O Agro brasileiro precisa aprender a falar com o Brasil — e com o mundo
Este artigo é um convite para sairmos da defesa e assumirmos o protagonismo da nossa história. Afinal, defender o agricultor é, antes de tudo, saber contar a sua verdade

O agronegócio brasileiro já provou ao mundo que é mestre na arte de produzir. Somos a referência global em genética, agricultura de precisão, manejo integrado e produtividade tropical. Mas, como costumo dizer em minhas andanças pelo setor: do que adianta sermos os melhores do mundo dentro da porteira, se do lado de fora a percepção sobre nós ainda é distorcida?
Minha trajetória como agrônomo sempre foi guiada por uma convicção: a técnica nos trouxe até aqui, mas o marketing de propósito é o que nos levará adiante. A próxima fronteira competitiva não é apenas agronômica, tecnológica ou financeira. Ela é, acima de tudo, comunicacional.
Precisamos encarar uma pergunta desconfortável: o agro aprendeu, de fato, a se comunicar? Minha resposta é direta: ainda estamos na alfabetização. Produzimos valor em escala monumental, mas falhamos em traduzi-lo para a sociedade. E a regra do jogo é clara: quem não gerencia a própria narrativa acaba refém da versão dos outros.
Somos eficientes e sustentáveis, mas nos falta o "músculo" da diferenciação. Não basta falar para quem já vive o agro; precisamos conquistar a mente e o coração de quem consome, do asfalto à mesa. Somos apenas 1% da população do Brasil que dedicam a sua vida para alimentarem 25% da população mundial. É hora de pararmos de ser o "setor silencioso" para nos tornarmos uma voz forte, técnica e apaixonada.
Este artigo é um convite para sairmos da defesa e assumirmos o protagonismo da nossa história. Afinal, defender o agricultor é, antes de tudo, saber contar a sua verdade.
Chega de falar apenas para o espelho
O maior erro estratégico que observo no setor é a insistência do agro em falar apenas para quem já concorda com ele. Criamos uma bolha técnica e emocional: falamos com o produtor, com a revenda e com a indústria, enquanto o público urbano — que decide o destino do nosso mercado através do consumo e do voto — forma sua opinião baseada em simplificações ideológicas ou desinformação.
Essa dificuldade de diálogo é potencializada por um mundo cada vez mais polarizado. Estamos perdendo a capacidade de escutar quem pensa diferente. No Brasil, esse cenário é ainda mais agudo: o debate público se tornou radical e binário. Em vez de convergência, buscamos antagonistas em tudo. Criamos trincheiras entre pretos e brancos, homo e héteros, direita e esquerda. E, tragicamente, permitimos que a relação "Campo versus Cidade" fosse empurrada para esse mesmo abismo de hostilidade.
