China gera apreensão com ampla investigação sobre importação de carne bovina
País asiático é o principal destino das exportações brasileiras de proteína animal
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O Ministério do Comércio da China anunciou nesta sexta-feira (27) que iniciará uma investigação abrangente sobre as importações de carne bovina, afetando todos os países exportadores, incluindo o Brasil, um dos maiores fornecedores da proteína animal.
A China, maior importadora de carne bovina do mundo, enfrenta um mercado com excesso de oferta, o que resultou em uma queda acentuada nos preços domésticos, alcançando mínimas de vários anos.
A medida gerou apreensão no Brasil. A investigação da China, que analisará o período de 2019 até o primeiro semestre de 2024, deverá durar oito meses.
O governo brasileiro, em nota assinada pelos ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e das Relações Exteriores, afirmou que não há, até o momento, a adoção de medidas preliminares e que permanece válida a tarifa de 12% “ad valorem” sobre as importações de carne bovina.
Segundo o Ministério, a investigação não é direcionada a países ou regiões específicas.
A China é o principal destino das exportações brasileiras desse produto, representando 42% do valor total do comércio de carne bovina, seguido pela Argentina (15%) e Austrália (12%).
Em 2023, as importações totais de carne bovina da China atingiram 14,2 bilhões de dólares, um aumento significativo em relação aos 8,2 bilhões de dólares registrados em 2019.

Desempenho das Exportações Brasileiras para a China
De janeiro a novembro de 2024, o Brasil exportou 1,21 milhão de toneladas de carne bovina para a China, com alta de 11% em relação ao ano anterior.
As exportações brasileiras para o país asiático geraram uma receita de US$ 5,42 bilhões, um aumento de 3,7%. No entanto, a participação da China nas exportações brasileiras de carne bovina caiu, tanto no volume total (de 48,4% para 41,1%) quanto na receita (de 53,6% para 45,1%).
Governo brasileiro reafirma compromisso
Em resposta à investigação, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou que, durante o período de análise, o governo brasileiro, em parceria com o setor exportador, buscará demonstrar que a carne bovina brasileira não prejudica a indústria chinesa.
A nota reforça que, pelo contrário, a carne brasileira complementa a produção local da China, estimada em 12 milhões de toneladas anuais.
O governo brasileiro reafirma seu compromisso em defender os interesses do agronegócio brasileiro, respeitando as decisões soberanas do nosso principal parceiro comercial, sempre buscando o diálogo construtivo em busca de soluções mutuamente benéficas.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que representa grandes players do setor, como JBS, Marfrig e Minerva, também se manifestou, destacando a importância estratégica do mercado chinês para o Brasil.
A entidade reiterou que a carne bovina brasileira segue rigorosos padrões de qualidade e segurança alimentar e afirmou estar disposta a colaborar com as autoridades de ambos os países durante o processo investigativo.
“Como grandes parceiros comerciais, estamos comprometidos em cooperar com as autoridades chinesas e brasileiras, colocando-nos à disposição para fornecer quaisquer esclarecimentos e participar ativamente do processo de investigação”, explica a Abiec.
Medida protecionista
Especialistas apontam que a medida pode ser uma ação protecionista da China, com o objetivo de fortalecer o setor de carnes local, que atravessa um período de dificuldades.
O consultor Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, avaliou que a China poderia elevar a tarifa de importação de carne bovina de 12% para 22%, o que afetaria os volumes de exportação e prejudicaria o comércio de carne bovina ao longo de 2025. No entanto, a notícia ainda não refletiu em grandes mudanças no mercado físico do boi, que continua sem grandes variações.
Segundo Iglesias, o país poderia tentar elevar a tarifa de importação de 12% para 22%, o que pode impactar os volumes de embarque e trazer um impacto negativo para as vendas de carne bovina ao longo de 2025.
“O que fica nas entrelinhas que a China está querendo preservar o seu próprio setor carnes, pois vem atravessando um período de ampla dificuldade”, avalia.
Tendências do mercado chinês e possíveis novas restrições
Em junho de 2024, a China já havia solicitado aos fazendeiros que otimizassem os rebanhos de gado bovino para conter a queda dos preços, que continuam a declinar, impulsionados pelo aumento das importações, especialmente da Argentina.
Além disso, a China está considerando restrições comerciais também a produtos lácteos e suínos da União Europeia, como resposta a um plano tarifário do bloco para veículos elétricos fabricados no país.
Com a investigação em curso, o mercado aguarda o desdobramento da situação, especialmente quanto ao impacto das futuras decisões sobre as exportações brasileiras e a dinâmica do mercado global de carne bovina.