Como foi o encontro entre Lula e Javier Milei na Cúpula do Mercosul?
Presidente brasileiro assume liderança do bloco defendendo integração regional
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O encontro presencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei foi protocolar. Nesta quinta-feira (3), durante a 66ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em Buenos Aires, os presidentes do Brasil e da Argentina se cumprimentaram de forma fria e seguiram caminhos opostos — tanto no gesto quanto nas palavras.
Esta é a primeira vez que Lula pisa em solo argentino desde que Milei assumiu a presidência, em dezembro de 2023. Embora o protocolo do bloco preveja reuniões bilaterais entre os chefes de Estado, não houve qualquer encontro reservado entre os dois líderes.
Lula, inclusive, manteve agenda apenas com Cristina Kirchner, ex-presidente e opositora declarada de Milei.
Ela está em prisão domiciliar, em Buenos Aires, condenada por corrupção. Kirchner nega as acusações e diz ser vítima de perseguição política
O distanciamento entre Lula e Milei confirma o desgaste iniciado ainda durante a campanha presidencial argentina, quando Milei atacou Lula e o PT, e foi agravado após a visita do argentino ao Brasil em 2024 — ocasião em que se encontrou exclusivamente com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Em contrapartida, no ano passado, Lula se reuniu com o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof — ex-ministro de Cristina Kirchner e um dos principais opositores de Milei.
O presidente argentino ainda é ligado a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e que sofre algumas críticas de Lula.
A tensão se refletiu nos discursos. Milei voltou a criticar o Mercosul, classificando o bloco como uma “cortina de ferro” que sufoca a liberdade comercial dos países-membros. Lula, por sua vez, rebateu defendendo o Mercosul como uma proteção estratégica diante de um mundo instável e polarizado.
Visões opostas sobre o Mercosul
Milei afirmou que o Mercosul impõe restrições que prejudicam a competitividade dos países-membros, impedindo-os de firmar acordos bilaterais com outras nações.
“A barreira que levantamos para nos proteger comercialmente em um momento que considerávamos valioso terminou por nos excluir do comércio e da competição globais e acabou castigando nossas populações com bens piores e serviços a preços piores”, declarou.
Ele ainda criticou o caminho trilhado pelo bloco desde sua criação. “Se o Mercosul foi criado com a intenção nobre de integrar as economias da região, em algum momento esse norte foi afundando e a ação comercial conjunta terminou por prejudicar a maioria dos nossos cidadãos em prol de privilegiar alguns setores.”
Em resposta direta, Lula defendeu o Mercosul como ferramenta de proteção coletiva.
“Toda a América do Sul se tornou uma área de livre comércio baseada em regras claras e equilibradas. Estar no Mercosul nos protege. Nossa tarifa externa comum nos blinda de guerras comerciais alheias. Nossa robustez institucional nos credencia perante o mundo com parceiros confiáveis”, disse o presidente brasileiro.

Brasil assume liderança com foco em integração
Durante a cúpula, Lula assumiu oficialmente a presidência rotativa do bloco e apresentou cinco prioridades para o mandato brasileiro no segundo semestre:
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Fortalecer o comércio intra e extrabloco;
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Enfrentar as mudanças climáticas e promover a transição energética;
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Avançar no desenvolvimento tecnológico;
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Combater o crime organizado;
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Promover os direitos dos cidadãos do Mercosul.
“A presidência brasileira representará uma oportunidade para refletir sobre o lugar que almejamos ocupar no novo tabuleiro global”, afirmou Lula.
Para ele, o Mercosul é um ponto de estabilidade diante da crescente instabilidade internacional. “Quando o mundo se mostra instável e ameaçador, é natural buscar refúgio onde nos sentimos seguros. Para o Brasil, o Mercosul é esse lugar.”
Negociações comerciais em foco
Entre as iniciativas já em curso, Lula destacou o avanço nas negociações com novos parceiros e a consolidação de acordos estratégicos. Nesta semana, foi concluído o acordo comercial entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), formada por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça.
O presidente brasileiro reiterou o compromisso de finalizar o acordo com a União Europeia, embora o processo siga travado por resistências de países como a França. Também estão no radar do bloco acordos com Canadá, Emirados Árabes Unidos, Panamá e República Dominicana, além da atualização de tratados com Colômbia e Equador.
Lula defendeu ainda uma aproximação mais firme com o mercado asiático.
“Nossa participação nas cadeias globais de valor se beneficiará de maior aproximação com Japão, China, Coreia, Índia, Vietnã e Indonésia”, afirmou. Ele também destacou a importância da infraestrutura logística, citando os projetos Rotas da Integração Sul-Americana e a Rota Bioceânica como fundamentais para o escoamento da produção regional.
Flexibilização da tarifa externa comum e retomada do Focem
Sob a presidência argentina, o bloco aprovou a ampliação das exceções à Tarifa Externa Comum (TEC), permitindo que mais produtos possam temporariamente ficar fora da alíquota unificada. A medida atende a um pedido da Argentina e amplia a capacidade de resposta do Mercosul a distorções no comércio internacional.
Na nova fase, o Brasil pretende relançar o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), instrumento solidário voltado ao financiamento de obras e projetos de desenvolvimento regional.
Desde sua criação, o Focem já movimentou mais de US$ 1 bilhão, especialmente em investimentos na Argentina e no Paraguai.
Apoio às pequenas empresas e retomada de diálogo
Lula também defendeu a reativação do Fórum Empresarial do Mercosul e mais apoio a pequenas e médias empresas como forma de ampliar os benefícios da integração regional.
“Não se constrói prosperidade apenas com grandes negócios”, afirmou.
Apesar da frieza no protocolo e da evidente distância política entre os presidentes do Brasil e da Argentina, a cúpula do Mercosul deixou claro que, com todos os seus impasses, o bloco segue sendo uma arena decisiva para a disputa de projetos na América do Sul.