Às vésperas do centenário, Baldan prepara nova fase de expansão
Empresa de máquinas e implementos agrícolas de Matão (SP) aposta em diversificação, portfólio e presença internacional para sustentar crescimento

“Somos guiados por um planejamento estratégico com visão de cinco anos.", diz Fernando Capra, CEO da empresa.
Às vésperas de completar um século de atuação, a Baldan, com seus 98 anos, ajusta sua estratégia para atravessar um momento mais travado no mercado de máquinas agrícolas e preparar o próximo ciclo de crescimento.
Após já ter atingido faturamento de R$ 1,2 bilhão no pico recente, a companhia hoje opera na casa dos R$ 800 milhões (faturamento de 2025) e trabalha para retomar o patamar bilionário.
O cenário atual, marcado por juros elevados e crédito mais restrito, tem freado o investimento no campo.
“O produtor está inibido. Porque o momento tem proibido o produtor de fazer algum tipo de investimento”, afirmou Fernando Capra, CEO da empresa, lembrando dos jutos altos, crédito mais caro e momento geopolítico tenso e incerto.
Mesmo diante desse cenário, a empresa mantém um plano estruturado de crescimento.
“Somos guiados por um planejamento estratégico com visão de cinco anos. Esse plano define onde vamos atuar, como e com quais produtos”, disse o executivo, que sinalizou a possibilidade de entrada em novos segmentos e mirando novos mercados.
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Norte entra no radar com novo centro de distribuição
Um dos movimentos mais concretos em estudo é a expansão da rede de distribuição de peças. Hoje, a Baldan opera três centros em Matão (SP), Maringá (PR) e Goiânia (GO), com mais de 1.900 itens disponíveis para pronta entrega e logística que permite entregas entre 12 e 24 horas em todo o país.
Dentro desse planejamento que a Baldan traça até 2030, a empresa avalia avançar para o Norte, com foco na região do Matopiba, que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
A estratégia mira reduzir o tempo de parada de máquinas no campo e acompanhar a expansão da agricultura fora do eixo tradicional.
Expansão passa por portfólio e quatro verticais
A estratégia da companhia está ancorada na ampliação da oferta de produtos e na atuação disciplinada dentro das áreas já consolidadas.
“Todo o nosso crescimento se dará nas quatro verticais. Não à toa, nós nos organizamos dessa maneira”, afirmou Capra, ao citar preparo de solo, plantio, pulverização e peças — áreas que formam a base da atuação da companhia.
Mais do que expansão geográfica, o foco está no aumento da gama de soluções.
“O que move isso, no nosso caso como fabricante, é o aumento do portfólio e atuar cada vez mais com maior gama de produtos e mercados”, disse.
Essa diversificação também funciona como um mecanismo de proteção em momentos de mercado mais desafiadores. Segundo Capra, linhas de menor valor agregado, como equipamentos ligados ao preparo de solo, tendem a manter a demanda mesmo em ciclos de crédito mais restrito, ajudando a sustentar a receita da companhia.
Segundo o executivo, essa estrutura permite à empresa equilibrar melhor os ciclos do agro.
“A característica da Baldan em atuar em quatro caixas similares, mas distintas, com dinâmicas diferentes, nos dá essa resiliência.”
Nova fábrica?
A expansão industrial também está no horizonte, mas ainda sem definição. A avaliação é de que o crescimento da demanda pode pressionar a capacidade produtiva nos próximos anos.
“Isso mostra que alguns segmentos, com esse crescimento e a importância da agricultura brasileira, nós vamos chegar em algum desses produtos onde a nossa capacidade de fabricação vai chegar no limite e, portanto, permite aspirar uma nova unidade”, afirmou.
A decisão, segundo ele, dependerá de uma combinação de fatores, como a proximidade da matéria-prima — especialmente o aço —, o acesso aos principais mercados consumidores, a malha logística e até políticas de incentivo regionais.
“No Brasil as coisas dependem”, resumiu.
Exportações ganham protagonismo
Com o mercado interno pressionado, a operação internacional ganhou ainda mais peso na estratégia. Hoje, até 25% da receita da companhia vem do exterior, com presença em mais de 60 países.
“No nosso caso, ele aumentou 12%. Mas o que para nós é muito relevante é o mix que é exportado. Nós crescemos muito em volume”, disse Capra.
O foco está no cinturão tropical, onde as condições agrícolas favorecem a adaptação dos equipamentos brasileiros.
África surge como próxima fronteira
Entre os mercados com maior potencial, a África aparece como aposta clara no planejamento de longo prazo. “A África é um continente fascinante. É uma agricultura predominantemente tropical, muito parecida com a nossa.”
Segundo ele, a similaridade climática, com predominância de agricultura tropical, e o avanço da mecanização tornam o continente um ambiente natural para expansão.
Apesar de mirar a retomada do faturamento bilionário, a Baldan evita cravar prazos em um cenário ainda incerto.
“A agricultura no Brasil cresce, a área expande. O produtor brasileiro tem uma característica muito interessante, porque ele é expansionista, ele gosta do que ele faz”, disse.
Ao mesmo tempo, reconhece as limitações do momento. “É só esperar o momento certo agora, porque às vezes o mundo atrapalha um pouco.”
Questionado sobre a possibilidade de voltar ao patamar de R$ 1 bilhão no centenário, em 2028, Capra respondeu com bom humor.
“Tem que combinar com os russos. Ou talvez com o Trump”.
*O jornalista viajou a convite da Baldan
