Fazendeiro-filósofo domina mercado de tomates da África do Sul com princípios de Aristóteles
Reflexão definiu "quatro pontos cardeais" que direcionam a operação, a expansão e o legado do grupo secular

No coração da província de Limpopo, na África do Sul, um fazendeiro-filósofo sugere um novo entendimento sobre o agronegócio com princípios baseados em Aristóteles.
Tommie van Zyl, CEO da ZZ2, comanda uma das maiores produtoras de tomates, abacates e frutas em geral do país.
Aplicando conceitos filosóficos que combinam agricultura sustentável, liberalismo econômico e filosofia clássica, o executivo conduz o grupo controlado por dois trustes familiares cuja origem remonta há mais de 300 anos.
Em 1697, seu ancestral Willem van Zyl chegou ao país como empregado da Companhia Holandesa das Índias Orientais antes de começar a cultivar em sua própria fazenda em Franschhoek em 1702.
Os descendentes viajaram para o norte, passando por várias regiões, até se fixarem na localização atual em 1904. A empresa, fundada formalmente em 1965, é hoje um império agrícola, com quase 5 mil hectares irrigados.
A produção anual chega a 230 mil toneladas de variadas frutas. Cerca de 160 mil toneladas são apenas de tomates, fazendo da ZZ2 a única empresa capaz de abastecer o mercado sul-africano durante todo o ano.

O sucesso não se deve apenas à escala, mas sobretudo à filosofia de negócio adotada. Van Zyl defende uma prática agrícola denominada "Natuurboerdery", que significa "agricultura amigável com a natureza".
O objetivo é reduzir ao máximo o impacto ambiental, substituindo fertilizantes químicos por insumos biológicos como compostos naturais e defensivos químicos por extratos fermentados de plantas.
Apesar de não serem totalmente orgânicos devido à escala, a sustentabilidade é um princípio essencial.
"Buscamos harmonia com a natureza, aprendendo com ecossistemas como o Parque Nacional Kruger ou a floresta de Bos Dorp, onde existe uma perfeita homeostase entre as espécies", explica van Zyl.
Aristotélico
O segredo, contudo, vai além da sustentabilidade. A ZZ2 aplica diretamente em sua gestão a teoria das "quatro causas" de Aristóteles.
O filósofo grego, no ano 399 a.C., propôs que para entender e gerir sistemas complexos deve-se identificar claramente suas causas finais, formais, eficientes e materiais.
Van Zyl explica que na ZZ2, a "causa final" – o objetivo maior – é o consumidor. "Tudo gira em torno do cliente. Essa clareza alinha toda a equipe na mesma direção".
Já a "causa formal" diz respeito à estrutura do negócio: processos, padrões e estratégias que dão forma à empresa. "Chamamos isso de 'supra sistema', que dá sentido a tudo que fazemos".
As causas "eficientes e materiais" envolvem os processos e recursos físicos da produção agrícola – as frutas, as sementes, as embalagens e as atividades práticas. "Depois de estruturado nosso sistema superior, focamos na eficiência e no material. Daí nasce nossa estratégia real", completa o executivo.
Este modelo filosófico de negócios também é sustentado por teorias econômicas clássicas do liberalismo.
Van Zyl cita frequentemente Adam Smith e Friedrich Hayek, destacando a eficiência do mercado sul-africano na descoberta de preços, comparando-o a uma visão idealizada desses economistas.
"Nossa estrutura de mercado é quase perfeita, o que nos torna extremamente eficientes", diz.
Além disso, Van Zyl alerta para o perigo das ações sem consequências, referindo-se ao economista Thomas Sowell. "Se você não pagar pelas consequências das suas ações, torna-se perigoso. Nós entendemos isso claramente. Se erramos, nossa reputação sofre e perdemos rentabilidade", afirma.
Filosofia no cotidiano
Como bom pensador, Tommie fomentou um processo interno de definição dos pontos cardeais da ZZ2 com envolvimento de toda a equipe. A reflexão sobre os propósitos, valores, operações, padrões éticos e de conduta resultaram em quatro deles.
Para o Norte, a equipe definiu a Fortitude, que quer dizer elevado valor moral, para o Leste firmou a Justiça, para o Sul, a Prudência, e para o Oeste, a Temperança. “Essa é a nossa bússola ou Rosa dos Ventos que direciona nossas ações”, resume.
A síntese obtida por meio da reflexão coletiva está plasmada na sede da ZZ2, localizada na fazenda Boekenhoutbult em Mooketsi, com uma homenagem ao maior expoente da história recente da África do Sul.
Uma estátua de Nelson Mandela simboliza tais virtudes cardeais adotadas pela empresa.

"Nelson Mandela inspira nossa gestão afirmativa, positiva e capacitadora. Ele personifica virtudes essenciais para uma sociedade organizada e civilizada, exatamente o que buscamos na ZZ2", destaca o CEO.
Segundo ele, essas virtudes cardeais são traduzidas em ações concretas como respeito, dignidade e oportunidades iguais para todos os funcionários, mais de 10 mil ao todo, fazendo da ZZ2 uma das maiores empregadoras de Limpopo, atrás apenas das mineradoras.
Expansão internacional
A expansão internacional é o próximo passo. Além de mercados tradicionais na Europa e na própria África, a ZZ2 agora busca expandir negócios na China, Índia e Estados Unidos. No entanto, apesar da modernização e expansão, a filosofia aristotélica continuará sendo o pilar da estratégia da ZZ2.
"Nós acreditamos em criar nosso futuro com sabedoria e prudência, respeitando nossos valores fundamentais e sempre honrando nosso compromisso com a sustentabilidade e com a comunidade", afirma Van Zyl.
A empresa cultiva atualmente 1.973 hectares de abacates, 1.961 hectares de tomates, 252 hectares de mangas e lichias, 203 hectares de maçãs e peras, 200 hectares de cebolas, 135 hectares de frutas cítricas, 127 hectares de tâmaras Medjool, 93 hectares de amêndoas e 52 hectares de cerejas.
Ainda assim, empresa utiliza apenas 15% de suas terras para agricultura intensiva. Os demais 85% são destinados à preservação ambiental e pastagens naturais.
"Trata-se realmente de tentar cultivar em harmonia com a natureza, causando o mínimo de danos possível ao meio ambiente e para as futuras gerações”, finaliza.
