Juros altos derrubam investimentos do agro em 28% na safra 2025/26
Mesmo com R$ 433 bilhões contratados em crédito rural, programas de investimento registram forte retração; CPR ganha espaço e industrialização cresce quase 60%
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O crédito rural destinado à agricultura empresarial somou R$ 433 bilhões entre julho de 2025 e maio de 2026. Apesar do volume expressivo, o principal sinal da atual temporada é a forte retração dos investimentos no campo, que caíram 28,1% em relação ao mesmo período da safra anterior, refletindo a cautela dos produtores diante do elevado custo do crédito.
Os dados constam do Boletim de Desempenho do Crédito Rural elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com base em informações do Banco Central.
No acumulado da safra 2025/26, o crédito para a agricultura empresarial, sem considerar os recursos do Pronaf, registrou recuo de 5% frente aos R$ 458,1 bilhões contratados no ciclo anterior.
Segundo o boletim, a queda nos investimentos não está relacionada à falta de recursos disponíveis, mas à redução da demanda por financiamentos em um ambiente marcado por juros elevados, aumento da inadimplência, custos de produção ainda pressionados, riscos climáticos e maior seletividade das instituições financeiras na concessão de crédito.
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Entre os programas de investimento, todos registraram retração nas contratações. Os maiores recuos ocorreram no Proirriga (-56,2%), voltado à agricultura irrigada, no Prodecoop (-54,5%), destinado às cooperativas, e no Moderfrota (-53,5%), principal linha de financiamento para aquisição de tratores, colheitadeiras e implementos agrícolas.
Abaixo
O boletim destaca ainda que os programas de investimento apresentam execução abaixo do previsto. Segundo o documento, permanecia um saldo de 52% nos programas de investimento até maio, indicando baixa utilização dos recursos disponíveis
O movimento também aparece na quantidade de operações contratadas. O número total de contratos da agricultura empresarial recuou 23,6% na comparação anual, reforçando a cautela dos produtores diante do cenário de crédito mais caro.
Enquanto os investimentos perderam força, instrumentos ligados ao financiamento da produção ganharam espaço. As Cédulas de Produto Rural (CPR) alcançaram R$ 185,2 bilhões em contratações, avanço de 8% sobre a safra anterior. Com isso, passaram a representar 42,8% de todo o crédito rural empresarial, consolidando-se como o principal mecanismo de financiamento do custeio agrícola.
Considerando conjuntamente as operações de custeio e as CPRs, o volume destinado ao financiamento da produção alcançou R$ 322,7 bilhões, recuo de apenas 2,1% em relação à safra anterior, indicando uma migração gradual das linhas tradicionais para mecanismos privados de financiamento.
Industrialização
Outro destaque positivo foi o desempenho da industrialização. Os financiamentos destinados ao processamento e à agregação de valor dos produtos agropecuários saltaram de R$ 19,7 bilhões para R$ 31,5 bilhões, crescimento de 59,5%.
A industrialização também foi a única finalidade a registrar aumento no número de contratos, com alta de 17,7%. Segundo o documento, o avanço está ligado principalmente à atuação das cooperativas agropecuárias e ao fortalecimento das cadeias agroindustriais.
Os médios produtores também apresentaram desempenho superior ao registrado na safra passada. As contratações via Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) totalizaram R$ 56,4 bilhões, alta de 4,3%, impulsionadas pela ampliação dos recursos destinados a esse público.
Na análise regional, o Nordeste registrou a maior retração entre todas as regiões do país, com queda de 25,8% no volume financeiro das operações de crédito rural. Já a Região Sul manteve a liderança em número de contratos, com 131.109 operações realizadas no período.
O boletim também mostra uma mudança na composição das fontes de recursos. A LCA Controlada avançou mais de 3.000%, passando de R$ 927 milhões para R$ 28,8 bilhões e tornando-se a segunda principal fonte de recursos controlados do crédito rural.
Em contrapartida, a LCA Livre recuou 38%, movimento parcialmente compensado pelo crescimento de 49,5% da Poupança Rural Livre.
Para o Mapa, uma eventual redução da taxa Selic ao longo dos próximos meses poderá estimular a retomada dos investimentos e ampliar a utilização dos recursos ainda disponíveis nos programas oficiais de crédito rural.