Ex-peão de rodeio é esperança de medalha do Brasil nas Paralimpíadas de Paris
Paracanoísta busca nesse ano a única conquista que ainda não tem no currículo
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Delegação brasileira será a maior para uma edição dos Jogos fora do Brasil, com 280 atletas no total. (Foto: Ricardo Ribeiro/AEN)
Os Jogos Paralímpicos de Paris começam hoje (dia 28), com a cerimônia de abertura às 15h (de Brasília). Já o encerramento da competição será em 8 de setembro.
Na competição, o Brasil vai brigar para ser top 5 no quadro de medalhas. E uma das esperanças de pódio em Paris vem do Paraná, de um ex-peão de rodeio.
O paracanoísta Igor Tofalini, 41 anos, nascido na cidade de Cambé, busca nos Jogos a única conquista que ainda não tem no currículo. Falta botar no peito apenas a medalha paralímpica.
E é o ouro que ele vai buscar nos Jogos de Paris em setembro na prova de 200 metros VL2, categoria para paratletas que não têm movimentos nas pernas.
“Se eu conseguir, essa medalha vai ser uma realização pessoal, de sonhar, trabalhar e conquistar algo que não tem preço. É como alcançar o nível mais alto da sua profissão. E, no meu caso, poder olhar para trás e ver que superei todas as dificuldades”, aponta o paratleta.
Rodeio
Igor se refere ao acidente que o deixou paraplégico em 2011, quando era peão de rodeio. Ao cair de cima de um boi numa prova, levou um pisão do animal que fraturou a coluna.
Após o acidente, foram 45 dias de tratamento no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, referência nacional na reabilitação de pacientes vítimas de lesões com sequelas ortopédicas e neurológicas. E foi durante o tratamento na Capital Federal que Igor ouviu falar pela primeira vez sobre esportes adaptados.
Ao voltar a Londrina, depois de se dedicar à natação, ele viu no mesmo clube em que nadava, a equipe de canoagem treinando e achou interessante praticar um esporte sobre as águas.

Em 2013, dois anos após o acidente que o tirou das arenas de rodeio, nascia o Peão das Águas, apelido que leva até hoje. Nascia também a parceria com o técnico Gelson Moreira Souza, com quem Igor segue treinando.
“A transição para a canoagem foi difícil. Mas em 2014 conquistei meu primeiro campeonato nacional e ali vi que a canoagem poderia mudar minha vida”, recorda. “Ali passou um filme na cabeça. Eu estava vencendo uma prova de um esporte que poucos anos antes eu nunca tinha sequer visto na TV, nem sabia que existia esportes paralímpicos
Papa-títulos
O paranaense já venceu seis vezes o Campeonato Brasileiro, duas o Sul-Americano, duas o Pan-Americano e duas o Mundial, competição em que também conquistou duas pratas.
O primeiro grande feito de sua carreira veio em 2016, com a classificação à Paralimpíada do Rio de Janeiro. Ainda competindo no caiaque, Igor chegou até à semifinal – na sequência, fez a transição para competições de canoa.

Para os Jogos de Tóquio, ele não obteve classificação. Já para a Paralimpíada de Paris o cenário é outro: Igor chega cotado ao ouro após um bom ciclo paralímpico, que inclui a conquista do Mundial de 2022 no Canadá e a prata no Mundial de 2023 na Alemanha.
“A medalha a gente ganha com entrega de 110% nos treinos, não é na prova. Por isso estou trabalhando duro para executar na prova tudo o que tenho treinado”, enfatiza.
Adversário vem do rodeio também
Um dos principais adversários que Igor terá na Paralímpiada de Paris treina com ele na seleção brasileira. E é um de seus melhores amigos: o sul-matogrossense Fernando Rufino, campeão mundial em 2023 e ouro na Paralimpíada de Tóquio.
Assim como Igor, Fernando era peão até ser atropelado e perder os movimentos da perna – daí o apelido Cowboy de Aço.
“É muito bom ter um adversário do mesmo nível treinando comigo. Treinar com quem é bom eleva o teu nível porque você tem que se esforçar mais. Nenhum dos dois pode bobear”, fala Igor sobre o amigo, com quem divide quarto na concentração, quando ouvem juntos modas de viola e torcem pelos amigos em comuns nas transmissões de rodeio.
Igor tem apoio do programa Geração Olimpíca e Paralímpica (GOP), do Governo do Paraná. Igor afirma que o caminho até a Paralimpíada de Paris seria muito mais complicado. Sem o recurso do programa, do qual é bolsista desde 2017, o parancanoísta afirma que dificilmente conseguiria manter a estrutura de treinamento que tem hoje.
“Quando você chega no alto nível precisa ter um equipamento bom, uma suplementação alimentar, o acompanhamento de um fisioterapeuta. E com esse apoio dá para manter isso, permitindo que o atleta se dedique ainda mais nos treinamentos e nas provas. E consequentemente vêm os resultados”, argumenta.
Time Brasil
Na história dos Jogos Paralímpicos, que teve sua primeira edição em Roma 1960, o Brasil tem um total de 109 ouros, 132 pratas e 132 bronzes, com 373 medalhas ao todo.
No Rio 2016 e em Tóquio 2020, a delegação conquistou o maior número de medalhas em únicas edições, com 72 em cada. Mas foi no Japão que o país estebelceu o recorde de ouros, 22, superando a marca de Londres 2012, quando 21 brasileiros subiram ao lugar mais alto do pódio. Em 2016, foram 14 ouros.
A delegação brasileira será a maior para uma edição dos Jogos fora do Brasil, com 280 atletas no total. São 255 com deficiência, 19 atletas-guia (18 para o atletismo e 1 para o triatlo), três calheiros da bocha, dois goleiros do futebol de cegos e um timoneiro do remo.
Em Paris, o Brasil estará representado em 20 das 22 modalidades: atletismo, badminton, bocha, canoagem, ciclismo, esgrima em cadeira de rodas, futebol de cegos, goalball, hipismo, halterofilismo, judô, natação, remo, tênis em cadeira de rodas, taekwondo, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, triatlo e vôlei sentado. Só não haverá brasileiros no basquete em cadeira de rodas e no rúgbi em cadeira de rodas.
Dos 255 atletas com deficiência convocados, 117 são mulheres, ou 45,88% do total dos competidores. O número representa a maior convocação feminina brasileira na história dos Jogos Paralímpicos, tanto em quantidade quanto em termos percentuais.
Em números, as atletas que estarão na capital francesa vão superar as convocadas para a edição de 2016, no Rio de Janeiro, quando o Brasil teve 102 mulheres, o que representou 35,17% do total da delegação.