Cereais de inverno "ameaçam" milho na dieta de bovinos para cortes nobres

Trigo, triticale, aveia e cevada podem elevar ganho de peso e a qualidade da carne

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Cereais de inverno "ameaçam" milho na dieta de bovinos para cortes nobres
17deMaiode2022ás15:23

O uso de cereais de inverno, como o trigo, vem ganhando cada vez mais espaço no mercado de proteína animal. E não são poucas as justificativas. Uma delas é o fato de serem forragens com maior teor de proteína e menor de carboidrato, na comparação com o milho, por exemplo.

Estudos recentes realizados pela Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuparias (Embrapa) na Região Sul do Brasil comprovam melhora na qualidade da carne de animais alimentados com os cereais de inverno – também são exemplos: triticale, aveia e a cevada.

Outro ponto é que, além dos benefícios na dieta dos ruminantes – com resultados de alteração no sabor e até no aroma da carne de animais como Angus, Canchim e Wagyu -  os cereais são considerados opções mais sustentáveis e rentáveis para produtores, segundo Embrapa.

“Além da genética, o sistema de criação e terminação do animal interfere diretamente nas características da carne. Entre um extremo, de produção somente com pastagens, até o outro extremo, de confinamento total, com alimentação por grãos, há a formação de produtos totalmente diferentes”, explica a pesquisadora Élen Nalério, da Embrapa Pecuária Sul (RS). 

Ela ressalta que a diferença se dá não apenas no tipo de gordura formada, mas, consequentemente, no sabor e aroma dessa carne. “Os bovinos são animais naturalmente prontos para fazer a digestão de fibras, de pasto. Para fazer a digestão de grãos, eles precisam passar por uma adaptação. Essa variação de alimentação faz com que sejam formadas gorduras totalmente diferentes, e isso interfere também no sabor e aroma do produto”, explica.

Também é ponto a ser adicionado na equação em prol dos cereais o fato de “qualidade e segurança do alimento" aparece como quinto item mais relevante na “Pesquisa sobre as Prioridades da Pecuária de Corte Brasileira”, realizada em 2021, e com recorte da Região Sul do Brasil. Participaram 735 produtores, de 193 municípios.

Escassez forragens

Os cereais de inverno já são aliados dos pecuaristas do sul-brasileiro em períodos de déficit hídrico, frio e excesso de umidade, que dificultam o manejo e implicam em sazonalidade produtiva das pastagens.

A escassez de forragens é normalmente associada às condições climáticas e aos ciclos de crescimentos das espécies que chegam ao final do verão com a estrutura fibrosa, perdendo drasticamente o valor nutritivo.

De acordo com a Embrapa, os cereais destacam-se justamente por de prover alimento no outono e no inverno no Sul do Brasil, quando há escassez de pastagens naturais ou mesmo as cultivadas. “Existe uma grande ociosidade de áreas no inverno que podem ser manejadas para produzir altos volumes de forragens. Com o avanço da soja em detrimento da pecuária, o gado acaba confinado a espaços cada vez mais restritivos e depende da suplementação no cocho. Esse alimento pode ser produzido no inverno e armazenado, a partir de feno, silagens, grãos secos ou mesmo palha para suprir demanda em períodos adversos ou para sistemas de produção intensivos”, explica o pesquisador da Embrapa Trigo Renato Fontaneli.

Cevada como alternativa

Exemplo prático do uso de cereais é narrado pela zootecnista Maryon Carbonare. Uma das propriedades acompanhadas por ela em Ponta Grossa, no Paraná, enfrentou a falta de milho para alimentar o rebanho de 400 animais, das raças Angus e Canchim, em sistema de cria e recria. 

O produtor, então, foi orientado a colher os 32 hectares de cevada cervejeira que estavam destinada a colheita de grãos, com o resultado de ter abastecido o plantel durante quatro meses, mantendo ganho de peso e a taxa de reprodução.

Outro exemplo vem da Cooperaliança, com sede em Guarapuava, também no Paraná, como foco na criação de Angus. No frigorífico da cooperativa são 30 mil cabeças abatidas por ano. Lá, a avaliação de cereais de inverno para forrageamento dos animais começou há cinco anos, com análises a campo e em laboratório de culturas como trigo, aveia, centeio, cevada e triticale. “Com o avanço da soja e do milho sobre a pecuária vimos a necessidade de aprimorar a alimentação do gado, que fica até oito meses nas propriedades dos cooperados em recria e terminação”, conta o engenheiro agrônomo da Cooperaliança, Rodolfo Carletto.

Segundo ele, o volumoso servido no cocho era baseado na silagem de milho, mas a entrada prematura da suplementação com grãos e o excesso de carboidratos (amido) acabava achatando a curva de crescimento dos animais: “Verificamos que as vísceras estavam ficando comprometidas. Até 50% do fígado acabava descartado por lesões”. O problema, conforme Rodolfo, foi significativamente reduzido com o uso de cereais de inverno que apresentam maior teor de proteínas (11%) e menor teor de carboidratos (30% de amido) do que o milho, que apresentou 7% de proteínas, 35% de amido na silagem e 75% de amido nos grãos.  

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