O Líder como Ativo de Confiança: Lições da "Mordida" do McDonald's para o Agro

    Executivo analisa como autenticidade e presença digital se tornaram fatores decisivos para a confiança e a reputação no agronegócio

    O Líder como Ativo de Confiança: Lições da "Mordida" do McDonald's para o Agro
    10deMarçode2026ás18:15

    É com grande entusiasmo que inicio minha jornada como colunista aqui no Agrofy News. Para esta estreia, escolhi um tema que considero a "nova fronteira" da gestão:

    Como o líder do agronegócio pode construir uma autoridade digital que transborde confiança e autenticidade. No nosso setor, onde a credibilidade é o insumo mais valioso, a presença do executivo deixou de ser opcional para se tornar estratégica.

    Recentemente, a revista Fortune trouxe um caso que me fez refletir profundamente sobre a jornada que venho trilhando nas últimas décadas. Chris Kempczinski, CEO global do McDonald's — um executivo que admiro pela gestão brilhante e que entregou um crescimento de 72% nas ações da companhia — virou alvo de paródias impiedosas dos rivais. O motivo? Uma mordida hesitante e visivelmente artificial em um novo hambúrguer diante das câmeras.

    Embora Chris seja um mestre na estratégia, esse pequeno deslize na execução digital entregou munição de bandeja para a concorrência. Para mim, que vivi os desafios de cadeiras de CEO e CMO em multinacionais e empresas do setor, esse episódio acende um alerta claro: toda empresa hoje é uma empresa de mídia, e o CEO é o seu principal ativo de confiança.

    No Agro, onde o "fio do bigode" agora é digital, não basta ser eficiente "dentro da porteira". É preciso ocupar a vitrine com verdade. 

    O CEO como fiador: Por que eu sempre acreditei no "Estúdio em Casa"

    Sempre defendi que a liderança no Agro não pode ser exercida apenas entre quatro paredes. Em minhas gestões, fiz questão de implementar algo que, na época, parecia inusitado para muitos: um estúdio de podcast dentro da empresa.

    Eu não via aquilo como um custo, mas como um investimento estratégico em proximidade. O estúdio era a ferramenta para humanizarmos a marca, darmos voz aos nossos especialistas e, principalmente, para que eu pudesse falar diretamente com o produtor rural sem filtros. Eu entendi cedo que, na era da influência, a vitrine digital é tão vital quanto o que acontece dentro da porteira.

    A liderança de aval e o ativo da confiança

    O tropeço de Kempczinski ocorreu porque ele quebrou a regra de ouro da era digital: a autenticidade. No nosso setor, esse erro é fatal. O produtor rural possui um 'detector de mentiras' aguçadíssimo; ele não compra apenas uma tecnologia ou um insumo, ele compra o aval e a integridade de quem está por trás da promessa.

    A reação dos rivais foi cirúrgica: enquanto o Burger King respondia com um vídeo de seu presidente dando uma mordida real e robusta em seu principal sanduíche, o Wendy’s ironizava a situação criando um cargo de 'Avaliador Oficial' para quem realmente gostasse de comer. Eles não atacaram o balanço financeiro do McDonald's, mas a sinceridade do seu líder.

    Como destaca a reportagem da Fortune, baseada em estudos da FTI Consulting e Weber Shandwick, os dados apenas confirmam o que eu sempre senti no campo: 92% dos profissionais confiam mais em marcas cujos líderes são ativos nas redes e 81% dos executivos já consideram a presença pública do CEO como um pilar essencial para a reputação corporativa.

    A isso, eu dou o nome de Liderança de Aval. É o ponto onde a minha estratégia encontra a minha integridade. O líder torna-se o rosto da garantia, fortalecendo o Empower Branding e consolidando o ativo mais valioso do Agro: a confiança.

    No nosso setor, a consistência e a durabilidade das relações são o nome do jogo. O líder atua como o fiador de uma parceria que atravessa safras e gerações. Vejo esse mesmo compromisso em nomes que dominam com maestria o solo firme das fazendas e o campo fértil da comunicação digital:

    • José Marcos Sarabia (Tecnomyl): É um exemplo de como usar a rede para projetar solidez e integração. Ao compartilhar não apenas os resultados, mas a visão estratégica do Grupo Sarabia, ele atua como uma ponte de confiança para o mercado latino-americano, humanizando uma operação de escala transnacional.

    • Fernando Degobbi (Coopercitrus): Transformou a comunicação do cooperativismo. Ao se posicionar ativamente, ele mostra que uma cooperativa pode (e deve) ser tão ágil e moderna quanto uma Big Tech, trazendo o cooperado para dentro da estratégia de inovação da casa.

    • Andre Savino (Syngenta): Destaca-se pela clareza ao traduzir estratégias corporativas complexas para a realidade do produtor. Sua presença digital combate a frieza institucional, estabelecendo uma conexão direta que é fundamental para a adoção de novas tecnologias e práticas sustentáveis.

    • O legado de Antonio Zem: Meu mestre, que foi o precursor desse movimento. Ele entendia que a autoridade do líder é uma ferramenta de educação. Zem usava sua imagem para elevar o patamar técnico e ético do ecossistema, provando que o conhecimento só gera valor real quando é compartilhado com generosidade.

    Esses líderes entenderam que, no Agro, a 'vitrine digital' não é lugar de propaganda, é lugar de presença e posicionamento. Eles não apenas reverberam as ações de suas empresas; eles dão o aval necessário para que o mercado sinta segurança em caminhar ao lado delas.

    A Vitrine é o Novo Campo de Batalha

    O agronegócio brasileiro é o mais eficiente do mundo "dentro da porteira". Mas, para vencermos a guerra das narrativas na sociedade, precisamos ir além da eficiência: precisamos ser reais. O caso do McDonald's nos ensina que, se o líder se omite ou é artificial, ele entrega a história da sua empresa de bandeja para o concorrente.

    Em meus tempos como CEO e CMO, aprendi que se você vai "morder" o produto da sua empresa diante das câmeras, sua mordida tem que ser autêntica. A confiança é um insumo que não aceita atalhos; ela floresce onde a liderança é presente, humana e, acima de tudo, consistente.

    Contudo, tenho uma convicção ainda mais profunda: o líder moderno do nosso setor precisa ser mais do que um embaixador da própria marca. Ele tem que ser, acima de tudo, um embaixador do agricultor e da nossa agricultura. Quando ocupamos as redes sociais com autoridade, não estamos apenas vendendo insumos ou tecnologia; estamos defendendo o legado de quem acorda antes do sol para alimentar o mundo. Estamos dando voz a quem produz e mostrando à sociedade urbana a seriedade, a sustentabilidade e a força da nossa agricultura.

    Ser um Líder de Aval é isso: é colocar o seu nome e a sua história a serviço de uma causa maior. A vitrine digital é o novo campo de batalha, e nela, a verdade é a nossa melhor estratégia.

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