usinas de etanol de milho também produzem DDG (do inglês, Dried Distillers Grains ou Grãos Secos de Destilaria), um coproduto de alto índice proteico e bom nível de calorias, considerado uma alternativa de alta qualidade para nutrição animal.
“Por isso, investir também no mercado de DDG/DDGS é ter uma visão de investimento. Não tínhamos cadeia produtiva, mas hoje temos. Acreditamos que o DDG possa representar até 25% do negócio das usinas”, finaliza.
Assim, o DDG/DDGS é mais uma vantagem competitiva para consolidar o Brasil como maior potência dos biocombustíveis e também ampliar sua liderança global no fornecimento de proteína e nutrição animal.

Segundo Guilherme, o concentrado já tem um mercado global em países como China, Vietnã, Espanha, Nova Zelândia, Japão e outros. O Brasil produzirá cerca de 4 milhões de toneladas e deverá exportar entre 800 mil e 1 milhão de toneladas de DDG em 2024.
O mercado global ascende a mais de 10 milhões de toneladas e é atualmente dominado pelos Estados Unidos, justamente por ser o atual maior produtor de etanol de milho.
“O DDG/DDGS é estratégico como alternativa de nutrição de gado, aves, suínos, peixes e PETs, seja para intensificação da produção animal e conversão de áreas degradadas, como para valorização de coprodutos do milho”, argumenta.
