Com dívida bilionária, Lavoro anuncia acordo de recuperação extrajudicial com credores
Controlada pela Pátria Investimentos, rede já teria concordância de gigantes como BASF, FMC, UPL Brasil, EuroChem e Ourofino

A Lavoro anunciou no início da tarde desta quarta-feira (dia 18) um acordo de recuperação extrajudicial (RE) no valor de R$ 2,5 bilhões com seus principais fornecedores no Brasil.
Uma das maiores distribuidora de insumos agrícolas da América Latina, a rede da Pátria Investimentos seguiu caminho similar a outras do segmento, como a Agrogalaxy e a Portal Agro, mas com o anúncio na estadunidense Nasdaq, onde está listada.
O plano também foi protocolado no Tribunal de Recuperações Judiciais de São Paulo e, uma vez homologado, terá efeito vinculante para todos os fornecedores de insumos da Lavoro Agro Holding.
Na prática, é uma manobra para estabilizar a operação brasileira e garantir previsibilidade à cadeia de suprimentos, que já era esperada por muitos analistas do mercado há meses.
O movimento, assim, é uma resposta direta à crise de liquidez, excesso de estoques e disrupção no fornecimento que afetaram duramente a companhia desde o segundo semestre de 2024.
O acordo, negociado fora do âmbito judicial tradicional, prevê a extensão dos prazos de pagamento, padronização das regras de financiamento de estoques e, principalmente, a garantia de fornecimento de produtos por vários anos.
Segundo a empresa, entre 30% e 40% dos credores já estariam alinhados com o acordo.
“O acordo reflete a confiança construída com nossos parceiros estratégicos. Ele não só resolve o problema imediato de disponibilidade de produtos, como também dá previsibilidade operacional para o futuro”, afirma Ruy Cunha, CEO global da Lavoro.
Para ele, a extensão dos prazos de pagamento permitirá readequar a estrutura de custos e fortalecer a companhia como um negócio mais enxuto, ágil e resiliente.
Entre os fornecedores que aderiram ao plano estariam gigantes do setor como BASF, FMC, UPL Brasil, EuroChem e Ourofino, que agora atuam como âncoras no processo de reorganização.
Negociações com outros fornecedores estão em fase avançada, embora não tenham sido finalizadas a tempo da submissão do primeiro documento.
O acordo não envolve bancos, instituições financeiras, fornecedores de serviços ou funcionários. O plano se limita à operação brasileira da empresa, especificamente à divisão Lavoro Agro Holding S.A., que inclui também a subsidiária Perterra.
As operações na Colômbia, Uruguai, Equador e outras unidades da Latam Ag Retail não estão incluídas no processo.
Detalhes do acordo
O plano prevê o parcelamento das dívidas comerciais existentes até o exercício fiscal de 2025, com prazos que variam de dois a cinco anos, dependendo do perfil de cada fornecedor.
As condições incluem:
- - Credores gerais: pagamento integral, com correção pelo IPCA. Até 10% da dívida poderá ser quitada com produtos já estocados. O restante será pago em 10 parcelas semestrais entre setembro de 2025 e abril de 2030.
- - Credores de sementes: pagamento integral, com cinco parcelas semestrais de outubro de 2025 a setembro de 2027.
- - Credores especiais: recebem 100% da dívida, com até 20% quitados via entrega de produtos em estoque (ou até 40% no caso de dívidas em dólar). O restante será pago em oito parcelas semestrais até abril de 2029.
- - Pequenos credores: quitação à vista até o limite de R$ 50 mil.
- - Credores não aderentes: receberão 50% do valor da dívida em junho de 2032, com correção pelo IPCA.
Além do parcelamento, o acordo estabelece um contrato de fornecimento e financiamento de estoques com validade plurianual, criando uma base padronizada para evitar choques futuros de crédito na cadeia de distribuição.
Histórico do colapso
O colapso começou no ciclo 2023/24, quando uma combinação de fatores atingiu o setor agro: queda acentuada nos preços das commodities, retração nos preços dos próprios insumos, forte seca em regiões produtivas do Brasil e aperto de crédito para os produtores.
Esse ambiente levou à compressão das margens das distribuidoras e à formação de estoques caros, comprados a preços elevados e desvalorizados rapidamente.
A crise foi agravada pela recuperação judicial de uma grande concorrente do setor, que gerou efeito dominó no mercado de financiamento de estoques.
Os efeitos já aparecem no balanço preliminar do segundo trimestre fiscal de 2025. A receita consolidada caiu 27%, para R$ 2,25 bilhões. A divisão Brasil Ag Retail foi a mais afetada, com queda de 30% na receita, que somou R$ 1,84 bilhão. O lucro bruto encolheu 28%, para R$ 366,9 milhões.
A margem bruta do Brasil Ag Retail despencou de 13,9% para 11,5%, refletindo o impacto direto da estratégia adotada: priorizar a manutenção do relacionamento com clientes, mesmo que isso significasse entregar produtos substitutos, muitas vezes mais caros, para honrar pedidos e preservar contratos.
Bom resultado no exterior
Por outro lado, o desempenho da operação internacional foi positivo. A unidade Latam Ag Retail, com forte presença na Colômbia, cresceu 4% em receita, chegando a R$ 287 milhões, com expansão de 480 pontos-base na margem, que atingiu 22,6%.
A divisão Crop Care, responsável por biológicos, fertilizantes especiais e defensivos genéricos, viu a receita cair 30%, para R$ 251 milhões. O lucro bruto desabou 53%, reflexo de dois problemas: incertezas regulatórias no Brasil que afetaram o mercado de biológicos e o impacto do colapso da operação brasileira, que gerou cancelamento de pedidos internos.
Diante das incertezas, a Lavoro retirou oficialmente seu guidance financeiro para o ano fiscal 2025. A empresa reconhece que, até a homologação do plano, não há condições de fazer projeções confiáveis.
A expectativa da companhia é que, com o acordo validado, os efeitos sejam suficientes para não apenas recuperar as operações brasileiras, mas também consolidar um modelo mais resiliente.
"Mesmo compromisso"
Apesar do tom de crise, a Lavoro mantém sua estratégia de ser uma consolidadora regional no mercado de insumos agrícolas na América Latina. A empresa acredita que, superado o atual choque de liquidez, o mercado voltará a se concentrar nas mãos de players bem estruturados, capitalizados e com governança.
“Nosso compromisso permanece o mesmo: oferecer aos produtores acesso às melhores tecnologias agrícolas e aos melhores produtos, agora dentro de uma estrutura financeira mais sólida e previsível”, conclui Ruy Cunha.
