Como o agro brasileiro sai ganhando após o acordo União Europeia-Mercosul?  

    Café, carne de aves, etanol e açúcar apresentam o maior potencial de ganho com o acordo de comércio entre Mercosul e União Europeia 

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    Como o agro brasileiro sai ganhando após o acordo União Europeia-Mercosul?  
    19deJaneirode2026ás10:38
    O agronegócio brasileiro tem motivos para olhar para o futuro com mais otimismo. O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), assinado em 17 de janeiro no Paraguai após mais de 25 anos de negociações, abre um caminho promissor para a entrada de produtos brasileiros no mercado europeu, com impacto direto em exportações, competitividade e diversificação da pauta agrícola. 

    O tratado, que ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos dos países envolvidos, prevê a eliminação de tarifas sobre aproximadamente 92% das exportações do Mercosul para a UE ao longo dos próximos anos, com cronogramas de redução que variam de imediatamente para até dez anos, de acordo com o tipo de produto.
     

    Isso se traduz em aproximadamente 5 mil itens com acesso preferencial ao mercado europeu, a maioria com tarifas zeradas a partir do início de sua vigência, contabilizou a Confederação Nacional da Indústria (CNI).  

    Em outras palavras, é esperado que 77% dos itens agropecuários exportados tenhas as barreiras tarifárias zeradas quando o acordo estiver em pleno funcionamento.

    Especialistas avaliam, contudo, que o texto atual deve trazer algum desequilíbrio entre setores produtivos. Enquanto os sul-americanos ganham espaço para escoar principalmente produtos agrícolas, a Europa sai beneficiada com a redução de impostos para bens industriais, como máquinas, automóveis, produtos químicos e farmacêuticos, o que deve pressionar o mercado interno desses itens. 

    No geral o acordo forma o maior bloco de livre comércio do mundo, com mais de 700 milhões de pessoas e um mercado de US$ 22 trilhões, ou seja, 20% do Produto interno Bruto (PIB) global.  

    Tarifas e cotas: acesso facilitado a produtos-chave 

    Para o agro do Mercosul (especialmente o brasileiro), um dos maiores ganhos está justamente na redução ou eliminação de tarifas de importação que historicamente penalizam o comércio com o bloco europeu. Produtos tradicionais e estrategicamente importantes ganham condições especiais: 

    • Carnes bovina e de frango terão acesso por meio de cotas com tarifas reduzidas ou zeradas, como 99 mil toneladas de carne bovina (com tarifa de 7,5% no mercado europeu) e 180 mil toneladas de frango com tarifa zero dentro da cota prevista até 2031;   
    • Frutas tropicais, como uva de mesa, abacate, limão, melão e melancia, terão tarifa eliminada gradualmente ou imediatamente, dependendo do produto; 
    • Café brasileiro também terá eliminação gradativa de tarifas em um prazo mínimo de quatro anos, cobrindo café verde, torrado e solúvel;   
    • Outros grãos e bebidas agrícolas como milho, sorgo, açúcar e etanol ganharão cotas tarifárias crescentes com alíquota zero, expandindo a capacidade exportadora nesses mercados;  
    • Nada muda para a soja, o produto brasileiro mais vendido à Europa, que já entra no mercado do bloco com tarifa zerada.   

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    Números e contexto econômico 

    A União Europeia tem grande relevância para o agro brasileiro: em 2025, o bloco respondeu por quase 15% das exportações agrícolas do país (14,9%), somando US$ 25,2 bilhões em embarques, o que representa o segundo maior destino do agronegócio brasileiro no mundo, ficando atrás só da China.  

    O acordo amplia o acesso do Brasil ao comércio global de bens de cerca de 8% para 36%, um salto expressivo. Hoje, estima-se que 54,3% dos produtos comercializados entre Mercosul e a UE terão tarifas zeradas imediatamente, enquanto a redução tarifária para o restante ocorrerá de forma escalonada ao longo de até 12 anos em algumas linhas.  

    Esse novo ambiente de comércio favorece a competitividade dos produtos brasileiros, ao reduzir custos logísticos e tarifários e aumentar o apetite por itens tropicais, grãos e alimentos processados com alto valor agregado no mercado europeu, compensando, em parte, a volatilidade e barreiras que setores como carnes e café enfrentavam em anos recentes. 

    O que vem pela frente 

    O acordo ainda precisa passar por processos de ratificação nos parlamentos europeus e nos países do Mercosul, uma etapa que pode levar semanas ou meses até que o texto entre em vigor oficialmente.  

    Também há preocupações em alguns setores europeus, especialmente de pequenos produtores que temem competição direta com produtos sul-americanos.  

    No entanto, do ponto de vista do Brasil, a expectativa é que o acordo funcione como um instrumento de longo prazo para atrair investimentos, ampliar exportações e consolidar o país como fornecedor global de alimentos e insumos agrícolas, sem perder de vista normas sanitárias rígidas que regem o comércio com a UE. 

    É sempre bom lembrar que o acordo inclui um mecanismo bilateral de salvaguarda agrícola, o que permite à União Europeia suspender tarifas preferenciais temporariamente, por meio de investigações sobre produtos tidos como sensíveis (como o caso da pecuária francesa), se as importações forem consideradas prejudiciais para os produtores locais, o que pode inviabilizar os ganhos previstos. 

    Para fechar o acordo, a União Europeia teve de ceder e prometeu reduzir tarifas de fertilizantes, diminuindo custos para seus produtores.  

    O livre comércio poderá beneficiar setores industriais europeus e permitir ao bloco diminuir a dependência da China e dos Estados Unidos, além de impulsionar exportações de veículos, máquinas, produtos químicos, queijos e vinhos para o Mercosul. 

    Para o mercado brasileiro  

    Já do lado do Mercosul, o Brasil terá prazos mais longos, entre 10 e 15 anos, para reduzir tarifas de 4,4 mil itens oriundos da União Europeia. As taxas serão imediatamente zeradas apenas para 15,1% das atuais importações com origem na União Europeia, diz a CNI. 

    Além de máquinas e demais bens industrializados, o mercado consumidor brasileiro deverá sentir alguma diferença especialmente em produtos da linha premium, como vinhos, pescados, azeites e queijos, que passam a chegar nas prateleiras brasileiras com tarifas menores ou zeradas.  

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