Olho digital no rebanho: Frísia monitora 23,5 mil vacas com inteligência artificial

    Sistema com colares eletrônicos acompanha quase 70% da produção leiteira da cooperativa no Paraná, com foco em saúde, reprodução e bem-estar animal

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    Olho digital no rebanho: Frísia monitora 23,5 mil vacas com inteligência artificial
    10deFevereirode2026ás16:26

    A Frísia Cooperativa Agroindustrial passou a monitorar 23,5 mil vacas leiteiras por meio de inteligência artificial (IA), volume que representa aproximadamente 68% do leite entregue diariamente à indústria pela cooperativa.

    Os animais estão distribuídos em 109 propriedades no Paraná e integram o Projeto Monitore, iniciativa voltada ao acompanhamento contínuo da saúde, reprodução, nutrição e conforto térmico do rebanho. 

    As fazendas participantes correspondem a mais de 50% dos produtores de leite da Frísia. O projeto faz parte do programa Mais Leite Saudável, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

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    O sistema utiliza colares eletrônicos instalados em vacas das raças Holandesa e Jersey em lactação, no período seco (sem produção leiteira) e também em novilhas com 30 dias pré-parto — categorias consideradas mais sensíveis sob o ponto de vista sanitário e reprodutivo.

     Vaca leiteira usando colar eletrônico de monitoramento por inteligência artificial em propriedade da Frísia.

    “O foco é termos, junto com os cooperados, mais saúde e mais produção das vacas. O monitoramento permite agir antes que o problema se agrave”, afirma Eduardo Ichikawa, gerente executivo de Pecuária da Frísia. 

    Ele ressalta que o projeto não faz distinção entre pequenos e grandes produtores. “Independentemente de quanto produz, o importante é estar no projeto”, conta. 

    Para viabilizar a implantação do Monitore, a cooperativa subsidiou parte da infraestrutura, incluindo a instalação das antenas nas propriedades. O cooperado paga uma mensalidade por animal monitorado, equivalente a cerca de um terço do valor praticado no mercado. 

    Detecção precoce e impacto na reprodução 

    Os colares funcionam como dispositivos de monitoramento contínuo do comportamento das vacas. Registram movimentação, ruminação, frequência e tempo de consumo, tempo de descanso e padrões de ofegação, entre outros indicadores. As informações são enviadas para antenas nas propriedades e processadas em uma plataforma digital acessível por celular tanto ao produtor quanto à equipe técnica da Frísia.

     Vaca leiteira usando colar eletrônico de monitoramento por inteligência artificial em propriedade da Frísia.2

    De acordo com Anderson Radavelli, supervisor de Zootecnia da cooperativa, os primeiros resultados percebidos foram na reprodução e na saúde do rebanho.

    “A detecção de cio foi um dos principais ganhos iniciais, porque antes dependia muito da observação visual. Agora, o produtor recebe o alerta no momento adequado para a inseminação”, explica. 

    O sistema também identifica mudanças sutis de comportamento que podem indicar o início de doenças. “Muitas vezes, o alerta vem antes dos sinais clínicos visíveis. Isso permite medidas preventivas, tratamento mais cedo e redução no uso de medicamentos”, diz Radavelli. 

    Na reprodução, os dados já refletem em desempenho. Há propriedades cooperadas registrando taxas de prenhez acima de 35%, patamar considerado elevado. No Brasil, os índices médios costumam variar entre 18% e 24%. 

    Conforto térmico e nutrição sob vigilância 

    Outro ponto monitorado é o estresse térmico. Os colares registram o tempo de ofegação e o período em que a vaca permanece em pé — comportamentos que aumentam quando o animal encontra dificuldade para dissipar calor.

    “Com essas informações, o produtor pode ajustar ventilação, sombra e manejo para reduzir o impacto do calor. Isso preserva o bem-estar e evita perdas de produção”, afirma o supervisor de Zootecnia. 

    Os dados de ruminação e tempo de permanência no cocho também funcionam como indicadores diretos de consumo alimentar.

     “Conseguimos acompanhar desde a ruminação até quanto tempo a vaca passa no cocho. Se o animal reduzir a ingestão, o sistema sinaliza rapidamente. Isso permite corrigir dieta e manejo”, explica Radavelli. 

    Tecnologia embarcada 

    A tecnologia é desenvolvida pela empresa brasileira Cowmed. Segundo o vice-presidente e cofundador, Leonardo Guedes da Luz Martins, o sistema opera como um “smartwatch da vaca”. “A coleira acompanha o animal 24 horas por dia, registrando comportamento em alta frequência. É como se o produtor tivesse alguém observando cada vaca o tempo todo”, afirma.

    Cada dispositivo realiza 25 amostragens por segundo. Os algoritmos analisam os dados e geram alertas automáticos de saúde, cio e alterações nutricionais ou de bem-estar. “Nas análises que fazemos, a precisão dos alertas de saúde pode chegar acima de 95%”, diz Martins. 

    Para o executivo, o projeto também dialoga com o mercado. “Quando a cooperativa investe em monitoramento, está mostrando ao consumidor que há interesse em desenvolvimento, eficiência e bem-estar animal. É uma forma de dar transparência ao sistema de produção”, destaca o cofundador da Cowmed.

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