Tensão entre Lula e Milei marca cúpula do Mercosul

    Diferenças sobre Venezuela, futuro do bloco e acordo com a União Europeia dominaram o encontro em Foz do Iguaçu

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    Tensão entre Lula e Milei marca cúpula do Mercosul
    22deDezembrode2025ás10:41

    A 67ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, realizada neste final de semana em Foz do Iguaçu (PR), foi marcada por um ambiente político tenso entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o argentino, Javier Milei, os principais líderes do bloco. 

    Imagens e relatos internos destacaram um cumprimento rápido, sem sorrisos e com visível distanciamento físico, registrado nas fotos oficiais da cúpula, reforçando um clima de frieza e descompasso político entre os dois governantes.

    O clima já estava azedo antes mesmo do encontro. Na última semana, Milei publicou uma ilustração comparando o Brasil e vizinhos a uma “grande favela”, salvando apenas a Argentina como área futurista.

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    As diferenças de visão ocorrem principalmente sobre temas delicados como Venezuela, com a pressão cada vez maior dos Estados Unidos pela renúncia do presidente Nicolás Maduro, tido pelo presidente Donald Trump como líder de uma facção narcoterrorista. 

    Lula alertou para os riscos de uma intervenção externa na região, com resultados imprevisíveis, que poderiam resultar, segundo ele, numa “catástrofe humanitária" para o Hemisfério Sul, com ameaça militar contra a soberania”.

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    Milei, na contramão, usou a palavra para agradecer e endossar a pressão militar dos Estados Unidos contra o governo do ditador Nicolás Maduro.

    As falas se dão no âmbito da escalada militar de Washington nos mares do Caribe e do Pacífico, onde bombardeios a embarcações suspeitas de narcotráfico resultaram em aproximadamente 100 mortes. Trump já disse em mais de uma ocasião que não descarta uma intervenção militar terrestre.

    Críticas ao Mercosul

    O argentino também não poupou duras críticas ao próprio Mercosul durante a sessão plenária, afirmando que a união aduaneira não atingiu seus objetivos centrais, citando falta de livre circulação efetiva, coordenação normativa e avanços no comércio interno.

    Para ele, o Mercosul é um “sistema travado pela burocracia”.

    Na linha Donald Trump em desacreditar do multilateralismo, Milei defendeu que haja flexibilidade para que cada Estado negocie acordos bilaterais fora do bloco, que classificou como “monolítico”. 

    O único ponto de convergência entre Lula e Milei se deu com as falas acerca da lentidão e hesitação em negociações com parceiros como a União Europeia.

    A frustração em torno da não assinatura do tão esperado acordo de livre comércio com a União Europeia (UE) esteve presente, aliás, nas falas de todos os presidentes.

    Embora ainda exista a expectativa de que o pacto seja finalizado em janeiro de 2026, as negociações recentes expuseram divisões internas no bloco europeu e dificuldades diplomáticas que complicam o futuro da parceria comercial.

    Frustração com o acordo Mercosul-UE

    Grande parte das expectativas da cúpula estava voltada para a assinatura do acordo comercial com a União Europeia, que vinha sendo negociado por mais de 26 anos e foi considerado estrategicamente crucial para ampliar o acesso a um mercado de aproximadamente 780 milhões de consumidores e fortalecer laços comerciais.

    No entanto, a assinatura prevista para 20 de dezembro foi oficialmente adiada para janeiro de 2026, após a UE não obter o apoio necessário de seus 27 Estados-membros, especialmente França e Itália, e após protestos violentos de agricultores europeus tomarem as ruas de Bruxelas, revoltados com a concorrência de produtos sul-americanos.

    O adiamento, confirmado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, gerou frustração entre os líderes do Mercosul durante o encontro, que esperavam concluir o acordo no encontro em Foz.

    O presidente Lula chegou a pedir aos líderes europeus “coragem política” para assinar o pacto e disse que a cúpula só estava acontecendo porque havia sinais iniciais de que a assinatura seria possível, algo que não se concretizou.

    Outros líderes regionais, como os presidentes do Uruguai (Yamandú Orsi) e do Paraguai (Santiago Peña), adotaram uma postura de “paciência construtiva”, enfatizando que embora o adiamento seja frustrante, o acordo continua sendo uma prioridade estratégica e que não deve ser renegociado em seus termos atuais, sob pena de perder coerência frente ao trabalho acumulado ao longo de anos de diálogos.

     

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