Syngenta aposta na gestão digital e traz ao Brasil plataforma que integra dados da lavoura
Cropwise Operations conecta planejamento e execução no campo e transforma operações agrícolas em dados para apoiar decisões em tempo real

O problema do produtor nem sempre está no planejamento da safra, mas no que acontece quando a operação começa no campo. É nesse ponto que a Syngenta aposta ao lançar no Brasil uma plataforma digital que integra dados da lavoura e monitora a execução em tempo real para reduzir desperdícios invisíveis.
“O problema hoje não é falta de tecnologia, é que os dados não se conversam”, afirma Bruno Müller, diretor de agricultura digital da Syngenta no Brasil.
"O investimento em tecnologia é pequeno perto do restante da lavoura e pode eliminar excessos que o produtor não enxerga”, afirma André Piza, responsável global por agtech na empresa. “O produtor investe pesado em insumos, combustível e operação. Se conseguir ajustar esses excessos, o impacto na margem é direto.”
Para Piza, o setor entra em uma nova fase, em que o uso de dados passa a orientar decisões dentro da lavoura.
“Estamos entrando em uma era de agricultura de tomada de decisão”, afirma.
Em outra frente, o executivo destaca o papel da inteligência artificial nesse avanço. “A IA deve democratizar a tecnologia no campo.”
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Execução vira novo gargalo da lavoura
A aposta da empresa se materializa no lançamento do Cropwise Operations no Brasil, nova ferramenta da plataforma Cropwise, que passa a integrar e organizar dados de diferentes soluções digitais já oferecidas pela companhia.
Hoje, a plataforma reúne cinco ferramentas no país e passa a incorporar uma sexta funcionalidade, voltada especificamente à gestão da operação dentro da fazenda.
A proposta é resolver um problema comum: o descolamento entre o que foi planejado e o que efetivamente acontece no campo.
“O produtor investe muito tempo no planejamento da safra, mas o desafio real começa quando as máquinas entram em movimento”, afirma Gustavo Ferreira, gerente de operações da Syngenta Digital.
Plataforma conecta planejamento, execução e análise
Diferente de sistemas isolados, o Cropwise Operations atua como uma camada operacional dentro da plataforma Cropwise, conectando planejamento, execução e análise em um único ambiente.
Na prática, o sistema transforma a execução da lavoura em informações acessíveis, permitindo que o produtor acompanhe, em tempo real, o que está acontecendo no campo — e não apenas o que foi planejado.
Com isso, os custos deixam de ser estimados e passam a ser compreendidos no nível em que realmente ocorrem. “O foco é o dia a dia da operação. É o que está acontecendo no campo”, afirma Müller.
Segundo ele, o sistema integra dados de telemetria independentemente da marca do maquinário, reunindo informações em um único ambiente.
A proposta é concentrar essas informações em um único sistema. “A gente quer que o produtor consiga fazer toda a gestão da lavoura dentro de uma só plataforma, sem precisar trabalhar com vários sistemas separados”, diz.
IA entra para apoiar decisões em tempo real
A ferramenta também incorpora inteligência artificial para apoiar decisões operacionais durante a safra, combinando dados da lavoura com modelos agronômicos para orientar a execução em campo.
Em situações como mudanças climáticas, por exemplo, o sistema pode sugerir ajustes no cronograma das atividades. Se uma chuva interrompe uma aplicação, a tecnologia recalcula a melhor sequência de operações, com base nas prioridades da fazenda.
“A ideia é usar esses dados para gerar recomendações cada vez mais assertivas para a realidade de cada fazenda”, afirma Müller.
A abordagem da empresa, segundo Piza, combina IA generativa com modelos baseados em mais de duas décadas de dados agronômicos, priorizando precisão nas recomendações.
Tecnologia como ferramenta para cortar custos
Em um cenário de safra mais apertada, a empresa aposta na tecnologia como instrumento de eficiência.
“O investimento em tecnologia é pequeno perto do restante da lavoura e pode eliminar excessos que o produtor não enxerga”, reforça Piza.
Segundo Müller, o desafio é mostrar esse retorno na prática. “No agro, é difícil só vender tecnologia. Se não tiver resultado claro, a chance do produtor deixar de usar a tecnologia é grande”, afirma.
Uso global e chegada ao Brasil
O Cropwise Operations é um produto consolidado globalmente, com cerca de 50 milhões de hectares monitorados, 30 mil máquinas conectadas e milhões de alertas operacionais gerados por safra.
A tecnologia já é utilizada fora do Brasil há cerca de dez anos e, segundo a empresa é aplicada pelo governo da Ucrânia para mapear áreas agrícolas, em um modelo semelhante ao da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aqui no Brasil.
Atualmente, as soluções digitais da Syngenta monitoram cerca de 76 milhões de hectares no mundo, sendo 14,8 milhões no Brasil. A meta é atingir 100 milhões até 2030.
No Brasil, a introdução da ferramenta será feita de forma gradual, com início no Mato Grosso e expansão prevista para outras regiões ao longo de 2026.
Neste primeiro momento, a tecnologia será disponibilizada para um grupo selecionado de clientes e ainda passa por testes para adaptação às condições do campo brasileiro.
A expectativa é que a solução esteja plenamente disponível para uso comercial na safra 2026/27.
No país, a empresa pretende atender principalmente produtores de grãos e cana-de-açúcar, mas também culturas como algodão, citros, florestas, café e tabaco. A adoção, neste momento, está concentrada em propriedades de maior escala, com média de cerca de dois mil hectares.
Adoção ainda enfrenta desafios
Apesar do avanço, a digitalização no campo ainda esbarra em gargalos no Brasil como conectividade em áreas rurais e a complexidade da gestão operacional.
Segundo Piza, a limitação de acesso à internet ainda restringe o uso pleno dessas soluções. “A operação da fazenda é complexa e as ferramentas também acabam sendo. Isso exige adaptação por parte do produtor”, afirma.
“O desafio não é mais digitalizar, mas integrar tudo para decidir melhor e mais rápido”, conclui Müller.
