Olho digital no rebanho: Frísia monitora 23,5 mil vacas com inteligência artificial
Sistema com colares eletrônicos acompanha quase 70% da produção leiteira da cooperativa no Paraná, com foco em saúde, reprodução e bem-estar animal
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A Frísia Cooperativa Agroindustrial passou a monitorar 23,5 mil vacas leiteiras por meio de inteligência artificial (IA), volume que representa aproximadamente 68% do leite entregue diariamente à indústria pela cooperativa.
Os animais estão distribuídos em 109 propriedades no Paraná e integram o Projeto Monitore, iniciativa voltada ao acompanhamento contínuo da saúde, reprodução, nutrição e conforto térmico do rebanho.
As fazendas participantes correspondem a mais de 50% dos produtores de leite da Frísia. O projeto faz parte do programa Mais Leite Saudável, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
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O sistema utiliza colares eletrônicos instalados em vacas das raças Holandesa e Jersey em lactação, no período seco (sem produção leiteira) e também em novilhas com 30 dias pré-parto — categorias consideradas mais sensíveis sob o ponto de vista sanitário e reprodutivo.

“O foco é termos, junto com os cooperados, mais saúde e mais produção das vacas. O monitoramento permite agir antes que o problema se agrave”, afirma Eduardo Ichikawa, gerente executivo de Pecuária da Frísia.
Ele ressalta que o projeto não faz distinção entre pequenos e grandes produtores. “Independentemente de quanto produz, o importante é estar no projeto”, conta.
Para viabilizar a implantação do Monitore, a cooperativa subsidiou parte da infraestrutura, incluindo a instalação das antenas nas propriedades. O cooperado paga uma mensalidade por animal monitorado, equivalente a cerca de um terço do valor praticado no mercado.
Detecção precoce e impacto na reprodução
Os colares funcionam como dispositivos de monitoramento contínuo do comportamento das vacas. Registram movimentação, ruminação, frequência e tempo de consumo, tempo de descanso e padrões de ofegação, entre outros indicadores. As informações são enviadas para antenas nas propriedades e processadas em uma plataforma digital acessível por celular tanto ao produtor quanto à equipe técnica da Frísia.

De acordo com Anderson Radavelli, supervisor de Zootecnia da cooperativa, os primeiros resultados percebidos foram na reprodução e na saúde do rebanho.
“A detecção de cio foi um dos principais ganhos iniciais, porque antes dependia muito da observação visual. Agora, o produtor recebe o alerta no momento adequado para a inseminação”, explica.
O sistema também identifica mudanças sutis de comportamento que podem indicar o início de doenças. “Muitas vezes, o alerta vem antes dos sinais clínicos visíveis. Isso permite medidas preventivas, tratamento mais cedo e redução no uso de medicamentos”, diz Radavelli.
Na reprodução, os dados já refletem em desempenho. Há propriedades cooperadas registrando taxas de prenhez acima de 35%, patamar considerado elevado. No Brasil, os índices médios costumam variar entre 18% e 24%.
Conforto térmico e nutrição sob vigilância
Outro ponto monitorado é o estresse térmico. Os colares registram o tempo de ofegação e o período em que a vaca permanece em pé — comportamentos que aumentam quando o animal encontra dificuldade para dissipar calor.
“Com essas informações, o produtor pode ajustar ventilação, sombra e manejo para reduzir o impacto do calor. Isso preserva o bem-estar e evita perdas de produção”, afirma o supervisor de Zootecnia.
Os dados de ruminação e tempo de permanência no cocho também funcionam como indicadores diretos de consumo alimentar.
“Conseguimos acompanhar desde a ruminação até quanto tempo a vaca passa no cocho. Se o animal reduzir a ingestão, o sistema sinaliza rapidamente. Isso permite corrigir dieta e manejo”, explica Radavelli.
Tecnologia embarcada
A tecnologia é desenvolvida pela empresa brasileira Cowmed. Segundo o vice-presidente e cofundador, Leonardo Guedes da Luz Martins, o sistema opera como um “smartwatch da vaca”. “A coleira acompanha o animal 24 horas por dia, registrando comportamento em alta frequência. É como se o produtor tivesse alguém observando cada vaca o tempo todo”, afirma.
Cada dispositivo realiza 25 amostragens por segundo. Os algoritmos analisam os dados e geram alertas automáticos de saúde, cio e alterações nutricionais ou de bem-estar. “Nas análises que fazemos, a precisão dos alertas de saúde pode chegar acima de 95%”, diz Martins.
Para o executivo, o projeto também dialoga com o mercado. “Quando a cooperativa investe em monitoramento, está mostrando ao consumidor que há interesse em desenvolvimento, eficiência e bem-estar animal. É uma forma de dar transparência ao sistema de produção”, destaca o cofundador da Cowmed.