Café da "boca do vulcão" alcança até R$ 19 mil por saca
Produtor aposta em variedades raras, fermentações artesanais e sustentabilidade para conquistar mercados exigentes como Japão, EUA e Europa

Na borda de um antigo vulcão extinto há 80 milhões de anos, nasce um dos cafés mais premiados do Brasil.
A Fazenda Recreio, localizada no município de São Sebastião da Grama (SP), faz parte da chamada Região Vulcânica, um território de solo fértil e perfil sensorial único, que compreende oito municípios mineiros (Andradas, Bandeira do Sul, Botelhos, Cabo Verde, Caldas, Campestre, Ibitiúra de Minas e Poços de Caldas) e quatro paulistas: Águas da Prata, Caconde, Divinolândia e São Sebastião da Grama.
A propriedade, com 596 hectares, está na mesma família há mais de 130 anos. O primeiro pé de café foi plantado por Inês Bernardina da Silva Dias, tataravó de Diogo Dias Teixeira de Macedo, que hoje representa a quinta geração à frente do negócio.
Depois dela, a fazenda foi tocada pela bisavó, e mais tarde pelo avô Joaquim José, grande referência na vida de Diogo.
“Sempre passei as férias aqui com meu avô. Quando me formei em agronomia, em 2000, larguei São Paulo, onde morei 15 anos, e vim de vez. Comecei trabalhando com gado, mas depois me envolvi com o café. Quem começa a mexer com café, começa a buscar qualidade. Vira um vício bom”, conta.
Com 220 hectares de café 100% arábica, a Fazenda Recreio também aposta na diversificação: cultiva 8 hectares de oliveiras, 2 hectares de uva, tem áreas com eucalipto e mantém um rebanho com 32 cabeças de gado Angus.
Segundo Diogo, a ideia é retomar a pecuária aos poucos, como parte de uma estratégia de produção integrada. Entre as mais de 20 variedades da espécie Coffea arabica cultivadas na fazenda, estão bourbon amarelo, catucaí amarelo, arara, catiguá, topázio e o raro geisha, que ocupa apenas dois hectares. O restante da área é ocupado por florestas nativas, com 35% dedicados à preservação ambiental, acima do exigido por lei.
A topografia acidentada, no alto da cratera vulcânica, impede o uso pleno de máquinas e favorece o trabalho artesanal, especialmente nos lotes de cafés especiais.
“Aqui é tudo morro. A mecanização é limitada. E com cafés fermentados, seletivos, especiais, tem que ser na mão mesmo.”

O terroir vulcânico influencia diretamente o sabor da bebida, com grãos mais doces, notas chocolatadas e acidez equilibrada. A fazenda cultiva mais de 20 variedades, entre elas bourbon amarelo, catucaí amarelo, arara, topázio, catiguá e o raro geisha, que ocupa apenas dois hectares.
“O café que você está tomando é um catucaí amarelo com fermentação induzida. Dá uma doçura e suavidade que agrada quem gosta de café especial”, diz ele, com a xícara na mão, enquanto prepara o próprio café que plantou.
Nos últimos anos, Diogo também conduziu um trabalho cuidadoso de recuperação do solo e das áreas de preservação. Hoje, 35% da propriedade é dedicada à conservação ambiental — bem acima dos 20% exigidos por lei. A fazenda é considerada carbono negativo com base em um inventário completo feito pela Cooxupé, que mostrou que a Fazenda Recreio retém mais CO₂ do que emite.
“Essa área preservada cria um microclima que ajuda no controle de pragas como o bicho-mineiro, principalmente em períodos de calor. E a biodiversidade dentro da fazenda, com abelhas e outros polinizadores, melhora a produtividade, mesmo sendo o café uma planta autógama.”
Reconhecimento internacional e cafés premiados
Com manejo minucioso, fermentações induzidas e rastreabilidade total, a Fazenda Recreio virou referência no setor. Diogo já foi três vezes finalista do Cup of Excellence, o principal concurso de cafés do Brasil, e ficou em quarto lugar em duas edições consecutivas. Em um dos leilões internacionais, vendeu cinco sacas do raro geisha por R$ 19 mil cada.
O geisha, variedade de origem etíope, é conhecido pela complexidade sensorial e raridade. Na Fazenda Recreio, ocupa apenas dois hectares e passa por um processo rigoroso de colheita manual e fermentação induzida. Foi com um lote desse café que Diogo vendeu cinco sacas com destino ao Japão.
“O mercado de café especial cresce muito mais do que o tradicional. E o consumidor quer saber de onde vem o café, como é produzido, quem está por trás.”

A produção anual gira entre 5 mil e 6 mil sacas, com foco na qualidade e na venda de micro lotes. Cerca de 80% desse volume é exportado para mercados exigentes como Japão, Estados Unidos, Noruega, Itália e outros países europeus, por meio de um exportador parceiro.
“Trabalhamos muito com micro lotes, que vão direto para torrefações menores, com rastreabilidade e origem destacada. Quando vendem lá fora, falam que é café da Fazenda Recreio.”
A Fazenda Recreio integra o programa Gerações, da Cooxupé, e foi uma das primeiras selecionadas para o projeto-piloto do Yara Climate Choice™ — fertilizantes nitrogenados de baixa pegada de carbono.
Alerta com os Estados Unidos: “momento de apreensão”
Apesar da boa fase, Diogo acompanha com atenção a movimentação do mercado internacional. Os Estados Unidos são um dos principais compradores do seu café, e a recente tarifa de 50% imposta às importações brasileiras gerou incertezas.
“Já chegou sinalização do exportador de que os americanos deram uma segurada. Não estão fazendo novas compras. É um momento de apreensão. Do jeito que colocaram 50%, podem colocar 100% ou tirar tudo de uma hora para outra.”
Ainda assim, ele aposta na força da demanda global e no surgimento de novos mercados.
“A China e a Índia são o futuro. Se cada um tomar uma xícara por dia, não tem café no mundo que dê conta.”
Visitas internacionais e contratos com vista para o café
Além dos grãos, o que impressiona quem visita a Fazenda Recreio é a vista. Do alto do mirante, é possível ver as lavouras de café recortando as encostas da cratera vulcânica. O lugar virou ponto de contemplação — e também de negócios.
“O pessoal vem do Japão, dos Estados Unidos... querem ver de perto como a gente cuida do café. Aí sobem aqui no mirante, tomam um café e depois assinam o contrato com essa vista”, diz Diogo, sorrindo, com o pôr do sol ao fundo.

