Clima extremo muda genética das hortaliças e leva produtor a priorizar estabilidade, diz HM.CLAUSE

    Luis Mattozo, da HM.CLAUSE, afirma que a variabilidade climática mudou o melhoramento genético e a forma como o produtor escolhe suas sementes

    Canteiros de hortaliças em estação experimental onde são desenvolvidas e testadas novas cultivares adaptadas às mudanças climáticas.

    Estação experimental da HM.CLAUSE reúne cultivares avaliadas para resistência, estabilidade e adaptação às diferentes condições climáticas. Foto: Divulgação/HM.CLAUSE

    17deJulhode2026ás16:13

    As mudanças climáticas vêm transformando a horticultura brasileira e influenciando desde o desenvolvimento de novas cultivares até as decisões de investimento dos produtores.

    Na avaliação da HM.CLAUSE, os eventos climáticos extremos mudaram a forma como a genética é desenvolvida e também a maneira como os produtores escolhem suas sementes, priorizando materiais com maior estabilidade, resistência e previsibilidade ao longo do ciclo produtivo.

    Para Luis Mattozo, gerente de Vendas Brasil Sul da empresa, o potencial máximo de produtividade deixou de ser o único critério na escolha das sementes.

    "Em um ambiente marcado por maior variabilidade climática, pressão fitossanitária e custos elevados de produção, o produtor entende que uma lavoura estável frequentemente oferece melhor retorno econômico do que um material que apresente elevado potencial apenas em condições ideais", disse em entrevista ao Agrofy News.

    Segundo o executivo, essa mudança de comportamento tem impulsionado uma retomada seletiva dos investimentos em sementes de maior tecnologia. Ao mesmo tempo, os programas de melhoramento passaram a priorizar características como resistência a doenças, adaptação regional e estabilidade fisiológica.

    Mattozo também afirma que a variabilidade climática se tornou o principal desafio da horticultura brasileira, destaca o papel das estações experimentais da empresa no desenvolvimento de materiais adaptados às condições tropicais e projeta um segundo semestre mais favorável para o setor.

    Entre as culturas com maior potencial de crescimento até o fim de 2026, ele cita tomate, pimentão e brócolis.

    Confira a entrevista concedida ao Agrofy News:

    Agrofy News: Como a HM.CLAUSE avalia o mercado brasileiro de hortaliças em 2026? O produtor voltou a investir em sementes de maior tecnologia neste ano?

    Luis Mattozo - O mercado brasileiro de hortaliças atravessa um momento de maior racionalidade nos investimentos. Depois de um 2025 marcado por elevada produtividade em diversas culturas, excesso de oferta em alguns segmentos e pressão sobre a rentabilidade, o produtor passou a tomar decisões mais criteriosas em relação aos custos de produção. As projeções para 2026 indicam uma redução ritmo de expansão das áreas e mais foco em eficiência produtiva, estratégia também apontada pelo Anuário Hortifruti Brasil 2025/2026.

    Nesse contexto, observamos uma retomada seletiva dos investimentos em sementes de maior valor tecnológico. O produtor deixou de avaliar apenas o custo inicial da semente e passou a considerar o retorno proporcionado pela genética ao longo de todo o ciclo da cultura. Híbridos que reúnem estabilidade produtiva, pacotes robustos de resistências, qualidade pós-colheita e adaptação às diferentes regiões reduzem riscos e aumentam a previsibilidade da lavoura, tornando-se um componente estratégico da rentabilidade.

    Essa tendência ficou bastante evidente durante a Hortitec 2026. Nas conversas com clientes e distribuidores, percebemos um interesse crescente por materiais que entreguem produtividade consistente e segurança agronômica diante de cenários cada vez mais desafiadores.

    Os eventos climáticos extremos estão mudando a forma como a empresa desenvolve novos cultivares? Quais características passaram a ser prioridade nos programas de melhoramento?

    Luis Mattozo - Sem dúvida. A variabilidade climática deixou de ser um fator eventual para se tornar uma variável permanente nos programas de melhoramento genético. Episódios de temperaturas extremas, chuvas concentradas, períodos prolongados de estiagem e maior pressão de doenças alteram significativamente o ambiente de produção e exigem uma abordagem diferente no desenvolvimento de novas cultivares.

    Hoje, a prioridade não é apenas alcançar altos tetos produtivos, mas desenvolver materiais capazes de manter desempenho consistente sob diferentes condições ambientais. Isso significa selecionar híbridos com maior estabilidade fisiológica, arquitetura de planta equilibrada, sistemas radiculares mais eficientes, maior capacidade de adaptação e pacotes robustos de resistência às principais doenças.

    Nos lançamentos apresentados pela HM.CLAUSE na Hortitec 2026, esse conceito aparece de forma bastante clara.

    Hoje o produtor busca produtividade máxima ou estabilidade da produção diante dos riscos climáticos? Como esse comportamento mudou nos últimos anos?

    Luis Mattozo - Nos últimos anos houve uma mudança bastante significativa na forma como o produtor avalia um cultivar. Se antes o principal indicador era o potencial máximo de produtividade, hoje cresce a busca por previsibilidade.

    Em um ambiente marcado por maior variabilidade climática, pressão fitossanitária e custos elevados de produção, o produtor entende que uma lavoura estável frequentemente oferece melhor retorno econômico do que um material que apresente elevado potencial apenas em condições ideais.

