IAC interrompe pesquisas em grãos, hortaliças e tecnologia de fibras por falta de pesquisadores

    Segundo a APqC, a crise de recursos humanos é resultado da ausência de contratações desde 2003

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    IAC interrompe pesquisas em grãos, hortaliças e tecnologia de fibras por falta de pesquisadores
    27deNovembrode2024ás11:51

    O Instituto Agronômico de Campinas (IAC), referência mundial em pesquisa agropecuária, anunciou hoje a interrupção de estudos em diversas áreas devido à falta de pesquisadores e servidores. A medida afeta projetos importantes para a produção de alimentos e a segurança alimentar.

    De acordo com a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), diversas linhas de pesquisa foram paralisadas, incluindo estudos em hortaliças, triticale, grão-de-bico, manga, cacau, trigo, aveia, cevada, mamona, girassol, amendoim e arroz.

    Além disso, o laboratório de análise da qualidade de fibra de algodão e outras espécies também foi impactado.

    Segundo a APqC, a crise de recursos humanos é resultado da ausência de contratações desde 2003, quando não houve novos concursos para a Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA). O último certame, realizado no ano passado, ofereceu apenas 37 vagas para pesquisadores, mas até o momento nenhum profissional foi convocado.

    Atualmente, a SAA enfrenta um déficit de 746 cargos de pesquisa, além de 4.539 vagas abertas nas áreas de apoio à pesquisa, conforme dados divulgados no Diário Oficial de abril de 2024.

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    Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC, alerta para as graves consequências dessa escassez.

    “Além de paralisar pesquisas essenciais para a segurança alimentar, o que é extremamente preocupante, há um prejuízo difícil de mensurar. A aposentadoria de um pesquisador sem a devida transferência de conhecimento gera um apagão da ciência, perdendo décadas de experiência.”

    História e impacto do IAC

    Fundado em 1887 por Dom Pedro II e administrado pelo Governo de São Paulo desde 1892, o IAC desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento agrícola do Estado e do Brasil, especialmente no setor sucroenergético e no melhoramento de grãos. O Instituto também abriga um dos maiores bancos de germoplasma de café do mundo.. 

     “Se no setor da saúde já vimos doenças controladas ressurgirem, no campo agrícola os efeitos desse desmonte da pesquisa podem não ser imediatos, mas fragilizam a capacidade de resposta e colocam em risco a liderança do Estado nas pesquisas agrícolas”, disse Lutgens.

    Desafios no Setor do Café

    Além da falta de recursos, o IAC enfrenta a ameaça de desmobilização de suas áreas de pesquisa. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) determinou um levantamento para mapear propriedades de pesquisa e conservação que poderiam ser vendidas.

    Entre as áreas afetadas está a Fazenda Santa Elisa, que abriga parte do banco de germoplasma de café, além de pesquisas com macaúba, promissora para biocombustíveis.

    A APqC afirma que o Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), a pedido do Governo, planeja desmembrar sete hectares dessa fazenda, o que afetaria diretamente as pesquisas sobre café e outras culturas.

    Lutgens critica a proposta de vender áreas de pesquisa como uma forma de arrecadação financeira.

    “Vender terrenos de pesquisa é um contrassenso. O valor gerado pela venda será temporário, enquanto a pesquisa científica, por meio do conhecimento, gera receita duradoura para a economia do Estado.”

    Pesquisa no Café e o papel do Funcafé

    Atualmente, cerca de 90% das pesquisas sobre café realizadas na Fazenda Santa Elisa são financiadas pelo Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé), ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e pelo Consórcio Pesquisa Café, coordenado pela Embrapa.

    As pesquisas também recebem aportes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e de outras fontes privadas. O banco de germoplasma do café é mantido com recursos extras, já que o Estado não fornece orçamento para essa atividade.

    A proposta de venda das áreas de pesquisa gerou uma onda de protestos.

    A Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) enviou um ofício ao governador Tarcísio de Freitas solicitando a preservação das áreas do IAC. 

    Na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), deputados exigiram explicações sobre o mapeamento e desmembramento das propriedades de pesquisa.

    Em Campinas, a Câmara Municipal aprovou uma moção contra a venda, e diversas entidades e lideranças lançaram um abaixo-assinado em defesa da preservação dessas áreas vitais para a pesquisa científica.

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