Juliana Mello e Flavio Mello: um casal, uma paixão pelo café
Assim como a Fazenda Recreio, a história da Fazenda Nova Aliança, em Monte Santo de Minas (MG), também é marcada por tradição, amor à terra e um olhar firme para o futuro. Lá vivem o casal Juliana e Flavio Mello. A propriedade está na família de Juliana desde o bisavô, com raízes que remontam a 1880, quando os primeiros pés de café foram plantados.
A casa onde vivem hoje foi construída em 1914 e preserva traços históricos, como afrescos pintados por um artista italiano e uma janela especial que, segundo Juliana, “nunca se fecha”.
“A minha avó sempre dizia que a janela da casa não podia ser fechada, porque a fazenda tinha que estar sempre aberta”, explica Juliana. Essa janela se tornou uma metáfora viva para o casal: a ligação com a tradição e a abertura constante para o que vem pela frente, uma imagem perfeita para o café brasileiro, sempre aberto ao mundo.

Juliana, advogada de formação, morava em Campinas, mas decidiu mudar-se para a fazenda durante a pandemia ao lado do marido Flavio. “Dizia que nunca mexeria com café nem casaria com um agrônomo. Hoje, vivo disso”, revela. Enquanto ela cuida da gestão e dos recursos humanos, suas filhas são responsáveis pelo marketing e pela exportação, e Flávio se dedica à produção e à parte técnica da fazenda.
“Meu sogro tinha 400 alqueires e colhia 5 mil sacas. Hoje, com 100 alqueires, colhemos 10 mil. Produzimos até cinco vezes mais com menos terra”, conta Flávio, mostrando como a produção foi otimizada ao longo do tempo.

A Fazenda Nova Aliança, localizada em Monte Santo de Minas (MG), é uma propriedade familiar com forte compromisso com a sustentabilidade e a preservação ambiental. Ela também faz parte do projeto piloto da Yara.
Com uma área total de 237,16 hectares, dos quais 150 hectares são cultivados com café, a fazenda mantém nove nascentes e uma área de reserva legal. Além disso, 12 alqueires são dedicados exclusivamente à preservação, com o objetivo de transformá-los em um parque natural.
O uso de agroquímicos é mínimo, sendo substituído por extratos naturais como alho, tomilho, melaleuca e óleo de nim. Toda a propriedade conta com fossas sépticas, energia solar e coleta seletiva.
A fazenda participa do projeto “Paisagens Sustentáveis” em parceria com a empresa alemã Tibo, além das certificações Rainforest Alliance e Certifica Minas.
Juliana promove ainda ações educativas para crianças, adolescentes e universitários. Em 2023, a fazenda recebeu cerca de 700 visitantes em atividades pedagógicas focadas em agricultura, meio ambiente e sustentabilidade. “Se a escola não mostra, a fazenda mostra”, afirma.
No campo da exportação, a Fazenda Nova Aliança já vende café diretamente há 12 anos para países como Irlanda, Inglaterra e Nova Zelândia, sem intermediários. “A embalagem com o nome ‘Fazenda Nova Aliança’ foi o nosso troféu. Nosso diploma”, orgulha-se Juliana. A Espanha deve ser o próximo destino do café do casal.
O café passou a levar o nome da fazenda nas embalagens, um reconhecimento pela qualidade. “Sem qualidade, eles nem viriam aqui. E manter a qualidade é o maior desafio”, destaca. A fazenda exporta cerca de 30% da produção, mas tem potencial para chegar a 50%.

Flavio destaca o cuidado com a produção. “Produzir com menor pegada de carbono e ainda manter qualidade e produtividade é um diferencial competitivo. Isso vai ser exigência de mercado.”
O casal vê nas exigências da União Europeia uma chance, não uma ameaça. “A União Europeia, com aquele medo que gerou para todo mundo, foi uma grande oportunidade de negócio para quem faz direito”, comenta Juliana.
Para Flavio, o trabalho vai além da agricultura tradicional. “A agricultura, quando só pensa em produzir, também estafa. Como a gente.” Ele reforça que o uso consciente de insumos faz parte do compromisso: “Adubar é necessário. Então escolho o que me ajuda e impacta menos. Esse fertilizante protege a terra e mantém a qualidade do grão.”
Flavio é clara ao falar dos desafios: “A dificuldade não é o Lula nem o Bolsa Família. Às vezes, o culpado somos nós, que deixamos de fazer alguma coisa.”
Por fim, a história do casal e da fazenda está aberta ao mundo, como aquela janela que “nunca se fecha”, um convite para que o café brasileiro continue conquistando paladares e mercados com qualidade, respeito à terra e compromisso com o futuro.