    Por isso, atributos como uniformidade de produção, resistência genética, qualidade pós-colheita, maior vida útil dos frutos e regularidade de desempenho passaram a ter peso semelhante — ou até superior — ao potencial produtivo absoluto. Essa mudança de comportamento tem orientado também os investimentos em pesquisa da HM.CLAUSE, que busca entregar soluções capazes de reduzir riscos e aumentar a segurança econômica do produtor.

    O Brasil já é referência no desenvolvimento de genética para hortaliças ou ainda depende principalmente de materiais desenvolvidos no exterior?

    Luis Mattozo - O Brasil ocupa hoje uma posição bastante estratégica no desenvolvimento de genética para hortaliças. Embora o melhoramento da HM.CLAUSE faça parte de uma rede global de pesquisa, o desenvolvimento de cultivares depende cada vez mais da validação local.

    As condições brasileiras são extremamente diversas, tanto do ponto de vista climático quanto fitossanitário. Isso exige programas robustos de avaliação em diferentes regiões produtoras antes que um híbrido seja lançado comercialmente.

    As estações experimentais da HM.CLAUSE em Jacutinga (MG), Irecê (BA) e Mossoró (RN), por exemplo, cumprem exatamente esse papel. É nesse ambiente que materiais são avaliados quanto ao desempenho agronômico, adaptação regional, resistência a doenças e comportamento em condições reais de cultivo, permitindo que as recomendações técnicas sejam construídas com base em dados obtidos no próprio mercado brasileiro.

    Portanto, o Brasil deixou de ser apenas um mercado consumidor de genética e tornou-se um ambiente estratégico para validação, adaptação e desenvolvimento de soluções direcionadas às necessidades da horticultura tropical. 

    Quais são hoje os maiores desafios para o setor de hortaliças: clima, mão de obra, custos de produção, crédito ou rentabilidade? Qual deles mais preocupa a empresa?

    Luis Mattozo - Esses fatores estão cada vez mais interligados e afetam diretamente a competitividade do setor. O Anuário Hortifruti Brasil aponta que 2026 deverá continuar sendo um ano de crescimento moderado, crédito restrito e necessidade de maior eficiência produtiva.

    Na nossa avaliação, a variabilidade climática é o elemento que potencializa todos os demais desafios. Eventos climáticos extremos aumentam a incidência de doenças, elevam a necessidade de manejo, ampliam custos, comprometem produtividade e reduzem a previsibilidade financeira da atividade.

    Ao mesmo tempo, persistem desafios estruturais importantes, como escassez de mão de obra especializada, aumento do custo dos insumos e margens mais apertadas em diversas culturas.

    Nesse cenário, a genética passa a exercer um papel ainda mais estratégico, contribuindo para reduzir riscos por meio de materiais mais resistentes, produtivos e adaptados às condições locais.

    Qual é a expectativa da HM.CLAUSE para o segundo semestre? A empresa projeta crescimento nas vendas e quais fatores devem impulsionar esse desempenho?

    Luis Mattozo - A expectativa para o segundo semestre é positiva. Observamos um ambiente de maior equilíbrio entre oferta e demanda em diversas cadeias hortícolas, além de uma postura mais estratégica por parte dos produtores, que tendem a concentrar investimentos em tecnologias capazes de oferecer retorno consistente.

    Nossa perspectiva de crescimento está diretamente relacionada ao fortalecimento do portfólio de lançamentos, à ampliação da presença regional e ao trabalho técnico desenvolvido junto aos clientes.

    Eventos como a Hortitec e o Experience Day reforçaram essa estratégia ao aproximar produtores, distribuidores e equipe técnica, permitindo que os cultivares fossem avaliadas em condições reais de campo e fortalecendo a confiança do mercado nas soluções desenvolvidas pela empresa.

    Quais culturas ou segmentos de hortaliças devem apresentar maior potencial de crescimento no Brasil até o fim de 2026?

    Luis Mattozo - O potencial de crescimento deverá estar concentrado nas culturas em que o produtor consegue agregar tecnologia e capturar maior valor comercial.

    No segmento de tomate, especialmente para mesa, continua existindo demanda por híbridos que combinem produtividade, resistência genética e qualidade pós-colheita, atributos fundamentais para reduzir perdas e atender às exigências da cadeia de comercialização.

    Também observamos oportunidades importantes como pimentão, brócolis e cultivos protegidos, segmentos nos quais a adoção de genética mais avançada pode gerar ganhos expressivos de eficiência.

    Mais do que a expansão da área cultivada, acreditamos que o crescimento do setor em 2026 estará associado ao aumento da produtividade por hectare, à maior tecnificação das propriedades e ao uso de cultivares desenvolvidos especificamente para enfrentar os desafios climáticos, fitossanitários e mercadológicos do Brasil. Essa é uma direção que também aparece nas perspectivas do Anuário Hortifruti Brasil, que aponta 2026 como um ano de eficiência, estratégia e redução de riscos.

    Sobre HM. CLAUSE

    HM.CLAUSE é a união global das marcas de sementes vegetais Harris Moran e Clause Vegetable Seeds. Com 16 subsidiárias e presença comercial em 57 países, a empresa desenvolve e produz sementes de alta qualidade em estreita parceria com produtores e demais elos da cadeia agrícola.

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