Mesmo com ameaça de Trump, Brics visam avançar no uso de moedas locais

    Presidente dos EUA ameaçou os países membros do bloco com tarifas de 100% sobre as importações deles

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    Mesmo com ameaça de Trump, Brics visam avançar no uso de moedas locais
    24deFevereirode2025ás09:49

    Mesmo diante das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de 100% sobre as importações dos países do Brics caso busquem alternativas ao dólar, o bloco segue ampliando o uso de moedas locais para transações comerciais e investimentos.

    A medida, que já vinha sendo adotada entre alguns membros, será um dos focos da presidência rotativa do Brasil, que assumiu o comando do grupo em 1º de janeiro.

    O compromisso foi reafirmado na sexta-feira (21) pelo secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores, Mauricio Lyrio, durante coletiva de imprensa em Brasília.

    O diplomata, que atua como negociador-chefe do Brasil no BRICS, destacou que a ampliação do sistema de pagamentos em moedas locais será uma das prioridades do grupo ao longo de 2025.

    “O uso de moedas locais já é uma realidade no comércio bilateral entre vários membros do BRICS, e vamos continuar avançando nessa direção. Isso reduz custos e fortalece a integração financeira entre as economias emergentes”, afirmou Lyrio.

    O tema será debatido na próxima semana, nos dias 25 e 26 de fevereiro, em Brasília, durante a primeira reunião do ano entre os principais negociadores das 11 nações que compõem o Brics: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Irã.

    Moeda única do Brics

    Apesar das discussões sobre a ampliação do uso de moedas locais, Lyrio afastou a possibilidade de uma moeda única do Brics no curto prazo.

    Segundo ele, não há acordos entre os países para levar a ideia adiante, principalmente devido à complexidade do processo e às diferenças econômicas entre os integrantes.

    “Criar uma moeda comum não é algo simples. São economias grandes, com realidades distintas. O Brics tem outras formas de reduzir custos operacionais no comércio internacional. Isso faz parte da lógica do grupo”, explicou.

    As declarações vêm após as ameaças de Trump, que em dezembro de 2024 afirmou que aplicaria tarifas de 100% sobre importações dos países do Brics caso tentassem substituir o dólar nas transações internacionais. Em suas redes sociais, o presidente norte-americano reforçou a posição:

    "Exigimos que esses países se comprometam a não criar uma nova moeda do Brics, nem apoiar qualquer outra moeda que substitua o poderoso dólar americano. Caso contrário, sofrerão tarifas de 100% e perderão acesso ao mercado dos EUA", disse Trump na época.

    trump

    Mesmo com a pressão dos EUA, Lyrio afirmou que a decisão de não debater a moeda única não tem relação com as declarações de Trump.

    No entanto, ele admitiu que, em um horizonte mais distante, o tema pode ser levado para consideração dos chefes de Estado do BRICS.

    Prioridades do Brasil no Brics

    Além da ampliação do uso de moedas locais, o Brasil estabeleceu outras cinco prioridades para sua presidência no bloco, que serão discutidas ao longo do ano e na Cúpula de Chefes de Estado do BRICS, marcada para os dias 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro:

    • Cooperação na área de saúde

    • Financiamento de ações contra mudanças climáticas

    • Comércio, investimentos e finanças

    • Governança da inteligência artificial

    • Desenvolvimento institucional do Brics

    O encontro desta semana será aberto pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Palácio do Itamaraty, e poderá contar com um discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo dia do evento.

    Grupo de Agricultura inicia discussões

    Além das discussões econômicas, o Brasil também avançou em temas ligados ao agronegócio dentro do Brics.

    Na semana passada, o Grupo de Trabalho de Agricultura do bloco realizou sua primeira reunião do ano, coordenada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com a participação de representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério da Pesca e do Itamaraty.

     LuisRua_brics

    Durante coletiva realizada em Brasília, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Luís Rua, destacou a importância do Brasil nas discussões globais sobre produção sustentável e segurança alimentar.

    “A gente entende que este é um ano muito importante para o Brasil no cenário internacional, não só pela presidência do BRICS, mas também pela COP30, pela liderança do Mercosul e pelos encontros ministeriais de agricultura”, afirmou Rua.

    Os países do Brics representam cerca de 30% das terras agrícolas mundiais e são responsáveis por uma fatia significativa da produção global de grãos e proteínas. Em 2024, o Brasil exportou US$ 165 bilhões em produtos agropecuários, sendo 41% destinados aos países do bloco. 

    Entre os principais temas discutidos no Grupo de Trabalho de Agricultura, estão:

    • Segurança alimentar e nutricional

    • Produção agrícola sustentável

    • Acordos comerciais e infraestrutura

    • Uso de tecnologias de baixo carbono

    • Certificação eletrônica de produtos agropecuários

    A certificação eletrônica, por exemplo, tem sido tratada como uma prioridade do Brasil, pois permitirá agilizar a rastreabilidade dos produtos e garantir mais segurança nas transações comerciais.

    Além disso, o grupo também alinhou propostas para serem levadas à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que ocorrerá no Brasil em 2025.

    Entre os tópicos discutidos, destacam-se a degradação de pastagens e o fortalecimento de práticas agrícolas sustentáveis, como o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas em Sistemas de Produção Agropecuários e Florestas Sustentáveis (PNCPD).

     Brics reforça papel geopolítico e desafia hegemonia do Ocidente

    Atualmente, o Brics reúne economias emergentes que buscam ampliar sua influência global e reformar instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, para dar mais voz às nações em desenvolvimento.

    Com 50% da população mundial e cerca de 25% do PIB global, o bloco se tornou um contraponto às potências ocidentais, defendendo um modelo de governança mais inclusivo e multilateral.

    A presidência do Brics pelo Brasil em 2025 terá como lema "Cooperando para um mundo inclusivo e sustentável", reforçando o compromisso do bloco com políticas que promovam o desenvolvimento econômico e social dos países-membros.

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